Nos últimos dias tem me chegado comentários de diferentes fontes e estilos de Wing Chun e Kung Fu de pessoas não satisfeitas com o trabalho de seus Sifu. Um recente texto na comunidade Wing Chun - Brasil do face, em que um praticante escreve um texto muito chocante no qual explica os motivos de seu desligamento de uma organização deste estilo é quase um resumo do que acontece em praticamente todas as escolas.
Dia-a-dia de um SiFu que treina com os alunos de igual para igual
Não, não é nada que diga respeito nem à capacidade técnica, nem de ligação genuína com a fonte do conhecimento, num ambiente eivado de charlatões muito sofisticados e importados do exterior, mas da incapacidade destes mestres em relacionar o compromisso financeiro que estabelecem com seus seguidores e todas as qualidades intangíveis que são tão importantes para uma relação de aprendizado quanto qualquer fator econômico, como o respeito, a valorização do esforço, a ética, o sistema de premiação e graduação pelo mérito.
SiFu Marcos em sessão de fotos com sua filha primogênita
Kung Fu significa "Trabalho árduo". Quer dizer que neste processo, que não é fácil,devemos nos tornar indivíduos melhores. E que a figura do Sifu, o traduzido "Mestre-Pai" desta relação, não é apenas aquele que cobra, mas aquele que guia. Mas, pelo que sabemos, a figura do Sifu tem sido na prática a do sujeito que detêm um conhecimento altamente especializado que a todo custo tenta manter a sua reserva de mercado, ameaçando a todos que tentem pensar "fora caixa". E que ameaçam constantemente seus membros de desligamento, o que, no mundo do kung fu é considerado uma heresia: um praticante de kung fu sem um mestre seria um homem sem valor. E os indivíduos que estão nestes ambientes se embrenham numa busca pelo conhecimento do "completo sistema" a todo custo, empenham seu dinheiro, sua saúde, sua alma nisto, e se esquecem do sentido original das artes marciais, tornam-se escravos de uma busca que não tem honra, nem mesmo dignidade.
Treino diário = Dor
Há muito pouco tempo eu disse num fórum que a próxima revolução no kung fu no Brasil seria ética e moral, uma vez que já passamos pela revolução da informação a partir dos anos 90. O Sifu do futuro que já bate à porta deverá não apenas ter conhecimento, conexão genealógica, experiência e habilidade em luta, mas deverá ser ele mesmo um exemplo. Essa será a grande revolução em busca das origens do verdadeiro kung fu; não será o uniforme, a fantasia, a alienação com aspectos históricos duvidosos, mas a inteligência emocional, o fator psicológico, ético, a conexão profícua com a sociedade, o respeito às necessidades individuais dos alunos é que serão a tônica daqui para a frente.
Momento de descontração de SiFu, alunos e irmãos no kung fu de diferentes escolas
No mais, a quem tem conhecimento e está pensando em tornar-se um tutor, e um dia ser merecidamente reconhecido como um SiFu, um Mestre, eu diria para ao invés de fechar - como fez e faz a geração anterior e a nova desantenada com a nova realidade - abrir o conhecimento, para que o mercado se torne amplo e que as pessoas deixem de ser escravas de seus objetivos. Como profissional, como homem de família e guia de pessoas, eu digo que só tem medo de concorrência indivíduos inseguros, imaturos e incapazes. E ao praticante insatisfeito eu diria que a ousadia de mudar pode ser assustadora no começo, mas que não é de nada honroso seguir alguém que não te respeita, o teu esforço, o teu tempo, o teu dinheiro, a tua trajetória. Relações baseadas meramente em dinheiro são relações vazias e sem sentido. Se a sua relação com seu Sifu é assim, dê o fora. Ouse, não tenha medo de errar. Em algum lugar haverá alguém com tudo aquilo que imaginou. Passamos mais tempo tentando mudar gente que não vale a pena, do que realmente perder um tempo tentando achar alguém que a valha.
Certas imagens não precisam de enunciados
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