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quinta-feira, 2 de julho de 2015

Destrinchando o Muk Yam Jong, o boneco de madeira do Wing Chun, em uma análise de caso. Parte II

Pois é, assim como o personagem do game Tekken, Mukujin (木人) lit. Pessoa de Madeira, Uma corruptela de seu alter ego, Muk Yan Jong (木人樁), Pilar do Homem de Madeira, hoje no mínimo você se liberta de algumas ideias prontas quando se trata de treinamento chinês tradicional. 


Vou começar pedindo ao leitor que viu a sequência que escolhi para análise na primeira parte deste artigo que assista o vídeo abaixo em que executo informalmente a nona seção do boneco (em duas partes complementares para os dois lados), repare novamente nas fotos em destaque, e, depois de ler as legendas e visualizar melhor a movimentação, tente imaginar você mesmo uma aplicação lógica para os dois últimos movimentos da sequência numa luta livre, sem medo de errar. Por enquanto peço ao leitor que desconsidere os movimentos finais que se repetem por cada uma das onze seções da forma. Vamos lá?

A propósito, mais abaixo coloquei duas fotos do próprio Patriarca Yip Man* executando os movimentos para que haja uma melhor contextualização do posicionamento. 



Antes de ir a um evento beneficente pedi a minha filha pequena para me filmar fazendo a sequência de forma lenta e fluída.


Como a interpretação mais óbvia dos primeiros movimentos foi abordada na primeira parte da matéria, vamos nos deter nos próximos movimentos abaixo:




1. Bong Sao. SiFu Marcos caminha para a sua direita enquanto executa o movimento com seu braço esquerdo. A mão de trás (direita) fica em Wu Sao (護手), uma guarda clássica de vários estilos de Kung Fu. Em seguida, um pequeno semi-passo seguido de pivô e,


2. Tan Da Chai Gerk. Tal como na forma Sil Lim Tao, o Bong Sao da foto anterior (braço esquerdo) se transforma em Tan Sao dando uma ideia de transformação e fluidez.  a perna de SiFu Marcos sobe na transição e logo desce para um forte pisão na "perna" do Muk Yam Jong. 


3. Na foto, fica mais claro o deslocamento lateral do Grande Mestre para sua direita.



4. Embora a sequência se feche pelo mesmo lado, esta foto vista pelo lado oposto mostra melhor tanto a profunda simetria quanto a semelhança conceitual entre os movimentos da perna e do braço embora, na forma, a função da perna seja o ataque simultâneo à defesa na parte de cima



Bem, aí você me faz lembrar que o exemplo de aplicação que mostrei na primeira parte do artigo não seria muito diferente de "lutar" contra o boneco. Realmente. A defesa era feita na forma por dentro (Noi Moon) dos braços do boneco e o exemplo aplicado da mesma forma. Concordo. Mas aquela não é a única interpretação possível. Eu poderia, por exemplo, ter feito a mesma técnica defendendo pela "Porta de Fora" (Oi Moon) que inclusive é mais comum em nossa escola. Confuso? Vamos ver o que acontece se interpretarmos as defesas literalmente como vemos na forma e as colocamos tal como são na aplicação solta, vejamos o Bong Sao: 



5. Oops, saiu algo errado. Deve ser porque o João socou de cima pra baixo.



6. Soco de Wing Chun de baixo pra cima, mesmo resultado. Ainda que o oponente tivesse socado com o outro braço nos dois casos o resultado não teria sido muito diferente. A defesa não é impossível, mas muito difícil, nesta postura.


Bong Sao (膀手) em cantonês quer dizer, literalmente, braço alado. Podemos ficar aqui imaginando as origens históricas do termo, se teria sua origem na imitação da asa garça, uma vez que também há movimentos que mimetizam a movimentação da serpente, outro animal simbólico associado às raízes históricas reais ou imaginárias do sistema Wing Chun, a depender do estilo abordado. O fato é que, hoje, três séculos e meio de evolução depois, é melhor dizer que não imitamos mais os movimentos ou a forma física dos bichos míticos, mas o comportamento dos mesmos em combate, suas estratégias, por isso mimetizar a movimentação do animal deixou de ter importância. Sendo assim gostaria de apresentar uma outra tradução do termo, que, como verbo, poderia ser traduzido como "parar". Observe a foto abaixo, onde o Bong Sao é executado no exercício Tang Chi Sao (單黐手): 



7. Bong Sao em Tang Chi Sao



Neste caso o Bong funciona tal foi idealizado originalmente porque ambos os jogadores estão posicionados de forma ideal e já tem, de saída, o contato, ou seja, a sensibilidade tátil para ANTECIPAR a movimentação do oponente de acordo com a teoria do sistema. O próprio exercício foi desenvolvido para que se exercite a teoria de forma lógica e sem pensar, por instinto. Repare que a mão do oponente não consegue sequer sair para desferir propriamente o soco. Em situações em que treino a "anti-esgrima" com meus atletas do MMA**, este movimento, em especial sua versão mais baixa (Dai Bong Sao) é usado para que o adversário não acesse sua cintura ou axila no trabalho de grade.

Contudo, uma vez que o soco seja disparado de longe, a defesa exatamente como feita originalmente não surtirá efeito. Não importa o quão boa ou bem posicionada seja a defesa, ela não irá "parar" nada, pois só pode fazê-lo interceptando na saída. No boneco é a mesma coisa. O posicionamento e o contato com "membros" do mesmo ocorrem na curta distância, os movimentos, como nas demais formas, são "elementos técnicos" chaves-mestras, não movimentos especializados. Todos sabem, em qualquer cultura, o que é um triângulo, mas um triângulo é antes de tudo uma ideia que pode assumir diversas formas, ainda que obedeça aos princípios que o definem como tal. Assim sendo, para a média e longa distâncias, posições em que é também preciso saber lutar Wing Chun há que se fazer uma adaptação dinâmica e passível de mudança todo o tempo, de forma aguda (no calor do momento) e crônica (adaptando-se às mudanças cíclicas das estratégias e modismos das artes marciais, mais do que nunca conectadas pela era da informação e do esporte de contato). 


Vejamos uma possível interpretação literal técnica que se segue: 



8. Tan Da Chai Gerk em Wing Chun San Sik



Parece um pouco melhor, não? Particularmente eu acho a foto um bocado bonita. É meio exótica, não lembra um pouco uma figura de Shiva***? Executo em cima novamente um Tan Sao com Dai Jeung só que desta vez pela "porta de fora" com um forte pisão (Chaai Gerk踩腳) na perna da frente. Gosto de fazer alguns movimentos variantes deste durante a prática do Seung Chi Sao (雙黐手), mas, cá pra nós, não parece ao leitor uma técnica com um grau de alto de dificuldade de aplicação numa luta solta? Se o sujeito estiver avançando com dois movimentos rápidos, qual a possibilidade que teremos de nos adaptar sem sermos atingidos e/ou jogados para trás com o impulso do oponente, principalmente se ele vem com tudo, como ocorre com frequência nas lutas de lutas de rua? 

Eu gosto bastante do simbolismo dessa técnica, e gosto da possibilidade de pisar a perna da frente do meu adversário lutando contra atletas, coisa que faço muito em meus combates, mas note que a própria combinação já admite que você deve estar precavido na parte de cima. Vamos ver agora uma adaptação alternativa para as duas técnicas, sem desrespeitar a teoria do sistema, com a ajuda de meu aluno Fabio, estudante do nível Chum Kiu (尋橋):

9. Vai rolar agressão. Hau Mah.


10. Bong Sao adaptado com Jam Sao como mão de guarda. 

11. Bong se transforma em Tan, em cima, e Tan Lan Gerk em baixo

12. A mão livre segue para a frente em Yat Ji Jung Choi. 


13. Meu aluno João (calção vermelho) aplica a técnica durante luta de Muay Thai. Alguns anos depois ele nocauteria com técnica de Wing Chun no mesmo estádio, sagrando-se campeão estadual.




Na sequência acima temos uma situação onde na iminência de rolar um combate, já posiciono minha perna atrás na base em Hau Mah (foto 9) levantando as mãos o mais rápido possível. A um aluno meu aconselharia a bater primeiro, mas a depender da situação isso não é possível. Em lutas de rua quem bate primeiro quase sempre vence, e a possibilidade de defender algo que vem de lá é muito mais alta quando se tem os dois braços erguidos. Note que a partir do momento em que muda a minha base e meu corpo fica por algum motivo um pouco mais de lado, muda-se o referencial de Linha Central que sempre deve ser lida como a menor distância entre você e seu adversário. 


Fábio lança um atípico direto de esquerda (foto 10). Não importa. Fosse de direita a defesa seria a mesma, você não terá tempo para escolher. No Wing Chun real não ficamos esperando "ver" o golpe para depois escolher qual defesa fazer, pois isso quase nunca funciona. Com pequeno passo para trás eu cubro meu rosto com Bong Sao, com um Jam Sao (枕手), (ou Pow Jung Sao em algumas escolas) eu ajudo a melhorar a cobertura em cima. Escondo meu queixo um pouco atrás do ombro, cancha de combate, enquanto expondo meu cotovelo contra os dedos de Fabio. Caso o oponente esteja sem luvas, existe uma possibilidade real de fratura. 

Junto com o movimento de defesa meu corpo acompanha a trajetória do golpe girando para minha direita Mencionar este giro é fundamental para que o leitor acompanhe a dinâmica de transformação de um elemento técnico "simbólico", recurso recorrente nas AMTC***, para uma técnica de luta específica e que deve ser treinada exaustivamente para que funcione. Quando eu trago meu quadril durante o passo em Bong Sao no Muk Yan Jong e eu estou na verdade apenas repetindo um padrão presente na segunda forma Chum Kiu (
尋橋), quando andamos numa espécie de base híbrida. Pense, a técnica não foi bolada assim à toa, temos de ser perspicazes para interpretar. Você não está em Toy Mah (Empurrar a Base), mas em Joh Mah (Girar a Base). Este padrão será repetido, mas como técnica mais acabada, na forma Baat Jam Dao (八斬刀), com as facas. Lembre-se não há nada no Muk Yam Jong que não seja praticado nas formas anteriores. O número 108, usado desde tempos imemoriais associado à medicina e artes marciais orientais, significa domínio pleno sobre um ciclo e  sua conclusão. Não à toa Yip Man associou a forma a este número poderoso.   






14. Na foto executo Bong Sao andando em base "híbrida" durante a forma Chum Kiu (尋橋): caráter simbólico e adaptável das técnicas de Wing Chun. 





Bong Sao em Muk Yan Jong sempre "chama" outro movimento complementar, para finalizar a sequência, pois nunca é um fim em si mesmo, estático, mas um movimento de transição, como os são o pequeno e grande Gahn Sao e Kwan Sao (que também é composto por um Bong) e que são repetidos com ele por toda a forma em movimentos que invariavelmente fazem uma trajetória espacial de base triangular pelo chão, em torno do boneco, como se se abrissem e fechassem "portas" de ataque, defesa e ângulos todo o tempo. Isto te dá uma dica importante para bolar treinamentos de técnica de luta dois a dois do tipo "pergunta e resposta" compostos de dois ou três movimentos. Esqueça essa ideia idiota dada por mestres de pensamento curto que dizem que você irá resolver tudo num só movimento, a partir de uma base estática, que ficar fazendo lutinha ali vai fazer alguma diferença. Tente ler a mensagem que a forma te passa. Está tudo ali. Não a subestime jamais. Um mestre só pode lhe ensinar metade do sistema, o resto você terá de pegar sozinho. Wing Chun foi sabiamente desenhado assim por nossos ancestrais. Estará sempre protegido das pessoas de menor perspicácia. 


Continuando a sequência (figura 11), aproveitando a biomecânica favorável à transformação do "Bong" em "Tan", recorrente por todo o sistema, executo o contra-ataque seguindo essa lógica cíclica Bong/Tan. Uma vez que você tenha treinado esta combinação ficará muito mais rápido levar seus membros para o espaço "vazio", pois é para lá que você deve correr com sua técnica de Wing Chun todas as vezes que cobrir um lado. Independente de ser ou não atacado, você deve correr para fechar a área que você abriu, e não pode de forma alguma esperar pelo adversário. Essa tem de ser uma reação automática, de forma que você não tenha de pensar na defesa, mas no ataque! No caso, pelo hábito de realizar a defesa previamente, milhares de vezes, minha perna já sobe antes mesmo de Fabio chutar, fazendo ambos, perna e braço, um bloco que fechará toda a área. Em geral, praticantes de Wing Chun esperam para tentar "ver" e sem seguida pisar o chute, ao invés de cobrir. Não é preciso dizer o quanto isso pode ser falho, se você errar o tempo. Se você fecha toda a área, fica mais fácil inclusive de pisar sem levar um chute no queixo. O soco concomitante à defesa visa principalmente coibir um contra-ataque, pois muitos lutadores, em especial os de Muay Thai podem te socar mesmo que você segure a perna deles em pleno ar.

A foto 12, embora um tanto borrada, mostra a defesa completa. É como se se meu lado direito inteiro estivesse protegido por um grande escudo enquanto golpeio reto como uma espada. Repare que o peso do corpo pende levemente para a frente na aplicação, enquanto a perna de apoio fica um pouco mais atrás. Isso visa que o peso do chute do oponente não me jogue no chão. Fabio é bem mais leve do que eu e não corro perigo. Mas e se fosse o contrário? Lembre-se que no Wing Chun já pressupomos de saída que nosso adversário é maior, mais alto e mais forte do que nós.


Por fim, a foto 13 é para fazer o leitor desconfiar um pouquinho que entendo do que recomendo. Nela, meu aluno João Gilberto, depois de oito meses treinando esta técnica comigo, a aplica num campeonato lutando contra um Thai boxeador. Muitos lutadores depois dele, treinados direta ou indiretamente com esta técnica que eu trouxe ao Brasil com outros irmãos kung fu, e depois adaptei um pouco à nossa realidade, a aplicaram em combate com sucesso. A técnica de Wing Chun aplicada em combate que apresento a vocês não é tão plástica quanto se vê comumente nos vídeos, mas é perfeitamente passível de verificação prática. Acreditem, dado o baixo nível técnico do Wing Chun no mundo inteiro, isso é um bocado de coisa.




Esperar para defender tudo o que chega quase nunca funciona. Infelizmente essa é tida como uma das principais estratégias do Wing Chun e o estudante é levado a crer que, se treinar bastante, um dia terá a habilidade final de tudo defender. Pessoas jogam anos de suas vidas de treino fora tentando "reagir", quando a real teoria do sistema envolve "antecipar".  





Conclusão


No texto anterior combato algumas ideias que, embora pareçam ter uma lógica aos olhos do leigo, não são menos equivocadas a respeito da prática com o Muk Yan Jong. Vamos recapitular? 

1. Não se "luta" contra o boneco propriamente dito, ao contrário do que se possa imaginar. Esqueça essa ideia idiota. Quando da execução da forma não se está enfrentando necessariamente, obrigatoriamente, pelo menos, um oponente posicionado de frente pra você, contorcendo-se para pegá-lo pelos flancos. As técnicas podem ser interpretadas individualmente em ângulos e ordem cronológica de encadeamento diferentes dos de uma luta literal (e unilateral) contra o boneco. Libertar-se deste equivoco te dará a possibilidade de entender um "segredo" sobre a prática do boneco que esteve ali para você o tempo inteiro.

2. Alta velocidade de execução da forma não denota habilidade do praticante. De fato, o Wing Chun foi desenvolvido para pessoas que não são rápidas ou talentosas, você usa a técnica e a estratégia do estilo, baseados em leis da física e visão objetiva e simples do combate para quebrar o ritmo do inimigo. A prática da forma com velocidade excessiva torna as posturas defeituosas e gera maus hábitos que refletem ignorância a respeito da real função do aparelho. Pense que você defende e ataca ao mesmo tempo frequentemente; isto te obriga a posicionar bem o corpo para reagir explosivamente. Como fará isso tendo de se movimentar em torno do aparelho todo o tempo?

3. A visão utópica e alienante das escolas de que apenas saber a forma e prática-la tal como se apresenta em sua sequência, sem qualquer elaboração de técnicas de lutas dois-a-dois com consequente treinamento de repetições, adaptações e sparring livre, seria suficiente para que a técnica surja holisticamente de algum lugar misterioso da mente quando alguém estiver tentando te amassar. Acredito particularmente que os mistérios da mente funcionam melhor se você trabalhar bastante com o que você tem para só depois esperar a mágica holística aparecer. Não à toa sujeitos esquisotéricos são fascinados pelo aparelho. 


4. Talvez o mais importante de tudo: nunca praticar no Jong imaginando que está vendo e bloqueando golpes que chegam, parando braços ou pernas a partir de uma posição estática e por demais grudada ao boneco; esta é a ideia mais perniciosa ao Wing Chun de uma forma geral é grandemente influenciada por quem superestima trabalho de Kiu Sao (Braços em Ponte), comum no sul da China em vários estilos e que em nossa luta é expresso no Chi Sao Lap Sao Faat. Essa visão de prática com o boneco é aquela que é passada nos filmes de artes marciais, por ser esteticamente agradável e fortemente impressionável. Existe uma espécie de desespero por encurtar a distância a todo custo. Isso não funciona. Novamente sugiro a leitura de meus artigos anteriores.

Não pretendo aqui esgotar o tema. Nem poderia. Há um mundo de coisas sobre o Muk Yan Jong para serem estudadas, e não apenas tecnicamente, mas histórica e culturalmente. É um assunto fascinante, se encarado com menos exotismo e mais seriedade. A ideia deste artigo foi, a partir de um lance corriqueiro de escola e posterior reflexão, dividir uma visão de utilização do boneco de madeira que acredito que será muito útil e fará com que muita gente comece a empregá-lo de modo mais prático. Aprender a sequência do Manequim de Madeira é fácil. Desmontar a sequência teórica e remontá-la em prática lógicas, estratégicas e aplicáveis de acordo com os conceitos originais do sistema Wing Chun, treiná-las exaustivamente dois a dois para só então aplicá-las em luta é algo raro e para poucos. Gostaria de voltar no futuro analisando os movimentos de transição, estes que não abordei que fazer parte do trecho apresentado aqui. Mas ficará para uma outra ocasião.



Forte abraço.


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*Yip Kai Man (1893-1972) é sexta geração do sistema Wing Chun. Tendo saído de Foshan para ensinar em Hong Kong em meados do séc. XX, seu mais famoso discípulo, Bruce Lee, tornou o Wing Chun mundialmente divulgado e famoso. Uma série de filmes recentes retratando a vida do mestre vem sendo lançados, sendo que os que tem Donnie Yen interpretando o mestre nas telas reacenderam mundialmente o interesse do público por esta arte chinesa.
**Vide texto sobre o autor ou o link "depoimentos" no site http://www.brazilianwingchun.com 
***Lord Shiva é uma das principais divindades do Hinduísmo. Refiro-me às figuras do deus representado na forma Nataraja. Vale dizer que não por acaso a representação de deuses indianos parecem descrever movimentos de artes marciais antigas. 
****Artes Marciais Tradicionais Chinesas.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

LUK DIM BOON KWUN - O Bastão Longo e sua influência técnica no Wing Chun

Por SiFu Marcos Abreu

HISTÓRIA, DESCRIÇÃO E ENSINO


                                                       SiFu Dr. Vansembergues Alves demonstra o movimento Hiung Kwun Luk 
                                                       Dim Boon Kwun. Foto para o livro Kung Fu Wing Chun, Ed. Escala.


Conhecido no Brasil simplesmente como "Bastão Longo" o Luk Dim Boon Kwun é uma das duas armas que compõem as fases de treinamento do Wing Chun Kuen, junto a Baat Jam Dao (Faca de Oito cortes). Luk Dim Boon Kwun significa "Bastão de Seis Pontos e Meio" sendo seu nome uma referência ao número técnicas (pontos) e mais uma "meia técnica" que, pela contradição do nome, traz em si uma lição técnico-filosófica. Segundo o que Mestre Li Hon Ki, oitava geração de sucessores do nosso Phai (estilo), passou de precioso conhecimento das gerações que nos antecederam quando nos ensinou a confeccionar e, depois, manejar esta arma, trata-se originalmente de uma grande lança usada nas guerras logo na frente de batalha, possuindo no passado uma afiadíssima ponta metal. À medida que este conhecimento foi introduzido no templo Shaolin (Siu Lam) por guerreiros profissionais que buscavam abrigo no templo, os monges, proibidos por seu código de conduta de fazer alusão sequer a uma suposta intenção de matar outro ser humano, tiveram de retirar a ponta de metal original.

Entretanto, o próprio peso da arma, somado ao seu desenho (imagine uma espécie de taco de bilhar gigante, com uma extremidade de manejo de calibre maior que a da ponta, com flexibilidade suficiente apenas para não se partir facilmente) e ao grande comprimento que pode variar de 9 a 11 pés ingleses tornam um mínimo toque efetuado por parte de um expert algo potencialmente letal, o que faz pensar sobre a dificuldade de se associar boas intenções e preceitos religiosos com algo tão violento em sua essência original. É o paradoxo básico das artes marciais controlar os ímpetos agressivos e saber que com  a habilidade para matar vem a responsabilidade de preservar a vida. Contudo, não pode haver paradoxo na técnica efetiva, porque o seu inimigo não terá a mesma misericórdia. A técnica antes de qualquer coisa deve funcionar. Se for possível fazer isso sem machucar de morte o inimigo, tanto melhor, mas em se tratando de Luk Dim Boon Kwun... Muita gente escreve bobagens sobre uma letalidade superior às demais lutas quando fala das técnicas de mãos livres do Wing Chun, mas são de fato as armas,  mesmo adaptadas pelos monges para machucar menos, que continuam sendo o que há de mais arrasador dentro do sistema.

Como qualquer conhecimento saído dos meandros de um passado pouco formalmente documentado e passado oralmente de mestre para discípulo, uma certa fantasia, grau de estatus  e aura de segredo ainda compõem a idéia da prática dos conteúdos superiores do sistema, por serem a última coisa que se aprende antes de concluir o treinamento, e porque, pelo menos em tese, boa parte dos mestres reservaria estes conteúdos apenas para seus alunos favoritos, ou aqueles que conseguiram manter-se na escola por tempo suficiente para merecer aprende-los e, um dia, passa-los adiante, mantendo vivo o conhecimento completo do sistema.

                                            SiFu Marcos executa Tiu Kwun em boa postura em sua casa em Salvador.

A bem da verdade, e para este não ser apenas um mais um artigo hipócrita e positivo-moral-elitista como muitos outros que há por aí sobre os conteúdos reservados da luta, verdade seja dita: boa parte dos praticantes, inclusive acredito que infelizmente muitos que me lêem aqui não vai aprender estes conteúdos não porque não tenham grandes qualidades pessoais, bom nível de habilidade ou não sejam leais, mas porque existe uma tácita reserva de mercado que visa limitar a quantidade de mestres, já que Wing Chun é uma arte de curto aprendizado. Então não é de surpreender se você praticante faz parte de uma escola que está há anos e anos no país e não há uma só pessoa que conheça a fase superior do Wing Chun, ou haja uma discrepância muito grande entre o número de praticantes e aqueles sortudos que realmente foram até o fim.

Consagrada é a idéia de que as Facas de Oito Cortes são a última das seis fases de treinamento. De fato, se tomarmos apenas a similiridade técnica entre os contéudos e as fases de treinamento, Baat Jam Dao pode até ser a última técnica a ser aprendida, mas em algumas famílias como a minha, o pesado bastão é usualmente a última coisa a ser ensinada, por ser um conteúdo que difere um pouco do resto do sistema, embora o tenha influenciado definitivamente, como veremos mais adiante. É preciso um certo grau de força bruta para manejar uma arma tão grande, e a esta altura espera-se que o praticante que começou na adolescência já esteja forte o suficiente para isso. Numa família tradicional ou naquelas onde os pais são mestres de seus filhos porém, essa ordem pouco importa, podendo as armas serem treinadas até mesmo como parte do treinamento de mãos livres junto ao Boneco de Madeira. A divisão em fases de treinamento tem razões históricas que envolvem a facilitação do aprendizado, "graduação" por mérito, e, num passado distante, quando a arte saiu do templo e caiu na clandestinidade, proteger os praticantes - em sua grande maioria integrantes de sociedades secretas, sendo morte garantida a descoberta de suas atividades marciais - além de outras menos éticas como as mencionadas no parágrafo acima.

INFLUÊNCIAS DO BASTÃO NO WING CHUN

Luk Dim Boon Kwun tem uma característica peculiar que o distingue dos demais conteúdos do sistema por ter um conjunto de bases e movimentações que pouco mudou no decorrer das gerações. Enquanto a movimentação de facas e mãos livres foram se adaptando à movimentação mais curta e explosiva para efetuar fortes contra-ataques, o que acabou por mudar definitivamente o sistema de base, diferenciando-o visualmente de outros sistemas, o bastão longo do Wing Chun continuou mantendo boa parte das principais características de seu provável antecessor, o bastão longo do templo Shaolin, que pode ser visto em diferentes estilos de kung fu. Existe uma explicação muito simples do porquê disso ocorrer; o comprimento do bastão e, principalmente, o seu peso, somado à dificuldade de se simular um combate real simplesmente tornam difícil qualquer modificação no sistema de base, que acompanha o padrão original de Shaolin, que por seu turno tirou as suas principais bases da luta armada.

Por isso, é possível dizer que o bastão longo é uma conexão entre a técnica atual do sistema e a técnica original do templo Shaolin. Muitos outros estilos de wushu chinês possuem a mesma arma em seus currículos tem as mesmas "seis" técnicas de bastão que dão nome da forma no estilo de Yip Man, com poucas variações estilísticas; entretanto, Wing Chun tem uma técnica a mais, chamada curiosamente de "Meio Ponto", ou "Meia Técnica", que é um movimento curto que demonstra a capacidade de adaptação e improviso no "momento crítico da luta". Para aqueles que acreditam que o bastão foi incorporado ao sistema Wing Chun quando este já tinha as características atuais, esta é uma clara influencia do "wing chun" na técnica do bastão longo original de shaolin.

                                                           SiFu Marcos demonstra Puot Kwun na mudança para próximo movimento.

E qual seria então a influência de Luk Dim Boon Kwun no Wing Chun? A resposta mais óbvia tem haver com a "Teoria da Linha Central" que instrui o lutador de Wing Chun a usar sempre que possível linhas retas de ataque e, junto, cobrir-se defensivamente após um ataque que não tenha tido sucesso; a isso os mestres da luta comumente chamam de "recuperar a linha central" . Na luta real com o bastão, isso tem um motivo que pode ser a diferença entre a vida e a morte. Lutando em relativa segurança conferida pelo comprimento da arma, um movimento para o lado no momento errado pode ser a oportunidade para inimigo com outra arma longa conseguir um pequeno espaço para uma estocada mortal, ou a oportunidade para alguém com uma arma curta conseguir encurtar a distância do bastão o suficiente para torná-lo completamente inútil no corpo-a-corpo. Neste sentido, controlar a "linha" com o bastão siginfica ter as melhores oportunidades em um combate que pode ser decidido em poucos segundos.

NA LUTA DE MÃOS LIVRES

A segunda resposta, embora não menos óbvia, surpreendentemente não parece encontrar aplicação prática da luta do bastão para luta de mãos livres na maior das escolas de wing chun do ponto de vista de um repertório técnico específico. Esta-se a falar de adaptar a Teoria da Linha Central, o principal ponto de convergência entre os modus operandi bastão e punhos, para a luta com o corpo posicionado mais de lado  no mano-a-mano, o tipo de guarda mais usada em todos os sistemas de luta consagrados mundo afora.

                                                   SiFu Marcos demonstra Biu Kwun tal como aprendido com
                                                                    seu Sifu Li Hon Ki. Note a base comum a estilos oriundos do
                                                                    shaolin como Hung Gar, Tong Long e mesmo Karatê-Do.

                                                       Forrest demonstra Din Choi, adaptação de Biu Kwan para o boxe do Wing Chun.



No jogo do Bastão Longo você estará na maior parte do tempo com o corpo de lado para seu adversário, o que obrigatoriamente fará que a sua referência de linha central seja a menor distância entre você e um alvo válido em seu adversário. Na luta de mãos livres dois a dois, colocar o corpo de lado significa diminuir o espaço para o ataque do oponente, além de aumentar significativamente nosso alcance para o ataque. Por este motivo em nossa família tiramos das lições do bastão longo o soco Din Choi, que tem uma característica muito peculiar que é usar todo o peso do corpo para socar de lado com o máximo de potência, tornando este o soco mais pesado do Wing Chun no menor espaço possível. Pouca gente espera que um golpe desferido com a mão fronteiriça tenha peso o suficiente para machucar bastante, mas usando a força dos giros corporais e o exercício Din Choi - influenciado visivelmente por Luk Dim Boon Kwun e muito parecido com um famoso exercício básico Shaolin que supostamente deixara marcas de abaulamento no piso de pedra do templo, tal a força das pisadas dos monges ao longo dos séculos - o lutador de Wing Chun tem não apenas força para execução de golpes com o corpo de lado, mas também ganha alcance e distância de golpe impossíveis lutando apenas de frente, o que levou a nossa família ser apelidada de "Wing Chun do Caminho da Ponte Longa". O fato é que não há nenhuma invenção nisto, este é o mesmíssimo Wing Chun de Yip Man, e o apelido deve ser encarado como mais um característica dentre muitas possíveis de nosso sistema para diferentes situações de combate livre.

Na foto do parágrafo acima, note como é executado o Biu Kwun. Além da guarda pouco ortodoxa (na maior parte das escolas geralmente se usa mão mais forte à frente com o bastão), o braço direito levantado, embora exponha mais o lutador, confere mais força à estocada. Descontada a base, se você levar a movimentação dos braços para luta dois a dois, este será exatamente o mesmo jeito que o iniciante aprende a socar Din Choi - corpo totalmente de lado e tirando o máximo de força, para só depois aprender o modo menos exposto. É muito frequente em Wing Chun o praticante achar que não se deve usar força, mas numa luta em que você tem sempre metade da distância de luta dos estilos tradicionais (porque o lutador de wing chun prefere que o atacante esteja avançando forte para aplicar melhor sua técnica, o que reduzirá bastante o espaço), tirar força de todo movimento é algo imprescindível para o iniciante, já que partimos da idéia que nosso adversário é maior, mais alto, mais rápido e mais forte, ou tem vantagens de meio (arma) ou de número de parceiros na luta. O jeito de lutar com o corpo lateral na mecânica Tiu Kwun - Biu Kwun encontra equivalente no Gip Sao - Din Choi, o que possibilita ao praticante um alcance ofensivo que ele não teria levando em conta a interpretação radical da Teoria de Oposicão Frontal que prega que o lutador deve estar sempre de frente para seu adversário.

                                         SiFu Marcos demonstra Gip Sao com SiFu Florentino. Note a semelhança entre                  
                                                       esta posição de defesa e a base usada na segunda foto deste artigo. Seguido à defesa
                                                       vem um forte  Din Choi, com visto na foto abaixo.

                                                       Din Choi. Foto: alunos SiFu Marcos para o livro Kung Fu Wing Chun.



PARA QUE TREINAR UMA ARMA ANTIGA?

Bem, para aqueles que pensam no Wing Chun (ou pelo menos o compram assim, nada contra) unicamente como uma ferramenta de defesa pessoal - e realmente concordo que a especificidade da luta penda para algo mais semelhante a este termo em geral mal empregado - é óbvio que o Bastão Longo não é exatamente a arma mais prática para se levar na mochila,  como seriam as facas gêmeas (Baat Jam Dao), se é que você realmente acha normal andar com duas facas de açougueiro às costas, mas o treino com armas coloca seu senso de tempo e tomadas de decisões sob estresse em outro nível, mesmo que sejam empregados artifícios para suavizar o contato durante a prática, tornando a vivência desta fase de treinamento uma experiência fantástica de uma cultura física vigorosa e potencialmente letal.

É comum fazer o treino de bastão contra espadas e vice-versa. Quando você está com o Bastão Longo, tem de lutar para não desperdiçar energia, não se cansar e perder a posição para o avanço do adversário. Seus movimentos tem de ser precisos e você não tem uma segunda chance para se recuperar. Uma vez com as facas, o momento crítico é lograr com êxito o atacante com bastão que está confortavelmente distante para encurtar a distância e decidir a refrega. Com o bastão, buscar o máximo de eficácia com o menor gasto de energia significa mover-me não mais que o necessário e manter a mente focada em alcançar seu alvo. Perder um ângulo, desviar a arma um milímetro a mais pode significar morte certa. Por outro lado, manter a distância, cuidar dos ângulos e lutar com simplicidade podem fazê-lo um homem muito difícil de ser batido.

Outra coisa que se lê e ouve bastante no Wing Chun é que treinar com as armas deixa suas mãos semelhantes às mesmas. Isso não é tão verdadeiro porque as armas decidem mais rápido, enquanto numa luta equilibrada você pode ter de golpear repetidas vezes o adversário até surja o resultado desejado. Entretanto, conceitualmente falando, tanto a luta com armas como a de mãos livres contra um ou mais adversários seguem os mesmos conceitos como Bong (parar), Fuk (controlar), Tan (espalhar), dentre outros, e é justamente o exercício constante destes conceitos em diferentes situações que conferem ao Wing Chun o status de "sistema" e mantém coerência pratica de tal modo que, mesmo que numa situação limite você não tenha um bastão de 3,14m a seu alcance, um bastão mais curto pode reproduzir os mesmos golpes caso você domine o bastão longo, embora o contrário não seja tão fácil.

Assim como as demais estranhas formas (aos olhos leigos) do sistema Wing Chun são como manuais de instrução sobre a lógica da movimentação da luta, mais que a representação ou imitação imaginária da mesma, a forma Luk Dim Boon Kwan te mostra como defender seus ângulos vulneráveis usando a precisão como guia. Com o bastão, você se vê obrigado a ser totalmente objetivo, ecônomico em seu gasto de energia e usar seu senso de oportunidade para estocar e finalizar sem hesitar.

Estudar a arte de lutar com bastão dá a oportunidade de comparar as adaptações dos conceitos teóricos do Wing Chun aplicados a uma arma mais antiga e vice-versa, e isso lança uma luz sobre o flagrante desenvolvimento do sistema ao longo dos séculos, fortalece seu corpo, seu espírito e lhe dá orgulho (a quem fez o esforço para superar as barreiras culturais, étnicas, morais (imorais muitas vezes), financeiras e de mercado - nada pessoal às vezes é só negócio) de aprender uma técnica de combate que atravessou os séculos e perdurará ainda muito tempo, apesar de tudo.



Destrinchando o Muk Yam Jong, o boneco de madeira do Wing Chun, em uma análise de caso. Parte II

Pois é, assim como o personagem do game Tekken, Mukujin ( 木人) lit. Pessoa de Madeira, Uma corruptela de seu alter ego, Muk Yan Jong ( 木人...