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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

LIN WAN KUEN, a mais simples - e mal utilizada - técnica do Wing Chun. Como fazê-la funcionar pra você


PRÓLOGO:


"Eu já havia visto que o cara estava atrás dos tickets dos antigos 'vale-transporte' que pendiam do meu bolso. De fato, eu o deixei se aproximar para ver no que dava. Então, enquanto passava por mim, ele tentou puxar os papéis, mas segurei a sua mão. Um outro comparsa saído de algum lugar veio a seu socorro e me deu um pisão na perna, e o outro acabou se soltando, mas eu ignorei o cara que me chutou e segui o primeiro usando Lin Wan Choi* até o parapeito, tencionando derrubá-lo lá embaixo. Quando me impediram ele estava já nocauteado, sentado arriado no chão, sua camisa de branca tornou-se vermelha pelo sangue. O outro cara fugiu." 
***

"Havia um burburinho e eu fui ver o que era. Havia um uma roda de pessoas e uma situação de conflito entre duas delas. Um cara se identificou como policial civil, e como se eu, policial militar, também quisesse ajudar, ele vociferou falando para eu não me meter e um monte de merda, que era ele quem mandava ali. Então começou uma briga e foi quando inesperadamente o cara jogou um grande cruzado que eu defendi usando meu antebraço com Tan, mas saiu assim (demonstra o gesto, saiu com Jam Sao, NA.) martelando na cara dele ao mesmo tempo e segui com Lin Wan Choi. Quando caiu no chão eu pisei nele, e a luta acabou." 
***

O cara era bem musculoso, parecia com você. A briga começou no meio do show. Ele jogou um soco swingado; eu usei Tan Da e segui atropelando com Li Wang Choi. Num instante tinha acabado, o cara tava estirado lá no chão.

***

Todos os relatos acima me foram contados por meus alunos e parceiros de treino que viveram situações de combate não-controlado, onde as variáveis e a intensidade do conflito podem resultar em sérios danos físicos e mesmo custar a vida dos envolvidos, muito embora, na prática, a maior parte destes destes conflitos seja curta e exija fisicamente muito menos do que uma luta entre dois oponentes de mesmo peso e condições justas de combate com regras. O problema das situações abertas é o potencial lesivo das mesmas. Eu os relatei aqui mais ou menos da forma que os ouvi, e pode ser que falte um detalhe ou outro, mas o resultado foi o mesmo. Preferi preservar a identidade destas pessoas e preferi relatos um pouco mais antigos, de alguns anos atrás, onde a técnica tema deste artigo foi aplicada com sucesso. Por este sucesso, que eu mesmo consegui em alguns combates, sinto-me totalmente à vontade para escrever sobre tema, esclarecendo contudo que não sou dono da verdade, nem falo por todos em minha família Wing Chun.



SiFu Marcos executa a técnica durante treino em seu Mo Gwoon


Antes que me acusem por estar sendo contraditório ou exacerbador de violência, vou deixar a hipocrisia contumaz dos escritores politicamente corretos - o que definitivamente não é o meu caso - de lado e adiantar que não vou entrar nos aspectos estratégicos (o suprassumo da eficácia em  defesa pessoal consiste logicamente em evitar o conflito) ou éticos envolvidos, como venho fazendo nos ensaios sobre defesa pessoal ou sobre o papel social do mestre em artes marciais orientais. Ao contrário do que pensam os excessivamente ingênuos ou falsos moralistas, os mais famosos sistemas de luta precisaram, em diferentes épocas de seu desenvolvimento histórico, igualmente dos monges e dos sábios, dos fracos e dos fortes, dos cautelosos e daqueles que arriscaram a vida sem muito propósito para que a técnica fosse testada, e esse julgamento é particularmente válido nestas lutas que se julgam absolutas,que seriam mortais demais para serem usadas em um campeonatos, por exemplo (hum, sei). Como este conhecimento de que "pode matar", chegou até você? Difícil mesmo, seja como for, é combinar que o outro cara vai se deixar matar assim com esta facilidade toda. Mas posso dizer dos casos citados acima que uma parte de  meus alunos tem de ter determinadas qualidades para viverem suas vidas do modo que querem, especialmente aqueles oriundos do underground como eu sou. O Wing Chun Kuen foi a ferramenta que eles usaram para asseverar este direito. 


LIN WAN KUEN: 


INTRODUÇÃO




Lin Wan Kuen escrito em ideogramas chineses

Talvez a característica mais marcante do Wing Chun, facilmente identificada em  sua movimentação, seja a busca pela simplicidade na ação. Seu soco direto com o punho na posição vertical, (Yat Ji Jung Choi ) tal como visto na primeira forma Sil Lin Tao, permite um uso de fácil sequenciação, sendo provavelmente o soco que mais pode ser repetido num dado espaço de tempo, por um mesmo executante, no mundo das artes marciais orientais, embora algumas artes marciais e sistemas de defesa pessoal usem socos muito parecidos como soco principal ou ocasionalmente, mais ou menos com a mesma função, como o Karatê-Do, o Aiki-Do e o Krav Maga. Este fato, tomado isoladamente, geralmente leva os praticantes - estimulados por seus professores inconsequentes - a achar que basta desferir uma saraivada destes socos de qualquer forma para que a luta acabe rapidamente. O que a maior parte deles não sabe é que os depoimentos que postei acima são a exceção e não a regra, e que para que estas pessoas tenham tido sucesso na aplicação real desta técnica foi preciso um treinamento que observe certos pontos, que utilizar essa sequência envolve certos riscos. São estes pontos e riscos que observaremos ao longo do artigo.


FATORES HISTÓRICOS





Quando um praticante armado com as Facas de Oito Cortes enfrenta outro com o Bastão de Seis Pontos e Meio (vide gravura acima) é um combate de extremos: uma arma muito curta, do tamanho médio de uma faca de açougueiro, contra um bastão de quase três metros de comprimento. A princípio em desvantagem, o portador das facas deve encurtar a distância o mais rápido possível, uma vez que consiga fugir as estocadas, percorrer a distância do bastão e cortar seu oponente antes que o mesmo consiga recuperar sua posição ou abandonar o bastão e sacar uma arma mais curta. É fácil encontrar pela internet vídeos em que praticantes avançados seguem estocando ou cortando (fatiando) em direção ao portador do Bastão Longo. É visível como a posição das mãos na empunhadora das facas e mesmo o padrão mecânico de ambos os movimentos não por acaso se parecem com a sequência fundamental de socos, tendo provavelmente aí sua origem, ou influência mútua, para aqueles que notam a praticamente total correspondência conceitual entre os golpes de facas e os de mãos vazias, até mesmo nos nomes, muitas vezes apenas trocando um "Sao" (Braço) por "Dao" (Faca). Assim sendo, Man Sao, Man Dao, Bong Sao, Bong Dao e assim por diante.




SiFu Marcos executa Man Dao com as Facas de Oito Cortes.


Outro fator determinante para que a luta tenha desenvolvido a propriedade técnica de bater o máximo possível enquanto ganha espaço para a frente ao longo de seu desenvolvimento histórico é a especialização gradual que a luta foi tendo nos contra-ataques, talvez devido ao pouco espaço nos Hung Suen (Juncos Vermelhos), embarcações onde os praticantes do século XVIII, atores mambembes de ópera cantonesa, passavam a maior parte de seu tempo. O ideal hipotético de combater em campo de batalha mais de um oponente, somada à logica taoista cada vez mais presente na estratégia propicia a valorização do avanço em detrimento da luta mais parada. O "domínio do ringue" e a luta mais estática pode ser imperativa numa competição em que se luta contra apenas um oponente, mas numa luta de rua pode significar ser um alvo fácil para outros agressores envolvidos no conflito (vide meu último ensaio sobre defesa pessoal, aqui neste blog). 

"Lin Wan" pode ser traduzido, segundo meu SiFu, Dr. Li Hon Ki, como "seguido", e "Kuen", neste caso, com a tradução literal de "\punho" ou "soco". A tradução mais difundida mundialmente para o inglês é Chain Punch (Soco Corrente). Uma vez que não haja assim grandes diferenças entre o padrão do soco entre as diferentes escolas de Wing Chun Kuen, a melhor aplicação não depende tanto de apenas saber desferir os socos eles mesmos, mas principalmente a técnica de base e a ocasião mais propícia, o momento certo, de tentar. Ainda assim, a maneira curiosa e muitas vezes caricata com que muitos desferem os socos, de forma displicente, fazendo círculos muito grandes entre os socos,  fez com que praticantes de outras lutas apelidassem nosso soco de forma pejorativa. Há uma quantidade incrível de vídeos demonstrando a técnica, mas poucos deles passam confiança a quem os assiste.


DIFERENÇAS OBJETIVAS ENTRE OS SOCOS DO WING CHUN: FORÇA, VELOCIDADE, POTÊNCIA.


O soco original do Wing Chun pode ser desferido  em sequência com dois enfoques diferentes:  o primeiro é a potência, valência pouco explorada pelas escolas, uma vez que todos acreditam que não se deve usar força no Wing Chun, e que isso teria sido mesmo preconizado por SiTaiGung** Yip Man(!) Neste caso, a força extra do ombro, somada à bases e o giro de quadril, somado ao movimento assimétrico dos membros (como quando retesamos um arco, um braço puxa e outro empurra, ou quando pedalamos uma bicicleta,uma perna empurra enquanto a outra cede) é valorizada no treinamento para que use todo o potencial do corpo. Esta sequência é em geral mais curta e o ingrediente força é tão importante quanto a velocidade. Embora não seja nosso foco aqui, este tipo de movimento é fundamental para uma boa execução do soco corrente, uma vez que estes golpes geralmente abrem uma boa sequência para seguirmos com Lin Wan Choi, como veremos mais adiante. Sequências focadas no aspecto força usam bases como Toy Mah ou Din Choi (vide artigo Luk Dim Boon Kwan).





                          A  filha de Sifu Marcos demonstra o soco direto em Toy Mah. Foco geração de força explosiva.



O segundo enfoque é a velocidade pura, justamente o que precisamos para executar Lin Wan Kuen (Choi) em sua forma mais básica. Não importa o quão bom tecnicamente você seja, se não conseguir um número mínimo de socos numa quantidade de tempo e espaço, não irá alcançar seu adversário. De acordo com uma conhecida máxima da fisiologia do exercício, quanto maior o relaxamento de um músculo, maior a possibilidade de contração por parte do mesmo. Uma sequência como esta deve partir de um praticante relaxado e treinado para agir espontaneamente. Um praticante tenso jamais terá sucesso nesta empresa. Para usar Lin Wan Kuen, o praticante deve se deslocar em grande velocidade, avançando com a base Hau Mah.


EXECUÇÃO BÁSICA

No primeiro vídeo, logo abaixo, a pedido de meu estudante Fernando Lempê eu executei Lin Wan Kuen em minha casa, depois do treino, em base estática Hau Mah, para mostrar que, ainda que parado com foco na velocidade, se executado obedecendo o posicionamento, tentando manter os braços relaxados, você terá um soco básico não apenas rápido, mas também pesado, se sua base estiver firme. Abaixe o volume do seu PC.






SiFu Marcos executa Lin Wan Kuen em base estática sobre o Sabao. Uma média de seis socos por seg,


Para que o soco seja executado de forma eficaz é preciso já ter dominado a mecânica básica há algum tempo. Os braços alternam-se indo e vindo sem que os dois pulsos jamais saiam da linha central do corpo, tomada aqui como a menor distância entre você e seu alvo imediato. Como o soco do Wing Chun vem de baixo para cima, quanto mais próximo os braços passarem um do outro sem se tocar, mais eficiente será o gesto técnico, uma vez que principalmente a volta do braço que socou perfaz necessariamente um pequeno círculo para que a mão da vez siga reta em direção ao alvo. A manutenção dos braços em boa altura também dá ao executante a possibilidade de cambiar para outra defesa, uma vez que a posição de saída do soco é mesma de saem o Tan Sao, Wu Sao, Fuk Sao, etc. originalmente na forma Sil Lin Tao. A força deve vir do posicionamento e uso correto do cotovelo e do avanço da base, uma vez que você não tem muito como envolver o ombro ou quadril no movimento quando executado a toda velocidade. 

Repare nas fotos abaixo, Nelas eu posiciono minha filha na base Hau Mah. Hau, em cantonês, significa "atrás". Isso leva muitos instrutores a crer que o peso do corpo deva ser sustentado pela perna de trás. Uma vez na posição fundamental Yee Je Kim Yeung Mah, que guia todas as outras, basta colocar um dos pés atrás, guiado pelo ângulo da perna que ficou à frente, e temos a base. Não é possível acompanhar bem o adversário num primeiro momento se o peso não estiver distribuído igualmente entre as duas pernas. A execução básica desta técnica supõe que você consiga desferir pelo menos 3 (três) socos no espaço de 1 (um) só passo. A depender do movimento, vamos avançar com a perna da frente ou com a detrás, mas perna que vai à frente "chuta" rápido e rasteiro, dando um arranque que ajuda a perna de trás. Existe uma outra maneira de fazer a mesma técnica, que é quando o adversário foge ou cai muito longe de você, neste caso, você o seguirá socando por onde ele for. Neste caso, o peso será empurrado com a perna de trás, dando passos muito grandes, o número de socos cairá drasticamente e a força poderá aumentar um pouco. Vou entretanto me concentrar na forma mais simples, neste artigo. 








COMO E QUANDO SE DEVE USAR E O QUE NÃO SE DEVE FAZER. COMO EVITAR ERROS E FAZER COM QUE A SEQUÊNCIA FUNCIONE PARA QUE SE OBTENHA O NOCAUTE.

Veja o vídeo abaixo. Nele eu oriento meu estudante pernambucano Dido, então um iniciante em seus primeiros passos com a técnica, usada depois de Tan Da, chamando a atenção para o primeiro soco da sequência.O Tan Da é uma técnica que defende e ataca quase ao mesmo tempo, e funciona na prática como seria um direto no boxe ocidental. O passo em Toy Mah permite um forte giro de giro quadril e que se envolva o ombro no soco. Quando bem colocado, o direto usado no Wing Chun tende projetar adversário para trás. Este um dos momentos mais propícios para o uso do Lin Wan Kuen; por isso mesmo estar numa base estável e com o peso distribuido igualmente entre as pernas é tão importante. A partir do momento em que o oponente acusar o golpe inicial haverá poucas frações de segundos entre hesitar e seguí-lo em seu movimento para trás. Caso seu peso esteja muito concentrado na perna da frente ou na atrás, isso será muito mais difícil de ser feito. Ao avançar para o Lin Wan Kuen o praticante deve lançar o primeiro soco concomitantemente ao avanço da base, da forma mais relaxada e menos tensa possível. O objetivo é que o intervalo entre a primeira pancada, mais forte e a saraivada seja o mais curto possível; dessa forma, a sequência repetida de pancadas na cabeça compensará a falta de força nos socos subsequentes. É este balançar ininterrupto da cabeça que leva o oponente ao nocaute.





Caso o praticante se habitue a mover-se com a base para então começar a desferir os socos, neste caso específico ele poderá até acertar o primeiro soco, mas é provável que os que vierem depois não tenham mais alcance e sejam deferidos no ar, a esmo. Isso dará ao seu oponente a chance de recompor ou mesmo contra-atacar em seguida. Outro problema muito comum é que os praticantes superestimem o poder do soco de curta distância e desfiram os socos perto demais do oponente, "martelando" os golpes, de forma caricatural semelhante àquele brinquedo Lango-lango, sucesso nos anos 80. Isso irá apenas massagear seu oponente, dando a este último ainda facilidades no revide ao mesmo tempo em que você tenta golpeá-lo. 




No vídeo que encima este parágrafo eu procurei filmar uma sequência para ilustrar este artigo (peço desculpas pela má qualidade do vídeo) em que meu aluno me ataca por um dos lados, sem avisar se o golpe virá em cima ou embaixo. A mão traseira dele fica mais distante propositalmente. Eu devo fazer a primeira defesa com soco, mudar a base para segui-lo e encurtar a distância sem perder o ritmo, mantendo, assim o alcance para que todos os meus socos terminem no alvo. O cotovelo deve ficar quase esticado, o braço na média para longa distância, para se aproveite ao máximo o deslocamento para frente.

É importante frisar que o efeito devastador desta técnica contra leigos em ambiente aberto pode não se repetir quando se luta com alguém mais experiente e preparado. Seja como for, o fator surpresa para quem nunca foi atacado desta forma dá uma boa vantagem ao praticante de Wing Chun. Numa luta mais controlada, essa sequência deve ser usada de forma mais frugal e oportuna.Numa luta esportiva o nocaute é conquistado de forma mais paciente, elaborada e demorada. 


O QUE FAZER DEPOIS DA SEQUÊNCIA? UM PLANO "B".

"Na prática, a teoria é outra coisa". Para a maior parte das escolas de Wing Chun, Li Wan Kuen é um recurso importante, e muitas vezes não há muito mais que isso em seus arsenais de combate. Mais perigoso que subestimar uma técnica é superestimá-la. Em minha visão esta técnica é um recurso que junto à facilidade de execução traz também alguns problemas, a saber: é cansativa, e o andar mecânico para frente expõe o flanco, dificultando tanto um complemento ofensivo quanto a retomada da defesa. Avançar com uma sequência de socos que vem de baixo para cima sem uma defesa prévia implica expor-se ao contra-ataque impiedoso por parte de quem usa socos mais convencionais. Ainda que a sequência vá bem, o fato de empurrar o oponente para trás exige algum tipo de complemento que também deve ser treinado junto à técnica depois de dominada, como cotoveladas (especialmente Kwai Jian, que pode passar por cima da guarda), joelhadas e  chute frontal (principalmente quando se perde o alcance com os socos). Uma opção é cobrir-se mudando a direção do corpo, golpeando na área oposta, ou ainda cobrindo-se com passo para trás e voltando com outro tipo de contra-ataque. 


EPÍLOGO

Este é provavelmente o último artigo do ano e um presente de despedida para os leitores do mundo inteiro que me leem e acompanham o blog, mesmo ele sendo escrito em português. Hoje temos uma média de 2.500 a 5.000 leitores por mês. Peço àqueles que utilizem este texto ou parte dele que citem a fonte, uma vez que os textos deste blog estão protegidos pelas leis de direitos autorais. Ao lado do artigo sobre as limitações do Wing Chun no ringue, este é um dos principais artigos que escrevi este ano e sei do potencial dos mesmos. Lin Wan Kuen é uma importante técnica do Wing Chun, mas devo dizer que é muito mal utilizada e em geral é uma vergonha assistir vídeos sobre o tema na internet, e quis dar uma ajuda nisso. Espero que o artigo ajude-os a bolar bons treinos, e para aqueles que dominam a técnica ou a façam um pouco diferente, seja uma boa segunda opinião. A melhor maneira de saber se o que escrevo funciona para quem me lê é ler, aqui mesmo, críticas e sugestões.

Desejo um final de ano e boas festas a todos. Que 2014 seja um ano melhor para todos. E que venha a Copa do Mundo!

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* Lin Wan Kuen é a forma escrita. Quando falado, diz-se Lin Wan Choi
**SiTaiGung (Mestre-Bisavô) é a posição de Yip Man em relação a SiFu Marcos na genealogia do sistema. N.A.



sexta-feira, 22 de novembro de 2013

ME BATE QUE EU TE MOSTRO - a conversa mole, a farsa e a violência como componente das demonstrações de artes marciais. - Por SiFu Marcos Abreu




NÃO ACREDITA EM MIM? PODE BATER.

Acabo de ler num fórum de internet onde sou moderador uma declaração muito bonita de um estudante sobre as habilidades de seu Mestre. Segundo este estudante, seu mestre é capaz de proezas de que poucos na posição dele são; ele é rápido, astuto e pode derrotar um homem em segundos. Para confirmar sua tese, ele menciona um episódio em que um cético invadira a sua academia, a princípio por troça, mas acordara depois do mestre desafiá-lo:

- Bata-me do jeito que quiser!

Eu que sou macaco velho em arte marcial notei neste depoimento uma ocorrência muito comum no ritual das visitas de curiosos a academias de luta: o batidíssimo..."- Me bate que eu te mostro!"

O "Me Bate que Te Mostro" é um ato de demonstração de um mestre habilidoso na arte de conduzir pessoas, e depende necessariamente de pessoas impressionáveis, assim como o hipnotizador precisa de uma pessoa suscetível, para que suas habilidades apareçam, ou do logro sério do estelionatário, que se vale do desespero alheio para que a obviedade mentirosa de seu truque seja ofuscado pela ânsia ou ambição da vítima.

Não é preciso dizer que o mestre defendeu o golpe do ousado rapaz que veio de fora. Mas é claro que sim. A partir do momento em que dou um comando, eu tenho o "tempo certo" para agir. No Wing Chun, uma luta que já é feita para reações rápidas na curta distância e na condição da desvantagem, essa premissa é particularmente necessária.


MOSTRA DE UM LUTADOR DE RINGUE X VENDEDOR DE "DEFESA PESSOAL"

Quando um instrutor de boxe pede para que você desferir um golpe, geralmente ele mostra uma nuance técnica, algo que é facilmente verificável em combate, que já foi feito centenas de milhares de vezes diante das câmeras, por exemplo. Isso ocorre porque lutas de ringue tem um repertório mais simples, e o resultado desejado pelo público é estimulado pelas regras, movimentação, ambiente e ética do esporte, para que o combate não vire um ato de selvageria. Não há necessidade de mostrar uma habilidade pessoal, pois isso será feito de qualquer jeito, pois as pessoas lutam de fato. A pessoa que está lá viu o que é a luta, e tem uma ideia ao menos do que seja, e a demonstração geralmente vem como parte objetiva na busca por um gesto técnico (reparem bem) real, dinâmico e de resultados verificáveis.

Já o vendedor profissional de defesa pessoal (tirando as exceções necessárias, uma vez que cada arte marcial ou tem um repertório de defesa pessoal ou a própria arte funciona como) tem a necessidade de provar que a fantasia que ele vende pode funcionar na prática, ainda que o fato de você ter sque usar o que sabe para salvar a vida por si só já demonstre o quanto a sua estratégia de prevenção foi fracassada. Por isso o "me bate que eu te mostro" é tão imprescindível; a habilidade do mestre em usar uma técnica "mortal" (obviamente o cara não vai te matar para mostrar, e muitas vezes nem mesmo seria capaz disso) de forma mais branda, derrubando, imobilizando, batendo num voluntário cria a ilusão que o mestre é o detentor de todas as respostas: mas e se o cara faz isso? "Zum!" E isso? Pá!!! A sonoplastia é também parte do show do mestre na maior parte das vezes. Não há qualquer garantia que a movimentação vá funcionar, ou que alguém da academia ou mesmo o professor tenha realizado o movimento numa luta de rua uma vez sequer na maior parte dos casos, ou mesmo seja capaz de reproduzir a técnica num combate amistoso com os alunos. Ou seja, você confia a sua vida a um tiro no escuro. Um tiro que, pelo menos na demonstração, tem hora, local e forma definida, justamente o oposto do ambiente chave para a validação da técnica/arte.

PORRA, BICHO, QUE PANCADA!!! VOCÊ VIU??!!!

Um grande amigo meu do passado havia ido a uma academia de Kung Fu, e logo vem a inelutável demonstração:
 - Mestre?
- Sim, filho.
- Mostre-me a pata do Dragão
- Pá!!!
- Mestre?!!!! Por que me bateu?
- Dragões nunca dormem, garfanhoto.

O soco de uma polegada, a pueril demonstração que Bruce Lee executava nos anos sessenta, uma mistura de biomecânica corporal e truque circense, valia-se do soco do Wing Chun para demonstrar que mesmo sem um grande espaço, uma pessoa pode gerar grande poder. A pessoa tomava um grande susto, na maior parte das vezes, recebendo um forte tranco para trás, ao receber o soco sobre um protetor e caia sobre uma cadeira colocada atrás dela , para dramatizar mais o truque. Outros tempos. No "me bate que eu mostro", a coisa pode ficar perigosa para o iniciante quando, sob pretexto de mostrar poder de punch, o mestre ou instrutor te desfere um golpe diretamente, e você gemendo , sentindo forte dor local torna-se a atração principal. "Eu (bato) te mostro". E tome torção. E tome chute na coxa. Soco na barriga, Pá!!! Nossa, quanto poder! Afinal, é toma lá, dá cá, você já teve a sua chance de bater antes.

Se alguém precisa te golpear sem te dar a chance de defesa para mostrar habilidade, com energia desproporcional ao objetivo da demonstração, você provavelmente está diante de um profissional inseguro, incompetente e, principalmente, que não se preocupa com sua segurança ou bem estar.

Obviamente há casos e casos, mas lembre-se quanto mais controlada (me bate!), difícil, cheia de malabarismos e com atos de violência é composta a demonstração das habilidades de um mestre de artes marciais, maior a probabilidade de ela não funcionar para você se realmente precisar, especialmente se você for uma pessoa comum, sem grandes habilidades ou força física. E que quanto mais um mestre está ávido para mostrar o que sabe, é bem provável que menos ele consiga colocar em prática o que demonstra. Um mestre realmente seguro não sente necessidade de se exibir.
















sexta-feira, 19 de julho de 2013

DEFESA PESSOAL, A FALÁCIA DA PILANTRAGEM MARCIAL - Terceira Parte - I.

"Estou encrencado", penso depois de tomar mais um soco cabeça, naquela confusão de seguranças a me empurrar, socos e chutes vem chegando já meio que sem intervalo entre eles, de todos os lados, tudo começa a girar, mas estes golpes ainda são relativamente fáceis de defender com pequenas esquivas, que faço quase que automaticamente. Meu orgulho está bem ferido, mas eu não tenho um ponto de fuga, de forma que brigar contra um mar de gente está  fora de cogitação neste momento. O problema são as porradas que vem por trás, na covardia, chutes e golpes de bastão retrátil. De fato, eu tenho de decidir rápido se vou brigar ou continuar a me fingir de imbecil até chegar a um lugar em que haja um ponto de fuga. Brigar talvez não ajude, afinal eu estou meio bêbado e, agora, meio grogue com as porradas. O pior de tudo é não ter um ponto de fuga, pois até para brigar contra esse monte de gente e ser surrado com algum resto de brio, é preciso triangular entre os adversários e, depois de um segundos e bater o quanto puder, terei de correr e fugir, e se der sorte isolar alguns deles e bater à vontade de forma a descontar as porradas sofridas. Seja como for, sinto que isso não vai rolar, e sair dessa sem ir direto para o hospital - ou para o cemitério, já seria de bom tamanho.

SiFu Marcos executa Jong Sao a guarda simbólica para conflitos irrestritos (de rua) do Wing Chun Kuen: ações coordenadas por uma sistemática que foca a estratégia na prevenção e considera até mesmo a fuga e o logro como táticas importantes.

O cara baixinho que está comandando o show está bem confiante. A princípio, quanto ele se colocou, ainda dentro do galpão, em minha frente, com um sorriso arrogante no rosto, a única coisa que o salvou de um golpe imediato foi eu não ter divisado bem se o objeto que ele colocou apontando para meu queixo era ou não pontiagudo, o que, ao contrário do que dizem os "especialistas em defesa pessoal" realmente impede o sucesso de um contra-ataque na esmagadora maioria das vezes. Não existe defesa contra objeto perfuro-cortante que garanta eficácia, portanto é melhor não dar chance ao azar. O fato de ele ser aparentemente o chefe da segurança em nada me intimidou, mas fato dele estar confiante demais fez com que eu o superestimasse um pouco talvez. Sei bem que se você bate forte no alfa, todo o resto do grupo enfraquece. Mas agora ele grita para eu abaixar o rosto e não olhar para ele, ameaçando golpear, uma tática militar que funciona bem com armas de fogo. Fico imaginando se ele era policial. À medida que chegamos perto da porta, eu ganho o espaço que eu não tinha, e um provável ponto de fuga. Quando olho para o fundo da turba, mais um grupo de seguranças chega, e penso "putz, tá ficando pior"...

... Foi aí de repente senti os caras recuarem. Eu tinha de sair, e a porta foi aberta. Ganhei espaço para brigar. Comecei a ganhar um pouco mais de confiança ao perceber, tardiamente, que os caras estavam com medo. É, medo. "Vocês realmente precisam de mais de quinze pessoas para botarem um só homem para fora do show, vocês são realmente corajosos!", comecei a dizer olhando direto para o cara. Foi aí que, sem qualquer interferência da consciência, fiz o único movimento de arte marcial até então; levantei meu braço esquerdo por cima de minha cabeça, enquanto girei minha base toda a 45 graus em Chor Mah (para a direção de um brilho súbito vindo da minha lateral esquerda. Um objeto duríssimo explodiu contra o meu antebraço armado em Jam Sao (沉手) tão rápido quanto violentamente, provavelmente uma barra de ferro, e caso eu não fizesse a defesa teria sido atingido no rosto, caído no chão e aí sim teria sido almoçado pelos caras, pois para caras frouxos chutar um adversário rendido é muito mais seguro.

Lucas Forrest aplica Chai Gerk. Lucas é um dos muitos alunos de SiFu Marcos que aplicou a técnica do sistema Wing Chun tradicional para defesa pessoal, nocauteando seus inimigos: técnica tem seus limites na rua, mas está longe de ser ineficaz.


"Não vou sair", eu disse, enquanto muitos deles já retornavam, orientando-me com ameaças não olhar para eles, que fizeram um gesto para voltar meio a contra gosto, uma vez que não compensava nem para eles nem para mim, arriscar. Mas, sentindo o medo deles, havia ganhado confiança, e estava a fim de descontar. Foi então que um cara que mais parecia o vocalista do Judas Priest disse: "Ah, não vai sair não, é? 'Pera' aí..." Ele pegou um objeto envolto num saco de pano vermelho, enfiou a mão por dentro e segurou como se empunhasse um revólver, colocando-o bem defronte meu nariz.

***

Ninguém entendeu depois o orgulho que tive dos meus machucados, patética que tenha sido a situação, mas o fato é que as coisas estão diferentes agora. Tenho duas filhas pequenas precisam de mim, uma delas era recém-nascida na época, e eu nem mesmo entendi o porquê de ter sido alvo daquela violência, ao menos daquela vez, de forma que não posso mais arriscar sequer estar envolvido neste tipo de situação. Passei dois meses sem conseguir defender chutes com o braço esquerdo com suspeita de fissura na região, mas confirmei que tanto a técnica que usei - repetida à exaustão na semana anterior com meu aluno Orlando que treinou boxe e tem braços muito rápidos - quanto outras podem funcionar se treinadas do modo correto.

Pelo menos cinco alunos e alguns SiDai* haviam tido sucesso em brigas de rua simples - Se é que se pode dizer que brigas podem ser simples apenas - com o treino que eu lhes havia ministrado, baseado na repetição contínua de técnicas, dezenas, centenas de vezes, tentando conecta-las numa evolução de conceitos parecidos; Por exemplo, se eu fizesse algum Chi Sao (黐手)** (exercício de reflexo com os braços colados) que estimulasse a cobertura instintiva com um tipo de defesa, essa mesma defesa seria a defesa repetida na técnica de luta. Entretanto combates irrestritos ou de rua são tão sujeitos a variantes diversas - e adversas - que tudo o que pode fazer é estar antenado com o que pode acontecer de ordinário num evento destes, e torcer para que aquele aspecto do treinamento cole com a situação ou, melhor ainda, possa ser adaptado a ela. De fato, todas as cartas deveriam jogadas mais na antecipação, interceptação e frustração do conflito do que no enfrentamento puro e simples. Nenhuma pessoa de bem será atacada em igualdade de condições, de forma que estar no meio de um conflito, ainda que se lhe vença, já denota um erro tático por parte do defensor, que se colocou na situação de desvantagem.


***

Estou na Academia Aliança, num breve intervalo do treino, tentando mostrar ao Hugo "Wolverine" Viana, atleta do UFC o nosso golpe "de encontro" - no jargão boxe, na versão que usamos no Applied Wing Chun. Essa técnica fora usada numa briga por meu aluno Lucas Forest contra um agressor mais alto e descrita pelo porteiro do condomínio dele, um ex "67" promissor da academia do Luiz Dórea, hoje treinador principal do Hugo e treinador de lendas como Acelino Popó Freitas, Minotauro Nogueira, Anderson Silva, Júnior Cigano e outros tantos campeões com o boxe . A diferença do golpe do Wing Chun para o do boxe é rápida troca de pernas que potencializa o golpe, uma que por questões estilísticas ruins de expressar agora, muitos de nós lutamos com uma guarda que deixa braços e pernas mais fortes à frente. Às vezes a necessidade do ringue coincide com a da "rua" e isso me faz pensar nas diferenças e similaridades entre os dois ambientes de combate, mas um evento recente, que ocorreu durante as semanas da feitura deste artigo me deu ferramentas mais ilustrativas para expor meu pensamento.

Hugo "Wolverine" Viana, treinado por Sifu Marcos em Wing Chun aplica cotovelada Pie Jian em combate no UFC: conexões da arte marcial com o ringue seus tem limites. E vice-versa.

Como havia dito na primeira desse ensaio, a falta de um sistema que padronize um conjunto de ações e táticas para combater em um ambiente aberto dificulta mais as coisas. Houve recentemente uma grande repercussão na mídia de um vídeo filmado por câmeras de segurança (vide link abaixo) onde dois rapazes, lutadores profissionais de MMA, são arrasados como simples leigos numa briga de rua por um grupo de rapazes. Muitos profissionais de ensino de lutas discutiram o evento sob o ponto de vista moral; a postura inadmissível dos rapazes etc. Como profissional cujo foco inclui também a "defesa pessoal", este termo canhestro, deixei o julgamento pessoal para o segundo plano e, depois de analisar o conflito do ponto de vista tático e técnico, fiquei imaginando que os vendedores de cursos de defesa pessoal completamente ineficazes estão com um prato cheio nas mãos; se um lutador de MMA se dá mal numa briga de rua, não sabe lutar a luta "mortal" das ruas, tenho eu - o leigo impressionável - de procurar algo mais perigoso, uma arte marcial ou método de defesa e não um esporte de combate que não funciona numa luta sem regras.

Este, entretanto, é um pensamento perigoso se aceito sem ressalvas. Se pessoas que tem um físico preparado e estão frequentemente expostos ao combate profissional falharam, porque um praticante de defesa pessoal com um físico mediano e outras limitações que provavelmente nunca lutará pra valer no ambiente a que se propõe seu curso (e muitas vezes sequer na academia) faria melhor? Muito se falou do ocorrido, mas nada com objetividade que a situação merece. O vídeo também tem servido àqueles que dizem que arte marcial alguma serve para a defesa pessoal, e que a prática serviria apenas à manutenção da saúde e fortalecimento do espírito, valendo mais rezar para um dia não se vir em uma situação para a qual não há solução aparente.


Lutadores profissionais de MMA apanham de grupo: praticantes de cursos de defesa pessoal teriam tido melhor sorte? 

O vídeo todavia nos dá algumas lições. A primeira é que quando se luta no ringue você tem um alvo, e a sua postura, sua distância e seu ritmo são dados por este adversário à frente. Se a sua postura de combate, movimentação e ritmo continuam as mesmas no combate irrestrito, o potencial que os agressores derredor tem para te acertar aumenta vertiginosamente. O mais perigoso dos agressores do vídeo não está entre os rapazes que estão brigando diretamente, mas o rapaz do "deixa disso", um malandro que fica circulando e procurando uma oportunidade de agir. Se, no começo do vídeo, este agressor, de jaqueta vermelha, tivesse uma faca, o rapaz que provocou toda a confusão estaria morto. Por isso, num conflito inevitável, qualquer um que invada seu espaço pessoal deve ser visto como agressor, direto ou indireto, e é alguém igualmente perigoso como os demais. Isso é só um exemplo óbvio da "cancha" que não se ensina nos tatames. Os rapazes do MMA são ironicamente colocados fora de combate com golpes de barrote de madeira simples, lentos e de teoricamente mais fácil defesa que os chutes e socos desferidos de todos os lados.

Brigar com base estável e com domínio de "ringue", algo imperativo no esporte de competição "mano a mano", perde totalmente a eficácia quando é considerado um número elevado de agressores cujos ataques vem de diferentes ângulos e muitas vezes ao mesmo tempo. Nestas situações, qualquer ação ofensiva deve ter a fuga como princípio, meio e fim. A falta de uma discussão técnica em torno do conflito, somada a uma profusão de frases feitas jogadas ao vento para tirar proveito do momento, seja contra ou a favor apenas confirmam o amadorismo dos profissionais que assim procederam. Pelo menos se considerarmos a preocupação com a eficácia dos sistemas de combate, já tão limitados nos dias de hoje devido às armas de fogo e outras variáveis, porque a pilantragem do discurso, do marketing e da proliferação de falsos mestres e métodos de eficácia comprovavelmente duvidosa, mas que prometem justamente o contrário e o viés novo, embora menos perigoso de que a arte marcial não poderia nada fazer para proteger alguém numa situação de perigo, mas que seria uma simples patuscada filosófico-calistênica, estão aí arrebanhando incautos aos milhares.

Continua com a última parte.

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Nota: *Si Dai (mestre-irmão-mais-novo): diz-se do condiscípulo mais jovem do praticante.
**Chi Sao (Braços Grudados): Exercício de pressão mútua e circular dos braços de um par de praticantes num jogo combativo que visa treinar a mente para conduzir a ações simples e automáticas de defesa e ataque de acordo com os princípios técnicos de Wing Chun, sem entretanto que se pense conscientemente nos mesmos.


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segunda-feira, 18 de março de 2013

POR QUE O WING CHUN NÃO TEM RESULTADOS EXPRESSIVOS NO RINGUE?

PRÓLOGO

Durante estes últimos anos como escritor, o ponto central da minha carreira tem sido explicar ao público brasileiro qual a proposta real do Wing Chun dentro do mundo das artes marciais, em particular do ponto de vista técnico. No Brasil e no resto do mundo, tendo como  ponto de partida a carreira meteórica de Bruce Lee no cinema, há mais ou menos quarenta anos que o Wing Chun vem sendo vendido por seus mestres e professores como o "melhor estilo" de arte marcial. Entretanto, no começo dos anos 90, a ascensão da família Gracie em escala mundial com os torneios de MMA, e as derrotas humilhantes que alguns lutadores de Wing Chun sofreram nestas competições fizeram rapidamente com que os poucos profissionais que realmente ganham dinheiro empresarialmente com a arte tivessem de encontrar outros caminhos para divulgar seu produto. Assim sendo, o Wing Chun passou a ser vendido com a alcunha de arte marcial "realista", que apesar de não ter grandes resultados expressados no ringue, seja de MMA ou torneios de contato total, teria totais condições de defender seu praticante numa briga de rua, onde não há regras ou limites de tempo, modo de lutar etc.



   



   

Colocado de outra forma, podemos dizer que ficou cômodo demais para nós. Superestimamos nossas habilidades, falamos bobagens, e para ficarmos bem bastou mudarmos o discurso para que os problemas relacionados à nossa prática fossem varridos para baixo do tapete. De fato, o Wing Chun ficou conhecido na China por seu sucesso nas brigas de rua, em especial na Hong Kong dos anos sessenta quando alguns alunos de Yip Man conseguiram fazer frente a praticantes do estilo Choy Li Fut, que dominavam com folga estes embates. Mas foram outros tempos e o modo de lutar mudou no mundo inteiro. De lá pra cá o Choy Lee Fut cresceu tanto nas competições quando como sistema de defesa pessoal, enquanto o Wing Chun hoje é visto como uma piada no mundo das artes marciais de competição. Diante disso, o cara que realmente ama Wing Chun se pergunta: Por que nossa arte não vai bem nas competições? E uma vez que não, será que ela realmente teria utilidade num conflito que, embora provavelmente menos especializado, é potencialmente mortal como uma luta sem regras? Há alguma validade real na prática? Posso confiar no que faço? Por incrível que pareça a resposta é mais óbvia do que se imagina, e se o praticante de wing chun ou leigo lerem com atenção este artigo, não terão mais dúvidas sobre este assunto.

Vejamos a sequência de fotos acima. Nela, escolhi um tipo de movimento natural de defesa comum tanto ao Wing Chun quanto ao Boxe ocidental, mas vamos analisar como a coisa seria feita primeiro numa luta especializada em ringue como boxe que também já pratiquei de forma amadora (cheguei a ser cogitado para um futuro hipotético na seleção brasileira, mas parei pelo caminho e hoje me arrependo) , mas cujos movimentos também servem para a situação de "rua".  Na foto 1, o atacante esboça um gesto de ataque em que o defensor, de branco, também boxeur, faz um pequeno movimento com o tronco para trás (foto 2) apenas o suficiente para deixar morrer o golpe do atacante, para que volte com uma sequência de 1, 2 (Jab de esquerda e direto de direta). Mais ou menos como um "joão bobo". Como as fotos foram feitas de movimentos naturais de combate sombra, a sequência fica bem espontânea, natural (o modelo não aceitou ser atingido, repare na esquiva e no olhar dele, olho de tigre, o Sifu imaginando se deveria voltar com cruzado, rs). Nesta primeira sequência, a única preocupação do boxeador é estar  longe apenas o suficiente para colocar sua sequência, a defesa é a mais natural possível, e só um elemento de variação que tem a ver com os seis golpes (Jab, direto, ganho, uppercut e dois cruzados) já conhecidos de braços que possam ocorrer entre os dois competidores. Agora, vamos ver abaixo a  resposta do Wing Chun a um ataque parecido, usando a mesma inclinação para trás como defesa principal:













Na primeira foto, o defensor, lutador de Wing Chun, que numa situação rea.. ops, irrestrita (porque uma luta do UFC não seria "real"?) supondo que não quisesse ou esperasse o conflito seria atacado provavelmente de surpresa, e sem dados para saber exatamente o que fazer, inclina seu tronco para trás, numa defesa muito semelhante à da primeira sequência. A defesa Gip Sao significa "receber", mas não tem a função específica de defender o golpe, mas cobrir a área onde provavelmente o golpe poderá passar. Agora note, ainda na primeira foto, que a mão direita do defensor faz um movimento descendente passando por toda a região abdominal. Ou seja, a mão esquerda cobre a área alta enquanto a direita, a baixa. Assim, naquela área escolhida para ser coberta, a defesa principal, assim como no caso do Boxe, foi a esquiva, mas no caso do Wing Chun um movimento a mais foi feito, pois numa situação real,  você tem muito mais fatores para observar. Supondo, por exemplo, que o primeiro golpe tivesse sido, ao invés de um jab de esquerda, uma estocada de objeto perfurante na barriga, como uma faca ou uma chave de fenda, o praticante de Wing Chun poderia até ter a sua mão cortada, mas certamente teria mais chance de evitar um golpe potencialmente letal. Da mesma forma, uma paulada na cabeça teria seu afeito atenuado com defesa esquivante de cima. Para o lutador de wing chun, não importa onde será o golpe, ele deve cobrir toda a área. O maior erro dos praticantes de Wing Chun é querer "ver" os golpes e isso definitivamente não funciona. 

Na segunda foto, o contra-ataque é um soco típico do Wing Chun com o corpo de lado, pouco conhecido na maior parte das escolas chamado Din Choi (Soco de Batalha) e cuja estrutura e origem provável no templo Shaolin foi discutida neste blog no ano de 2011 no texto sobre  Luk Dim Boon Kwan. Durante e execução deste soco o braço esquerdo do defensor é violentamente puxado para trás com o objetivo de potencializar o giro e fazer com que o braço da frente o alvo com um efeito de chicote. Há um modo um pouco mais defensivo, fechado, de mostrar essa mesma técnica, a mão esquerda ficaria na guarda mas fiz questão de mostrar como isso seria feito pelo iniciante, ou seja, com o golpe no seu máximo de potência explosiva.  Na última foto, um exemplo ainda mais contundente do que poderia ter sido o primeiro movimento do lutador de Wing Chun que procura defender e atacar ao mesmo tempo sempre que possível. Ele executa Tiu Gerk "Perna que se levanta" pegando a mesma energia que o levará para trás para fazer um forte pisão no chão que servirá de pivô para transferir a força de todo o corpo para o peito de seu pé direito mandado às partes baixas do adversário. Muitos profissionais de Wing Chun gostam de falar de golpes baixos no wing chun, mas não sabem como a própria estrutura de funcionamento do sistema contribui tecnicamente para isso. Afinal, qualquer idiota sabe dar um chute baixo e, do mesmo modo, qualquer um que tenha dedos pode tentar levá-los aos olhos de alguém na hora do desespero. Não se trata do que se pode fazer, mas como o ritmo e a estrutura para a qual a arte foi criada/adaptada guia o processo. Quanto mais o agressor entra com toda a sua força, de um modo forte e pouco pensado, melhor ficará para o lutador de Wing Chun. 


EPÍLOGO

Em qual das duas situações o praticante de Wing Chun que leu este artigo acha que há uma melhor eficácia do ponto de vista energético? E técnico? Quantos golpes sequenciais podem ser melhor colocados nas duas situações? Não há um resposta pronta, há que se refletir um pouco para fixar, mas aposto que este artigo lhe dá uma luz nova sobre um assunto velho, lhe deixou mais tranquilo. Como um sujeito que praticou das duas lutas e treinou diariamente as duas situações e muitas outras semelhantes, posso dizer que o jeito do boxe tem uma defesa mais simples e prática e a possibilidade de ter o corpo mais livre para golpear em sequência, pois os golpes - seis somente-  e os limites técnicos estão definidos . A reação do lutador de Wing Chun exposto ao conflito irrestrito exige que ele tenha uma solução geral para problemas potencialmente  mortais (embora você na maioria das vezes irá sair apenas com um olho roxo, um combate de ringue com alguém preparado para você, na sua idade, no seu peso e preparo físico pode ser muito pior) e inesperados na ação, mas que tem um custo funcional adicional. O lutador de boxe sem noção de cobertura com os membros terá dificuldades amplas caso ele seja exigido fora de sua área, enquanto o de Wing Chun terá uma limitação mediana em todos os aspectos, mas será como um carro que anda bem em qualquer terreno. Em nenhum dos dois casos se ganha algo sem se perder outra coisa em troca. A ação do lutador de Wing Chun deve ser mais ampla e sofisticada na defesa e o ataque, uma vez que devemos supor que nosso adversário tem algum tipo de vantagem sobre nós, deve ser simples porém decisivo. Analisando deste modo, não do há que se envergonhar de sua arte. Ela é o que é, não precisa ser o que não é, a menos que, ironicamente, uma necessidade REAL se configure. O Wing Chun nunca vai ser boxe, nem precisa ser. Entretanto, a linguagem da luta irrestrita de "rua" está mudando com as competições, e a internet democratizou o acesso ao conhecimento. Se ficarmos apenas nos escondendo em nossa zona de conforto porque alguém no passado criou algo que foi útil há trezentos anos, ficaremos para trás.

Principais técnicas mostradas no artigo: 

Jip Sao 接手 , Ding Choi    , Tiu Gerk 挑腳
   









Destrinchando o Muk Yam Jong, o boneco de madeira do Wing Chun, em uma análise de caso. Parte II

Pois é, assim como o personagem do game Tekken, Mukujin ( 木人) lit. Pessoa de Madeira, Uma corruptela de seu alter ego, Muk Yan Jong ( 木人...