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quinta-feira, 2 de julho de 2015

Destrinchando o Muk Yam Jong, o boneco de madeira do Wing Chun, em uma análise de caso. Parte II

Pois é, assim como o personagem do game Tekken, Mukujin (木人) lit. Pessoa de Madeira, Uma corruptela de seu alter ego, Muk Yan Jong (木人樁), Pilar do Homem de Madeira, hoje no mínimo você se liberta de algumas ideias prontas quando se trata de treinamento chinês tradicional. 


Vou começar pedindo ao leitor que viu a sequência que escolhi para análise na primeira parte deste artigo que assista o vídeo abaixo em que executo informalmente a nona seção do boneco (em duas partes complementares para os dois lados), repare novamente nas fotos em destaque, e, depois de ler as legendas e visualizar melhor a movimentação, tente imaginar você mesmo uma aplicação lógica para os dois últimos movimentos da sequência numa luta livre, sem medo de errar. Por enquanto peço ao leitor que desconsidere os movimentos finais que se repetem por cada uma das onze seções da forma. Vamos lá?

A propósito, mais abaixo coloquei duas fotos do próprio Patriarca Yip Man* executando os movimentos para que haja uma melhor contextualização do posicionamento. 



Antes de ir a um evento beneficente pedi a minha filha pequena para me filmar fazendo a sequência de forma lenta e fluída.


Como a interpretação mais óbvia dos primeiros movimentos foi abordada na primeira parte da matéria, vamos nos deter nos próximos movimentos abaixo:




1. Bong Sao. SiFu Marcos caminha para a sua direita enquanto executa o movimento com seu braço esquerdo. A mão de trás (direita) fica em Wu Sao (護手), uma guarda clássica de vários estilos de Kung Fu. Em seguida, um pequeno semi-passo seguido de pivô e,


2. Tan Da Chai Gerk. Tal como na forma Sil Lim Tao, o Bong Sao da foto anterior (braço esquerdo) se transforma em Tan Sao dando uma ideia de transformação e fluidez.  a perna de SiFu Marcos sobe na transição e logo desce para um forte pisão na "perna" do Muk Yam Jong. 


3. Na foto, fica mais claro o deslocamento lateral do Grande Mestre para sua direita.



4. Embora a sequência se feche pelo mesmo lado, esta foto vista pelo lado oposto mostra melhor tanto a profunda simetria quanto a semelhança conceitual entre os movimentos da perna e do braço embora, na forma, a função da perna seja o ataque simultâneo à defesa na parte de cima



Bem, aí você me faz lembrar que o exemplo de aplicação que mostrei na primeira parte do artigo não seria muito diferente de "lutar" contra o boneco. Realmente. A defesa era feita na forma por dentro (Noi Moon) dos braços do boneco e o exemplo aplicado da mesma forma. Concordo. Mas aquela não é a única interpretação possível. Eu poderia, por exemplo, ter feito a mesma técnica defendendo pela "Porta de Fora" (Oi Moon) que inclusive é mais comum em nossa escola. Confuso? Vamos ver o que acontece se interpretarmos as defesas literalmente como vemos na forma e as colocamos tal como são na aplicação solta, vejamos o Bong Sao: 



5. Oops, saiu algo errado. Deve ser porque o João socou de cima pra baixo.



6. Soco de Wing Chun de baixo pra cima, mesmo resultado. Ainda que o oponente tivesse socado com o outro braço nos dois casos o resultado não teria sido muito diferente. A defesa não é impossível, mas muito difícil, nesta postura.


Bong Sao (膀手) em cantonês quer dizer, literalmente, braço alado. Podemos ficar aqui imaginando as origens históricas do termo, se teria sua origem na imitação da asa garça, uma vez que também há movimentos que mimetizam a movimentação da serpente, outro animal simbólico associado às raízes históricas reais ou imaginárias do sistema Wing Chun, a depender do estilo abordado. O fato é que, hoje, três séculos e meio de evolução depois, é melhor dizer que não imitamos mais os movimentos ou a forma física dos bichos míticos, mas o comportamento dos mesmos em combate, suas estratégias, por isso mimetizar a movimentação do animal deixou de ter importância. Sendo assim gostaria de apresentar uma outra tradução do termo, que, como verbo, poderia ser traduzido como "parar". Observe a foto abaixo, onde o Bong Sao é executado no exercício Tang Chi Sao (單黐手): 



7. Bong Sao em Tang Chi Sao



Neste caso o Bong funciona tal foi idealizado originalmente porque ambos os jogadores estão posicionados de forma ideal e já tem, de saída, o contato, ou seja, a sensibilidade tátil para ANTECIPAR a movimentação do oponente de acordo com a teoria do sistema. O próprio exercício foi desenvolvido para que se exercite a teoria de forma lógica e sem pensar, por instinto. Repare que a mão do oponente não consegue sequer sair para desferir propriamente o soco. Em situações em que treino a "anti-esgrima" com meus atletas do MMA**, este movimento, em especial sua versão mais baixa (Dai Bong Sao) é usado para que o adversário não acesse sua cintura ou axila no trabalho de grade.

Contudo, uma vez que o soco seja disparado de longe, a defesa exatamente como feita originalmente não surtirá efeito. Não importa o quão boa ou bem posicionada seja a defesa, ela não irá "parar" nada, pois só pode fazê-lo interceptando na saída. No boneco é a mesma coisa. O posicionamento e o contato com "membros" do mesmo ocorrem na curta distância, os movimentos, como nas demais formas, são "elementos técnicos" chaves-mestras, não movimentos especializados. Todos sabem, em qualquer cultura, o que é um triângulo, mas um triângulo é antes de tudo uma ideia que pode assumir diversas formas, ainda que obedeça aos princípios que o definem como tal. Assim sendo, para a média e longa distâncias, posições em que é também preciso saber lutar Wing Chun há que se fazer uma adaptação dinâmica e passível de mudança todo o tempo, de forma aguda (no calor do momento) e crônica (adaptando-se às mudanças cíclicas das estratégias e modismos das artes marciais, mais do que nunca conectadas pela era da informação e do esporte de contato). 


Vejamos uma possível interpretação literal técnica que se segue: 



8. Tan Da Chai Gerk em Wing Chun San Sik



Parece um pouco melhor, não? Particularmente eu acho a foto um bocado bonita. É meio exótica, não lembra um pouco uma figura de Shiva***? Executo em cima novamente um Tan Sao com Dai Jeung só que desta vez pela "porta de fora" com um forte pisão (Chaai Gerk踩腳) na perna da frente. Gosto de fazer alguns movimentos variantes deste durante a prática do Seung Chi Sao (雙黐手), mas, cá pra nós, não parece ao leitor uma técnica com um grau de alto de dificuldade de aplicação numa luta solta? Se o sujeito estiver avançando com dois movimentos rápidos, qual a possibilidade que teremos de nos adaptar sem sermos atingidos e/ou jogados para trás com o impulso do oponente, principalmente se ele vem com tudo, como ocorre com frequência nas lutas de lutas de rua? 

Eu gosto bastante do simbolismo dessa técnica, e gosto da possibilidade de pisar a perna da frente do meu adversário lutando contra atletas, coisa que faço muito em meus combates, mas note que a própria combinação já admite que você deve estar precavido na parte de cima. Vamos ver agora uma adaptação alternativa para as duas técnicas, sem desrespeitar a teoria do sistema, com a ajuda de meu aluno Fabio, estudante do nível Chum Kiu (尋橋):

9. Vai rolar agressão. Hau Mah.


10. Bong Sao adaptado com Jam Sao como mão de guarda. 

11. Bong se transforma em Tan, em cima, e Tan Lan Gerk em baixo

12. A mão livre segue para a frente em Yat Ji Jung Choi. 


13. Meu aluno João (calção vermelho) aplica a técnica durante luta de Muay Thai. Alguns anos depois ele nocauteria com técnica de Wing Chun no mesmo estádio, sagrando-se campeão estadual.




Na sequência acima temos uma situação onde na iminência de rolar um combate, já posiciono minha perna atrás na base em Hau Mah (foto 9) levantando as mãos o mais rápido possível. A um aluno meu aconselharia a bater primeiro, mas a depender da situação isso não é possível. Em lutas de rua quem bate primeiro quase sempre vence, e a possibilidade de defender algo que vem de lá é muito mais alta quando se tem os dois braços erguidos. Note que a partir do momento em que muda a minha base e meu corpo fica por algum motivo um pouco mais de lado, muda-se o referencial de Linha Central que sempre deve ser lida como a menor distância entre você e seu adversário. 


Fábio lança um atípico direto de esquerda (foto 10). Não importa. Fosse de direita a defesa seria a mesma, você não terá tempo para escolher. No Wing Chun real não ficamos esperando "ver" o golpe para depois escolher qual defesa fazer, pois isso quase nunca funciona. Com pequeno passo para trás eu cubro meu rosto com Bong Sao, com um Jam Sao (枕手), (ou Pow Jung Sao em algumas escolas) eu ajudo a melhorar a cobertura em cima. Escondo meu queixo um pouco atrás do ombro, cancha de combate, enquanto expondo meu cotovelo contra os dedos de Fabio. Caso o oponente esteja sem luvas, existe uma possibilidade real de fratura. 

Junto com o movimento de defesa meu corpo acompanha a trajetória do golpe girando para minha direita Mencionar este giro é fundamental para que o leitor acompanhe a dinâmica de transformação de um elemento técnico "simbólico", recurso recorrente nas AMTC***, para uma técnica de luta específica e que deve ser treinada exaustivamente para que funcione. Quando eu trago meu quadril durante o passo em Bong Sao no Muk Yan Jong e eu estou na verdade apenas repetindo um padrão presente na segunda forma Chum Kiu (
尋橋), quando andamos numa espécie de base híbrida. Pense, a técnica não foi bolada assim à toa, temos de ser perspicazes para interpretar. Você não está em Toy Mah (Empurrar a Base), mas em Joh Mah (Girar a Base). Este padrão será repetido, mas como técnica mais acabada, na forma Baat Jam Dao (八斬刀), com as facas. Lembre-se não há nada no Muk Yam Jong que não seja praticado nas formas anteriores. O número 108, usado desde tempos imemoriais associado à medicina e artes marciais orientais, significa domínio pleno sobre um ciclo e  sua conclusão. Não à toa Yip Man associou a forma a este número poderoso.   






14. Na foto executo Bong Sao andando em base "híbrida" durante a forma Chum Kiu (尋橋): caráter simbólico e adaptável das técnicas de Wing Chun. 





Bong Sao em Muk Yan Jong sempre "chama" outro movimento complementar, para finalizar a sequência, pois nunca é um fim em si mesmo, estático, mas um movimento de transição, como os são o pequeno e grande Gahn Sao e Kwan Sao (que também é composto por um Bong) e que são repetidos com ele por toda a forma em movimentos que invariavelmente fazem uma trajetória espacial de base triangular pelo chão, em torno do boneco, como se se abrissem e fechassem "portas" de ataque, defesa e ângulos todo o tempo. Isto te dá uma dica importante para bolar treinamentos de técnica de luta dois a dois do tipo "pergunta e resposta" compostos de dois ou três movimentos. Esqueça essa ideia idiota dada por mestres de pensamento curto que dizem que você irá resolver tudo num só movimento, a partir de uma base estática, que ficar fazendo lutinha ali vai fazer alguma diferença. Tente ler a mensagem que a forma te passa. Está tudo ali. Não a subestime jamais. Um mestre só pode lhe ensinar metade do sistema, o resto você terá de pegar sozinho. Wing Chun foi sabiamente desenhado assim por nossos ancestrais. Estará sempre protegido das pessoas de menor perspicácia. 


Continuando a sequência (figura 11), aproveitando a biomecânica favorável à transformação do "Bong" em "Tan", recorrente por todo o sistema, executo o contra-ataque seguindo essa lógica cíclica Bong/Tan. Uma vez que você tenha treinado esta combinação ficará muito mais rápido levar seus membros para o espaço "vazio", pois é para lá que você deve correr com sua técnica de Wing Chun todas as vezes que cobrir um lado. Independente de ser ou não atacado, você deve correr para fechar a área que você abriu, e não pode de forma alguma esperar pelo adversário. Essa tem de ser uma reação automática, de forma que você não tenha de pensar na defesa, mas no ataque! No caso, pelo hábito de realizar a defesa previamente, milhares de vezes, minha perna já sobe antes mesmo de Fabio chutar, fazendo ambos, perna e braço, um bloco que fechará toda a área. Em geral, praticantes de Wing Chun esperam para tentar "ver" e sem seguida pisar o chute, ao invés de cobrir. Não é preciso dizer o quanto isso pode ser falho, se você errar o tempo. Se você fecha toda a área, fica mais fácil inclusive de pisar sem levar um chute no queixo. O soco concomitante à defesa visa principalmente coibir um contra-ataque, pois muitos lutadores, em especial os de Muay Thai podem te socar mesmo que você segure a perna deles em pleno ar.

A foto 12, embora um tanto borrada, mostra a defesa completa. É como se se meu lado direito inteiro estivesse protegido por um grande escudo enquanto golpeio reto como uma espada. Repare que o peso do corpo pende levemente para a frente na aplicação, enquanto a perna de apoio fica um pouco mais atrás. Isso visa que o peso do chute do oponente não me jogue no chão. Fabio é bem mais leve do que eu e não corro perigo. Mas e se fosse o contrário? Lembre-se que no Wing Chun já pressupomos de saída que nosso adversário é maior, mais alto e mais forte do que nós.


Por fim, a foto 13 é para fazer o leitor desconfiar um pouquinho que entendo do que recomendo. Nela, meu aluno João Gilberto, depois de oito meses treinando esta técnica comigo, a aplica num campeonato lutando contra um Thai boxeador. Muitos lutadores depois dele, treinados direta ou indiretamente com esta técnica que eu trouxe ao Brasil com outros irmãos kung fu, e depois adaptei um pouco à nossa realidade, a aplicaram em combate com sucesso. A técnica de Wing Chun aplicada em combate que apresento a vocês não é tão plástica quanto se vê comumente nos vídeos, mas é perfeitamente passível de verificação prática. Acreditem, dado o baixo nível técnico do Wing Chun no mundo inteiro, isso é um bocado de coisa.




Esperar para defender tudo o que chega quase nunca funciona. Infelizmente essa é tida como uma das principais estratégias do Wing Chun e o estudante é levado a crer que, se treinar bastante, um dia terá a habilidade final de tudo defender. Pessoas jogam anos de suas vidas de treino fora tentando "reagir", quando a real teoria do sistema envolve "antecipar".  





Conclusão


No texto anterior combato algumas ideias que, embora pareçam ter uma lógica aos olhos do leigo, não são menos equivocadas a respeito da prática com o Muk Yan Jong. Vamos recapitular? 

1. Não se "luta" contra o boneco propriamente dito, ao contrário do que se possa imaginar. Esqueça essa ideia idiota. Quando da execução da forma não se está enfrentando necessariamente, obrigatoriamente, pelo menos, um oponente posicionado de frente pra você, contorcendo-se para pegá-lo pelos flancos. As técnicas podem ser interpretadas individualmente em ângulos e ordem cronológica de encadeamento diferentes dos de uma luta literal (e unilateral) contra o boneco. Libertar-se deste equivoco te dará a possibilidade de entender um "segredo" sobre a prática do boneco que esteve ali para você o tempo inteiro.

2. Alta velocidade de execução da forma não denota habilidade do praticante. De fato, o Wing Chun foi desenvolvido para pessoas que não são rápidas ou talentosas, você usa a técnica e a estratégia do estilo, baseados em leis da física e visão objetiva e simples do combate para quebrar o ritmo do inimigo. A prática da forma com velocidade excessiva torna as posturas defeituosas e gera maus hábitos que refletem ignorância a respeito da real função do aparelho. Pense que você defende e ataca ao mesmo tempo frequentemente; isto te obriga a posicionar bem o corpo para reagir explosivamente. Como fará isso tendo de se movimentar em torno do aparelho todo o tempo?

3. A visão utópica e alienante das escolas de que apenas saber a forma e prática-la tal como se apresenta em sua sequência, sem qualquer elaboração de técnicas de lutas dois-a-dois com consequente treinamento de repetições, adaptações e sparring livre, seria suficiente para que a técnica surja holisticamente de algum lugar misterioso da mente quando alguém estiver tentando te amassar. Acredito particularmente que os mistérios da mente funcionam melhor se você trabalhar bastante com o que você tem para só depois esperar a mágica holística aparecer. Não à toa sujeitos esquisotéricos são fascinados pelo aparelho. 


4. Talvez o mais importante de tudo: nunca praticar no Jong imaginando que está vendo e bloqueando golpes que chegam, parando braços ou pernas a partir de uma posição estática e por demais grudada ao boneco; esta é a ideia mais perniciosa ao Wing Chun de uma forma geral é grandemente influenciada por quem superestima trabalho de Kiu Sao (Braços em Ponte), comum no sul da China em vários estilos e que em nossa luta é expresso no Chi Sao Lap Sao Faat. Essa visão de prática com o boneco é aquela que é passada nos filmes de artes marciais, por ser esteticamente agradável e fortemente impressionável. Existe uma espécie de desespero por encurtar a distância a todo custo. Isso não funciona. Novamente sugiro a leitura de meus artigos anteriores.

Não pretendo aqui esgotar o tema. Nem poderia. Há um mundo de coisas sobre o Muk Yan Jong para serem estudadas, e não apenas tecnicamente, mas histórica e culturalmente. É um assunto fascinante, se encarado com menos exotismo e mais seriedade. A ideia deste artigo foi, a partir de um lance corriqueiro de escola e posterior reflexão, dividir uma visão de utilização do boneco de madeira que acredito que será muito útil e fará com que muita gente comece a empregá-lo de modo mais prático. Aprender a sequência do Manequim de Madeira é fácil. Desmontar a sequência teórica e remontá-la em prática lógicas, estratégicas e aplicáveis de acordo com os conceitos originais do sistema Wing Chun, treiná-las exaustivamente dois a dois para só então aplicá-las em luta é algo raro e para poucos. Gostaria de voltar no futuro analisando os movimentos de transição, estes que não abordei que fazer parte do trecho apresentado aqui. Mas ficará para uma outra ocasião.



Forte abraço.


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*Yip Kai Man (1893-1972) é sexta geração do sistema Wing Chun. Tendo saído de Foshan para ensinar em Hong Kong em meados do séc. XX, seu mais famoso discípulo, Bruce Lee, tornou o Wing Chun mundialmente divulgado e famoso. Uma série de filmes recentes retratando a vida do mestre vem sendo lançados, sendo que os que tem Donnie Yen interpretando o mestre nas telas reacenderam mundialmente o interesse do público por esta arte chinesa.
**Vide texto sobre o autor ou o link "depoimentos" no site http://www.brazilianwingchun.com 
***Lord Shiva é uma das principais divindades do Hinduísmo. Refiro-me às figuras do deus representado na forma Nataraja. Vale dizer que não por acaso a representação de deuses indianos parecem descrever movimentos de artes marciais antigas. 
****Artes Marciais Tradicionais Chinesas.

terça-feira, 6 de maio de 2014

DEFESA PESSOAL, A FALÁCIA DA PILANTRAGEM MARCIAL - Parte final: Os Vendedores de Ilusões - Como você paga para colocar a vida em risco.


“Tomorrow is the most important thing in life. Comes into us at midnight very clean. It's perfect when it arrives and puts itself in our hands. It hopes we've learned something from yesterday.” 
― John Wayne



LEMBRANDO A ORIGEM DESTES ENSAIOS


Este artigo deveria ser escrito casado com a passagem de um ano do assassinato de meu aluno e amigo, o Delegado de Polícia Civil Eduardo Rafael, em novembro último, depois de ser baleado ao reagir a assalto. Preparei-me para isso. Mas não deu. Passei aquela semana nos preparativos para a lembrança de sua passagem por parte da escola e seus amigos e irmãos de arte, sendo emocionalmente complicado voltar a este assunto de forma um pouco mais fria. Quando perdemos alguém de forma abrupta e violenta, um forte sentimento de revolta e inconformidade nos toma e demora muito a sair. Lembro que nos primeiros meses realmente me considerei bastante culpado pela morte dele, assim como muitos de seus amigos, por diferentes motivos. Mas para mim foi diferente, uma vez que fui o último a falar com ele, e era seu mestre em artes marciais naquele momento, embora ele fosse previamente treinado em close range combat e, no Wing Chun, ainda um iniciante. O ingrediente macabro foi que naquela noite discutimos longamente sobre prós e contra de reações a assaltos.

À medida que o tempo foi passando e que ia escrevendo esta série de esboços, ensaios, eu esperava que a desconfiança que sempre tive da tão aclamada infalibilidade de determinados métodos de defesa pessoal, marcada por algumas ideias soltas, tomasse corpo e desse vazão a uma crítica bem definida e com argumentos firmes. Não, não quero reinventar a roda nem tenho muita esperança de dizer nada que  já não tenha sido dito por gente corajosa e de bom senso, mas de alguma forma usar a responsabilidade social que tenho como mestre e profissional de artes marciais, ao mesmo tempo que resolvo meus demônios internos em relação a este assunto, para que eu tire alguma lição disso e use a habilidade que tenho para expor minhas conclusões dizendo algo útil para as pessoas, fechando este ciclo.


Homenagem preparada para Eduardo por seus irmãos kung fu por um ano de sua passagem. 




PERGUNTA QUE NÃO CALA: ATÉ QUE PONTO ACEITAR O FATOR "FATALIDADE" NAS MORTES VIOLENTAS?

Uma coisa que ficou martelando na minha cabeça durante muito tempo foram dois dados daquela situação fatídica. Fatídica? É isto que precisamente teimo em não aceitar. Eduardo desarmou e atirou num de seus assassinos e no processo foi alvejado pelos demais; Tivéssemos uma situação ideal, com menos gente, provavelmente teria sobrevivido e sido aclamado herói. Mas quantos sobrevivem a este tipo de situação? Ora, no estado de São Paulo, menos de 1% do total de assaltos a mão armada terminam em morte. Na maioria esmagadora dos casos, as poucas mortes se dão justamente pela REAÇÃO voluntária ou involuntária das vítimas, ou da tentativa de fuga das mesmas, sendo ainda menor a parcela de casos em que o o assaltante deliberadamente mata a vítima sem motivo aparente. Entretanto são justamente estes casos mais raros que vão parar na TV, tendo o fator crueldade como critério. Crime violento dá mais audiência, por ser indignante, e essa exposição contínua acaba por incentivar no publico atitudes extremas diante da violência iminente e inescapável. Então outra pergunta, talvez ainda mais pertinente é: para que treinar alguém para tentar algo que provavelmente não vai acabar bem quando se não se é de fato um combatente profissional, uma vez que na esmagadora das vezes o agressor está interessado apenas na obtenção dos bens materiais? Em Cuiabá, as estatísticas mostram que a chances de ser morto ou ferido com gravidade ao tentar a reação num assalto chegam 90%. Sabedor de estatísticas sempre similares a estas, segundo testemunha do crime, Eduardo não pretendia reagir, mesmo estando preparado para isto; entretanto, identificado como policial, não teve escolha, pois neste momento ele se encaixou automaticamente no perfil daquela parcela mais do que mínima de vítimas de quem o marginal deliberadamente tira a vida.

Então, não tinha jeito? É se conformar e aceitar que este tipo de coisa, de repente...acontece com policiais? Bem, isso conduz ao segundo dado, e o que mais me deixa triste; por estes desencontros da vida eu acabei não indo na casa do delegado nas diversas oportunidades que tive. A cerveja e petiscos com mulheres e crianças foram adiados para nunca mais. Ele morava num prédio de esquina num bairro de ruas largas e com diversas saídas rápidas. Tinha de descer de seu Gol 1.6 branco zero km, abrir o portão da garagem, entrar, estacionar, descer do carro e trancar portão. Eu certamente o teria alertado para o que ele já sabia. Uma vítima comum desce, entrega o carro e acabou. Um delegado de polícia, não. Não importa o quão bem você seja treinado, a situação aberta nunca será dada na exatidão do treinamento. Entretanto, para homens de segurança, para estes profissionais que enfrentam todo o carma negativo dos problemas que a sociedade varre para debaixo do tapete, como parte de sua rotina, é preciso estar muito bem treinado para ter uma chance. Ruins que alguns métodos sejam, e abordei um pouco disso neste e em outros artigos desta série, você precisa ter algo, uma referência, um lastro técnico-motor, umas poucas técnicas mais funcionais dominadas para aplicação imediata e outras mais amplas, mesmo que funcionem num nível simbólico, para te dar uma vaga ideia do que fazer.

Falando friamente contudo, o que me diz que isso não foi uma fatalidade foi uma série de coincidências de forças que corroboraram e  culminaram com o sinistro, uma vez combinadas num único e mortal evento: o fato de ser policial e andar armado, ter deixado as armas em local acessível, o terreno, o horário, o objeto de desejo dos bandidos, e, mais do que tudo, a situação de fragilidade em que se colocava voluntariamente todos os dias ao se expor para guardar o seu veículo. Uma vez que fosse possível morrer e voltar à vida, quantas vezes na mesma situação Eduardo teria reagido e tomado a arma do bandido? Em quantas teria sido baleado? E se ao invés de quatro, fossem menos assaltantes? Quanto ele teria de treinar mais para eliminar todos os erros e fazer como num filme, onde tudo dá certo? E por que este raciocínio soa tão estúpido para mim? Se alguém se vê forçado a lutar com estranhos por sua vida, contra a sua vontade, em situação de franca desvantagem, isto na maior parte vezes denota um erro estratégico que irá transformá-lo em mais um número em algum relatório de política pública de segurança.



OS RISCOS DA FALTA DE ESTRATÉGIA E A ORIGEM PLURAL DAS ARTES MARCIAIS

“A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar.” 
―Sun Tzu 




Ora, nada me  demove a ideia que tenho de que  um homem na condição dele sabia do risco que assumia se expondo deste jeito todos os dias. E que não precisava ter sido deste jeito. Convenhamos que ajuda muito não dar espaço ao azar.  Tivesse ele conseguido sobreviver e teríamos cinicamente considerado a reação perfeita, a melhor coisa a ter sido feita. Entrevistas na TV dizendo para não tentar isso em casa, que isto só para profissionais, etc. Mas será que treinar diligentemente para se atracar com bandidos na luta pela vida é o melhor que as artes marciais tem a oferecer para seus praticantes? Além: sejamos francos, será isto o mais inteligente em termos de defesa pessoal? Anos de treino para serem postos a prova numa fração de segundos a todo custo? E para provar o quê? Quantas vezes a ação será disparada mais pelo orgulho e pela ojeriza à impotência e a humilhação?

As artes marciais de origem oriental não são um saber flutuante, desapegado de um contexto histórico, mas são também resultado direto da influência de toda uma cultura associada às principais linhas de pensamento/religiões orientais, como o Hinduísmo, o Budismo Chan/Zen, o Taoismo e o Confucionismo. Diferentemente de outras religiões, e escapando à definição ocidental do termo, estas escolas de pensamento não se concentram apenas em resolver uma dada situação através da fé ou do esforço agudo, local e elaborado, mas entender as condicionantes dos processos dinâmicos que levam as pessoas ao sucesso ou fracasso na vida pessoal, social e espiritual em suas bases mais profundas. Elas em geral não se detém nos resultados, ou apenas ainda colocar o sucesso ou fracasso em mãos alheias de um deus, mas dar armas para que cada um faça bem suas próprias escolhas, de forma natural, apenas seguindo uma suposta dinâmica universal, que se expressa no mundo cotidiano todo o tempo, sem nada forçar. Não procuram apontar onde está o "pecado", ou quem o executa, mas evitar o desejo que leva a cometê-lo, ao invés de tentar frear os instintos num ponto onde será impossível fazê-lo.

Este é um dado importante para se entender o modo de pensar associado às artes marciais orientais. Qualquer um com um mínimo de inteligência e planejamento pode suplantar uma situação maior que suas forças, desde que se aja na base, antes que aquilo esteja grande demais. Essa é mesma ideia taoista da não-ação, que não tem nada a ver com inatividade ou passividade. Não sujar a rua ao invés de investir tempo e dinheiro demasiados em vassouras e varredores, por exemplo. Desta e de outras ideias simples evoluíram não apenas o pensamento oriental, mas junto delas a medicina e artes marciais orientais, e durante muito tempo estes conhecimentos  andaram e se desenvolveram juntos. O professor de artes marciais na Índia e China antigos era não raro  o conselheiro, o protetor e o médico da localidade onde ensinava. O convívio com mestre e os condiscípulos nos estudos extra-classe e nos momentos de descontração eram uma extensão, um acréscimo de treinamento informal para a aplicação dos conceitos marciais em diversos aspectos para além da mera troca de golpes. Isto trazia a razão e coerência técnica para fora do local de treino, e vice-versa.


Estátua de Sun Tzu no Japão. O autor da "Arte da Guerra" ressaltava a importância da estratégia na solução de conflitos



O estudo da luta em terrenos, situações políticas e sociais diversas ao longo dos séculos deu origem a variadas técnicas, fantásticos sistemas de luta que muitas vezes dão a chance a alguém de menor porte vencer alguém muito maior ou mais forte, em maior número ou com algum tipo de vantagem em certas agressões simples, ou combates onde ambos os contendedores estão armados.  Em tese, seguindo uma estratégia, e em determinadas condições, qualquer um teria condições de se defender minimamente sua integridade física. Contudo, uma das lições aprendidas no dia-a-dia físico da luta é que não se pode vencer todas as vezes um conflito, mesmo o dos mais simples, mano a mano. Que embora tenhamos poder para matar, devemos estar prontos para morrer, e que ao mesmo tempo a vida é preciosa demais para ser tomada ou dada em vão. Lutar, machucar o outro sem feri-lo gravemente, e mesmo apanhar é um processo através do qual crescemos e aprendemos a dar valor à vida ao mesmo tempo em que desenvolvemos - também - um meio de protegê-la. O jogo do combate, que implica colocar vida em risco em algum nível, e a própria "vida" paralela nas artes marciais eram também um modo de se abordar simbólica e estrategicamente o jogo da vida real: trabalho, amizade, filhos, desafios menos dramáticos e imediatos à primeira vista, mas não menos importantes.

Vivemos agora num mundo muito diferente, onde se por um lado temos a lei colocar ordem ao caos e à barbárie ancestral, esta mesma lei nos desarmou e nos torna dependentes do estado. Se tivermos de enfrentar alguém para defender nossa vida o faremos numa desvantagem nunca vista antes, em especial depois do advento da arma de fogo. Uma bala sai de um revolver, de um mero calibre 38 a mais de 1000 km/h. Um recordista de 100 m rasos atinge uma velocidade média de 45 km/h. Isto não lhe dá muitas opções quando você chega atrasado. Embora não haja leis que nos impeçam de portar armas brancas em nosso país, se o fizermos podemos ou ser detidos ou sermos vítimas do despreparo policial. Embora possamos ter uma arma em casa, dificilmente um cidadão comum consegue o porte de arma. E mesmo que consiga, o fator surpresa num ataque programado por bandidos numa situação corriqueira evidencia o quanto pode ser um mal negócio reagir, uma vez que bandidos já vem com a  segurança da impunidade, num país de proporções continentais, mas com cidadãos vulneráveis e convenientemente desarmados pelas autoridades. Neste novo mundo, pragmático, superficial e imediatista, , as artes marciais se distanciaram das escolas de pensamento e criou-se a impressão - falsa - que apenas a técnica de luta pode ser o componente mais importante para defesa pessoal, quando o que ela pode fazer de fato é te dar recursos para umas poucas situações práticas muito específicas, em sua maior parte a necessária noção contra agressões simples desarmadas e, para os deslumbrados dos sistemas de defesa pessoal que tudo prometem, uma perigosa falsa sensação de segurança.


OS VENDEDORES DE ILUSÕES: COMO VOCÊ PAGA - CARO - POR E PARA POTENCIALIZAR O RISCO.



Séculos atrás, Myamoto Musashi já criticava escolas de artes marciais que supostamente vendiam o segredo do combate em seu "Livro do Cinco Anéis".


Quando nos decidimos por uma arte marcial ou esporte de combate uma série de atributos que desejamos ver assoma à mente; e especialmente quando escolhemos alguma prática para nossos filhos, mais do que para nós mesmos, uma busca de vantagens tem tem início: Preparo físico, qualidade de vida, recreação, contato social, um maior poder de concentração e foco, o "gastar" da agressividade num ambiente seguro, a própria serenidade ou agressividade positiva contidos no local treino, as roupas extravagantes e os ritos bacanas de passagem de nível ou meditação, a disciplina, a possibilidade de evoluir numa área do conhecimento, tudo isto está incluso. Nada disso tem maiores consequências e, na pior das hipóteses, poderá ser uma boa experiência que, abraçando ou deixando para trás, terá sido benéfico de alguma forma; entretanto, quando se fala em Defesa Pessoal a coisa muda de figura. Estamos falando aí de consequências que ao passarem pela porta da academia afora irão desde um simples olho-roxo até a invalidez ou morte. É algo muito sério, que não pode ser comprado, tampouco vendido. Não há qualquer método que garanta sucesso neste tipo de situação, mas este dado, óbvio, a exemplo do governo que te desarmou, será convenientemente escondido pela escola que está a te vender este produto intangível, a defesa pessoal, quase sempre de forma irresponsável.



"Eu estarei com vocês, caras, em um minuto. O mano de vocês está prestes a bater" A charge ilustra com bom humor que mesmo as artes de luta (no caso, um exemplo de luta de solo que numa situação de campeonato estaria praticamente vencida) consagradas podem ter sua aplicação complicada pelo contexto do conflito irrestrito ou "de rua". 





Não há qualquer problema em o cidadão comum estudar um sistema de luta para aprender a se defender minimamente, evitar ser agredido gratuitamente no caminho para escola, no trabalho, no trânsito, no lazer ou nas agressões domésticas e sexuais. Existe antes de tudo o direito de não aceitar ser vítima passiva. Mas há cursos e escolas que envolvem técnicas marciais que se auto-intitulam, antes de qualquer outra coisa, um método que tem como único e objetivo exclusivo cuidar de sua defesa pessoal. Mas isto é uma mentira parcial. Pregam, na verdade, aberta ou tacitamente, a reação imediata a agressões sob a capa desde a defesa da honra, da dignidade, da harmonia exotérica, dum pseudo-militarismo de shopping center. Venha praticar a defesa marcial dos monges budistas. Do exército mais bem treinado do mundo, e por aí vai. Acontece que o perfil deste tipo de público não é o do monge-guerreiro. Não é do soldado. É alguém que em geral ama o simbolismo do negócio, mas passaria bem longe de um conflito, antes de começar a praticar. O soldado, não custa lembrar, é um forçado combatente profissional que está antes de mais nada arriscando a vida, no nível infinitamente maior que o cidadão comum, muitas vezes contra a própria vontade, e sua morte já é dada como certa de saída em qualquer cálculo preliminar estratégico, e muitas vezes oferecida pelo comando como um preço a se pagar num ponto para se alcance a vitória em outro. É disso que trata este último texto. Das escolas que não apenas escondem de você os fatos da maioria esmagadora de quaisquer estatísticas sérias, mas literalmente lhe tiram dinheiro para fazê-lo crer que treinar para reagir vai lhe dar autoconfiança, segurança e paz com seus conflitos internos que às vezes o levaram até ali, especialmente para aqueles que já passaram por alguma situação de violência, ou tem medo, quando na verdade é o contrário, o individuo comum que luta por auto-afirmação, que prefere arriscar a vida para salvar bens materiais que jamais serão tão preciosos  do que estar vivo para usufruir estas e outras coisas, é que está dando uma prova cabal da sua desinteligência e despreparo tático, emocional e espiritual.


As artes marciais são o resultado de uma série de valores culturais ancestrais. A técnica expressaria também fisicamente essa visão de mundo. Que cultura marcial queremos passar às nossas crianças?




TÁTICAS COMERCIAIS PARA VOS EMPURRAR UM ÚNICO PRODUTO: A REAÇÃO.

Em artigos como "ME BATE QUE EU TE MOSTRO" abordei a forma muitas vezes fantasiosa e exagerada das exibições que muitos mestres fazem para demonstrar suas habilidades e impressionar leigos. Ao contrário dos esportes de combate, onde as aplicações técnicas são filmadas e verificáveis, talvez mais facilitadas, dentro de certos limites, pelas regras e repertório técnico, a aplicação de uma técnica treinada num ambiente controlado da academia em um ambiente irrestrito e sem regras é extremamente dificultada pelas variantes de ataque, meios, número de oponentes, fator emocional e, sobretudo, pelo o fator surpresa, que seja reações intempestivas. O Wing Chun, arte marcial que ensino profissionalmente, por exemplo, destacou-se no passado pelo sucesso nas brigas de rua chinesas. É bom (não perfeito, não infalível) e especializou-se para este tipo de ambiente de luta justamente por reconhecer a impossibilidade de se treinar para todos os tipos de situações e ter uma resposta para tudo, por isso trabalha com um número pequeno de conceitos técnicos simples que podem ser recombinados no calor da ação e que cria uma "cultura de planejamento" a longo prazo que propicia no estudante a atitude de visar não meramente defender golpes mas agir nas condicionantes do conflito, taticamente, de preferência antes que o mesmo que o ataque aconteça, projetando um padrão meramente técnico para uma "técnica de comportamento". Um exercício de combate simbólico que internaliza essa ideia de antecipação reflexa no Wing Chun é o Chi Sao.



Meu SiTaiGung (mestre-bisavô na cultura do kung fu) Yip Man pratica Chi Sao com seu estudante Bruce Lee nos anos 50. Exercício para educar a mente antecipar situações perigosas em luta, antes mesmos que elas se configurem em ato físico concreto. Simplicidade como princípio. 





Entretanto, é comum ver tanto no meu estilo como em outros ver a arte ser vendida tendo como único e exclusivo objetivo a famigerada "defesa pessoal" entendida como aí apenas técnica de luta, empobrecendo e limitando suas possibilidades. O profissional de artes marciais que te vende isso está mentindo e te enganando, ingenua ou criminosamente. Ele não está te vendendo a "defesa", ele está te vendendo um produto chamado "reação" que quase na totalidade dos casos de agressões mais violentas irá não te defender, mas POTENCIALIZAR o risco. O cara coloca uma faca na sua frente, você reage. Revólver, cadeirada, gangue etc., pode vir todo mundo, você reagirá e resolverá em segundos. O que te levou a estar naquela posição vulnerável curiosamente não interessa. Preparar o indivíduo de forma global não interessa. Como você irá se gabar de uma luta que foi evitada quando você percebeu que entraria numa fria? O que dá cartaz, o que chama a atenção das emissoras de TV, é o ato do super-herói que resolve tudo sozinho, batendo de frente, por isso o querem para estar sempre um passo atrás, para ser a vítima, para entrar voluntariamente naqueles 90% estatísticos onde a merda (perdão) acontece. O argumento  mais ou menos este: "Vamos tocar fogo neste prédio: não importa o quanto o fogo irá se espalhar, a água que tenho dentro deste balde é superior a todas as outras". 




Mestre de defesa pessoal absoluta ensina como reagir (não se comportar, mas como partir pra cima, mesmo) em assalto a ônibus com o indefectível dedo no olho: Civis amadores e crédulos estimulados a somar-se desnecessária e voluntariamente às estatísticas policiais.




Observe a foto acima. Procurei não identificar o mestre, uma vez que a crítica não é determinado método, mas a postura ética. Numa entrevista (hilária, diga-se de passagem) este homem encheu um ônibus com estudantes para ensiná-los a reagir (não é piada, é isso mesmo) em assalto a ônibus. Ele mostra na TV como você desferirá aquele golpe com que o teu instrutor disse que, se as regras permitissem, ele detonaria o campeão do UFC.  Se vai funcionar ou não na real é muitas vezes uma incógnita, uma vez que certos golpes e combinações nunca foram testados num combate no ringue ou academia pra valer, de tão perigoso que supostamente seria. Este é o perigo das artes marciais "absolutas", métodos criados exclusivamente para situações "reais": seus praticantes em geral não lutam na academia, não tentam aplicar o que sabem em campeonato, e as vezes nem mesmo na academia. Tudo o que você tem é a palavra do instrutor. Que dado você tem de aquilo irá funcionar sem prática prévia? Com o outro cara vindo com tudo pra cima? Armado? E lá vai você, um cara comum, por puro orgulho ou, inda mais perigoso, reflexo condicionado, provoca ou aceita uma briga, tenta desarmar um bandido que não tem nada a perder, mulher, filhos, família ou futuro, simplesmente porque um instrutor de artes marciais disse que na rua é "matar ou morrer, senhores", para ver se tira algum a mais no fim do mês para pagar a franquia de quem lhe vendeu este discurso pronto. Não se iluda, sua ação em campo de batalha será antes de tudo um ato de fé. Boa sorte. Certamente o "morrer" será para você, não para ele, uma vez que o bom vendedor nunca consome a droga que vende ao usuário.



ONDE PROCURAR POR DEFESA

Vou pedir ao leitor que não subestime a própria inteligência e pense que estou dizendo que não se deve aprender a se defender, ou mesmo de aprender a tirar uma arma da mão de alguém, perigosamente desnecessário que seja na maioria das vezes. Novamente, não se está dizendo aqui que não se deve treinar ou estar preparado, nem que os métodos atuais não devam ser aprimorados constantemente. Uma academia de artes marciais contudo é o último lugar numa longa lista de onde você deve procurar quando pensar com seriedade em investir seu tempo e dinheiro em segurança profissional para você e sua família. Um consultor de segurança especializado e experiente funcionará muito melhor.

Defesa Pessoal  hoje em dia, segundo a lógica da burrice vendida nas academias, é um conjunto de técnicas corporais usadas para atuar quando tudo mais deu errado, ou seja, quando na maior parte das vezes você mesmo errou estrategicamente. Um verdadeiro curso de defesa pessoal para civis desarmados com este nome deveria abordar 80% do seu tempo com prevenção, e não com atividade física reativa. As artes marciais, que originalmente eram parte de todo um modo de pensar estratégico que envolvia boa parte dos aspectos da vida do praticante tornaram-se, segundo esta ótica canhestra, um recurso para quando você será obrigado a lutar por sua vida numa situação de desvantagem tão brutal e desesperadora que não haverá outra coisa a tentar. Como vimos estatisticamente, mesmo estas possibilidades de morte, embora existam, são remotas, e quando ocorrem na maior parte das vezes são provocadas pela própria reação em si.


PAPEL DOS VÍDEOS VEICULADOS NAS REDES SOCIAIS DA INTERNET NA CULTURA DA REAÇÃO A ASSALTOS

É muito comum em redes sociais como o Facebook a divulgação de vídeos com cenas de extrema violência, ou com fins políticos ou espontaneamente, para mostrar a indignação popular em virtude da fragilidade da segurança pública no país. São especialmente revoltantes aqueles vídeos em que os assaltantes executam vítimas rendidas sem que houvesse motivo aparente. O pai de família fez tudo certo, não reagiu e acabou morto. Quando discutimos com alguém este assunto, vem lá um vídeo que mostra um caso como este, que leva a revolta e mesmo às lagrimas, ou um daqueles em que surpreendentemente a reação deu certo; alguém sacou uma arma e acabou com todos. Bandido bom é bandido morto. Concordo. Entretanto, vídeos isolados, em especial aqueles que mostram a reação de policiais armados, não dão o grande quadro da coisa. Sugiro aos leitores que vistem um site chamado Onde Fui Roubado : este site agrega vítimas de roubos, assaltos e outros crimes que marcam no mapa o local e descrevem como foram atacadas. Embora o site só compute os dados fornecidos pelas próprias vítimas, isso invalida a tese de maquiagem oficial dos dados, por isso mesmo convido o leitor a fazer um exercício mental simples; ao olhar o mapa do site (o link que disponibilizo dá uma amostra da cidade de São Paulo, preste atenção nos pontos em vermelho, pois eles indicam os assaltos a mão armada. Imagine agora - face ao grande número de ocorrências - se uma grande parcela destes atacados tivesse algum conhecimento marcial e reagisse em defesa de sua honra e bens. Quantos destes pontos em vermelho transforma-se-iam em casos de latrocínio e quantos seriam de uma reação bem sucedida?



O OUTRO LADO DA MOEDA: A ORIGEM EMPÍRICA DA EFICÁCIA TÉCNICA E O DIREITO INALIENÁVEL DE REAGIR (DESDE QUE NÃO FERRE QUEM ESTIVER EM VOLTA) 

Muita gente defende perfis de uma mesma arte marcial de acordo com uma linha ideológica-comercial. Por exemplo, é costume dizer que as escolas de uma linha X seriam de "lutadores" que vão aos campeonatos provar a sua supremacia técnica; uma outra, Y, os "heróis" que treinam para a luta "real" ou briga de rua hipotética, havendo ainda uma Z dos vulgarmente chamados "filósofos" da luta, para quem as artes marciais não serviriam para lutar, mas atingir um nível espiritual superior. Cada um dos mestres que encabeçam escolas com estes perfis marcados ridicularizam ou pelo menos lançam farpas uns aos outros. O filósofo marcial critica o esportista marcial como alguém de pensamento limitado, violento e sem nada a oferecer, que por sua vez ridiculariza os teóricos do confronto aberto, por acreditar que a luta se resume ao que faz no ringue; o praticante de defesa pessoal despreza por completo a experiência de contato físico total dos treinos de luta esportiva alegando que a "luta real" não tem regras, e que os verdadeiros golpes mortais não podem ser treinados para valer na academia. Contudo, se analisarmos as origens das artes marciais mais eficazes, veremos que elas necessitaram - em diferentes momentos de seu desenvolvimento - de pessoas com cada um dos perfis caricatos acima convergindo suas experiências ao mesmo tempo para forjar algo valioso. O sábio desenvolve a teoria, o prático a técnica, o louco faz com que ela aconteça, e por fim o grande vendedor a torna popular. Todos eles são necessários a uma escola que se pretenda completa e se mantenha assim.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que digo ao leigo desavisado que evite a reação desnecessária na maioria dos casos, em especial durante assaltos a mão armada, não se iluda, para que você pratique hoje uma arte marcial/esporte de combate de ponta, algum sujeito no passado deixou de lado o conforto e arriscou a vida ou a integridade física tentando aplicar o que sabe de fato, seja numa competição, seja na rua. Existem sujeitos que vivem suas vidas procurando a morte o tempo inteiro, às vezes para tentar fazer justiça, outras vezes por orgulho, outras por gostar de brigar e subjugar outrem. Mas este tipo de sujeito está deliberadamente procurando por emoções perigosas e está consciente dos riscos envolvidos. Muitos de meus alunos, por exemplo, gostam de estar na noite, no urderground urbano, e por isso mesmo vez por outra se metem em encrenca, por conta do seu estilo de vida. Vez por outra recebo um telefonema ou mensagem via Facebook  sobre alguma luta, e geralmente estudo estes embates para aprimorar meu método de ensino. O que ensino na minha escola entretanto passa pela defesa pessoal não como um fim em si mesmo, mas como um recurso técnico notadamente limitado para situações muito específicas. O que ensino de fato aos que se interessam em proteção pessoal é projetar o saber da arte marcial estrategicamente. O lutador de Wing Chun que usa sua arte não entra para lutar, e sim para vencer, e a vitória sem luta, embora menos dramática, é mais gloriosa, pois é a que gasta menos energia e envolve menos riscos. Se algum de meus alunos - todos adultos -  eventualmente se metem em encrenca, não é por falta de aviso dos grandes riscos envolvidos. Todos tem o direito inalienável de se meter em encrenca, ou de protegerem a própria honra, ou orgulho, desde que tenham plena consciência daquilo que se tem a perder e a ganhar com a escolha pelo combate. E para ganhar algo, sempre perdemos outra em troca. Essa é a natureza cruel das escolhas, e muitas delas devem ser feitas em frações de segundos.

Em alguns estados dos USA as pessoas tem opção do porte de arma. Elas podem levá-las à cintura, bem expostas. A eficácia deste recurso pode ser questionada isoladamente, como no caso de Eduardo, mas será que o sujeito notadamente armado será a vítima preferencial de um bandido, num mundo onde as pessoas estivessem em igualdade de condições e pudessem se armar para escolherem ou não arriscar? E se o banido já saísse de casa tendo a consciência que iria enfrentar alguém também armado? Em que estado um marginal iria preferir atuar? Num com ou sem porte de arma? Bandido gosta de facilidade, e por mais que ele tenha vantagem de saída, ninguém gostaria de atacar alguém que pode revidar à altura. Existem também ataques que não visam apenas a obtenção do lucro nem a simples submissão do oponente, como nos ataques no trânsito, e os de cunho sexual, como o estupro, dos quais muitos terminam em morte, em que a diferença de força estrutura física limitam amplamente a defesa, mesmo de uma mulher ou criança bem treinada. Essa é uma discussão válida para a sociedade, e com ela também viria a responsabilidade civil pelas consequências, uma vez que muitas vezes num tiroteio sobra para quem nada tinha a ver com história.

EPÍLOGO

Pessoas realmente conscientes sabem que por mais haja gastos com cursos, treinamento, armas, equipamento de monitoramento, cães, energia dispensada com orações e ações positivas para a busca da tranquilidade espiritual, nada garante a defesa plena dos seus, porque ela simplesmente não existe. Mas aqueles que conduzem sua vida e ações cotidianas com uma real marcialidade conectada com ações de cunho global, preventivo e inteligente são aquelas que menos dependerão de recursos externos e técnicas marciais para enfrentar a crueldade do mundo lá fora, e, principalmente, serão aquelas mais tranquilas para desfrutar de seus momentos de paz proporcionados pelo treinamento de sua força interior.

Quero dedicar este texto a todos aqueles que não se deixam levar pela imbecilidade que toma conta do pensamento do segmento de arte marcial no Brasil, que não são poucos, mas que certamente não são os mais conhecidos.

Dedico principalmente este texto, como os outros de mesmo título, a Eduardo Rafael: um sujeito inigualável; reto, justo, sorridente, amigo preocupado, policial implacável e competente. Este pai amoroso viveu dignamente e, quando foi necessário, enfrentou o inimigo e a morte como um verdadeiro herói. Sempre permanecerá jovem, com aquele sorriso que era sua marca registrada, em nossos corações.













domingo, 29 de dezembro de 2013

SIFU MARCOS SAYS THANK YOU TO READERS ALL OVER THE WORLD






I'd like to say thank you so much to all readers around the world that have accompanied my blog "Blog do SiFu Marcos" so far. These international readers are increasing a lot and then I'm totally surprised. That's fantastic! I have to mark it that half of that all readers belong to the USA these last two months. Considering just last month they are eighty per cent of all visitors.

I have about 2, 500 to 5,000 readers a month. Considering this a technical blog, there are many people interested in authoral information about Wing Chun over the internet. I believe that our work with professional MMA and our confidence that Wing Chun fills that space between striking and takedowns - independently what art we work with - as we are doing here with UFC Hugo "Wolverine" Viana and the former K1 Champion Ewerton Teixeira and opening space to work with another athletes in the future made many people take us seriously as some coaches are just doing. This year (november) we presented our work to Cigano's BJJ coach and Luiz Dorea mentioned our work (in spite of Hugo had lost his last fight he used a typical Wing Chun elbow to break his opponent nose and a great fence work using our art) and many important brazilian trainers met Leonardo Chamusca, my partner in this job.


However, I don't know how many among these readers are also brazilians, portuguese or have another nationality or second language as Spanish or Italian that facilitates the reading once this blog is written in Portuguese, a latin language. As a matter of fact the google translator make it easier than ever. There are many from europe too, specially Germany and Russia. 

It doesn't matter what color has our skin, or what is our language, Wing Chun is a style that depends on our mental work. Reach the roots of that knowledge is just the first step and many of us stop there. Right after that you have to improve constantly, discovering a secret that in fact our style doesn't hide but shows up moment to moment, inviting you to go beyond of it using your personal power. Thank you for your confidence. And sorry for my poor English.

A Happy New Year 
Have a wonderful year ahead
SiFu Marcos Abreu

sexta-feira, 19 de julho de 2013

DEFESA PESSOAL, A FALÁCIA DA PILANTRAGEM MARCIAL - Terceira Parte - I.

"Estou encrencado", penso depois de tomar mais um soco cabeça, naquela confusão de seguranças a me empurrar, socos e chutes vem chegando já meio que sem intervalo entre eles, de todos os lados, tudo começa a girar, mas estes golpes ainda são relativamente fáceis de defender com pequenas esquivas, que faço quase que automaticamente. Meu orgulho está bem ferido, mas eu não tenho um ponto de fuga, de forma que brigar contra um mar de gente está  fora de cogitação neste momento. O problema são as porradas que vem por trás, na covardia, chutes e golpes de bastão retrátil. De fato, eu tenho de decidir rápido se vou brigar ou continuar a me fingir de imbecil até chegar a um lugar em que haja um ponto de fuga. Brigar talvez não ajude, afinal eu estou meio bêbado e, agora, meio grogue com as porradas. O pior de tudo é não ter um ponto de fuga, pois até para brigar contra esse monte de gente e ser surrado com algum resto de brio, é preciso triangular entre os adversários e, depois de um segundos e bater o quanto puder, terei de correr e fugir, e se der sorte isolar alguns deles e bater à vontade de forma a descontar as porradas sofridas. Seja como for, sinto que isso não vai rolar, e sair dessa sem ir direto para o hospital - ou para o cemitério, já seria de bom tamanho.

SiFu Marcos executa Jong Sao a guarda simbólica para conflitos irrestritos (de rua) do Wing Chun Kuen: ações coordenadas por uma sistemática que foca a estratégia na prevenção e considera até mesmo a fuga e o logro como táticas importantes.

O cara baixinho que está comandando o show está bem confiante. A princípio, quanto ele se colocou, ainda dentro do galpão, em minha frente, com um sorriso arrogante no rosto, a única coisa que o salvou de um golpe imediato foi eu não ter divisado bem se o objeto que ele colocou apontando para meu queixo era ou não pontiagudo, o que, ao contrário do que dizem os "especialistas em defesa pessoal" realmente impede o sucesso de um contra-ataque na esmagadora maioria das vezes. Não existe defesa contra objeto perfuro-cortante que garanta eficácia, portanto é melhor não dar chance ao azar. O fato de ele ser aparentemente o chefe da segurança em nada me intimidou, mas fato dele estar confiante demais fez com que eu o superestimasse um pouco talvez. Sei bem que se você bate forte no alfa, todo o resto do grupo enfraquece. Mas agora ele grita para eu abaixar o rosto e não olhar para ele, ameaçando golpear, uma tática militar que funciona bem com armas de fogo. Fico imaginando se ele era policial. À medida que chegamos perto da porta, eu ganho o espaço que eu não tinha, e um provável ponto de fuga. Quando olho para o fundo da turba, mais um grupo de seguranças chega, e penso "putz, tá ficando pior"...

... Foi aí de repente senti os caras recuarem. Eu tinha de sair, e a porta foi aberta. Ganhei espaço para brigar. Comecei a ganhar um pouco mais de confiança ao perceber, tardiamente, que os caras estavam com medo. É, medo. "Vocês realmente precisam de mais de quinze pessoas para botarem um só homem para fora do show, vocês são realmente corajosos!", comecei a dizer olhando direto para o cara. Foi aí que, sem qualquer interferência da consciência, fiz o único movimento de arte marcial até então; levantei meu braço esquerdo por cima de minha cabeça, enquanto girei minha base toda a 45 graus em Chor Mah (para a direção de um brilho súbito vindo da minha lateral esquerda. Um objeto duríssimo explodiu contra o meu antebraço armado em Jam Sao (沉手) tão rápido quanto violentamente, provavelmente uma barra de ferro, e caso eu não fizesse a defesa teria sido atingido no rosto, caído no chão e aí sim teria sido almoçado pelos caras, pois para caras frouxos chutar um adversário rendido é muito mais seguro.

Lucas Forrest aplica Chai Gerk. Lucas é um dos muitos alunos de SiFu Marcos que aplicou a técnica do sistema Wing Chun tradicional para defesa pessoal, nocauteando seus inimigos: técnica tem seus limites na rua, mas está longe de ser ineficaz.


"Não vou sair", eu disse, enquanto muitos deles já retornavam, orientando-me com ameaças não olhar para eles, que fizeram um gesto para voltar meio a contra gosto, uma vez que não compensava nem para eles nem para mim, arriscar. Mas, sentindo o medo deles, havia ganhado confiança, e estava a fim de descontar. Foi então que um cara que mais parecia o vocalista do Judas Priest disse: "Ah, não vai sair não, é? 'Pera' aí..." Ele pegou um objeto envolto num saco de pano vermelho, enfiou a mão por dentro e segurou como se empunhasse um revólver, colocando-o bem defronte meu nariz.

***

Ninguém entendeu depois o orgulho que tive dos meus machucados, patética que tenha sido a situação, mas o fato é que as coisas estão diferentes agora. Tenho duas filhas pequenas precisam de mim, uma delas era recém-nascida na época, e eu nem mesmo entendi o porquê de ter sido alvo daquela violência, ao menos daquela vez, de forma que não posso mais arriscar sequer estar envolvido neste tipo de situação. Passei dois meses sem conseguir defender chutes com o braço esquerdo com suspeita de fissura na região, mas confirmei que tanto a técnica que usei - repetida à exaustão na semana anterior com meu aluno Orlando que treinou boxe e tem braços muito rápidos - quanto outras podem funcionar se treinadas do modo correto.

Pelo menos cinco alunos e alguns SiDai* haviam tido sucesso em brigas de rua simples - Se é que se pode dizer que brigas podem ser simples apenas - com o treino que eu lhes havia ministrado, baseado na repetição contínua de técnicas, dezenas, centenas de vezes, tentando conecta-las numa evolução de conceitos parecidos; Por exemplo, se eu fizesse algum Chi Sao (黐手)** (exercício de reflexo com os braços colados) que estimulasse a cobertura instintiva com um tipo de defesa, essa mesma defesa seria a defesa repetida na técnica de luta. Entretanto combates irrestritos ou de rua são tão sujeitos a variantes diversas - e adversas - que tudo o que pode fazer é estar antenado com o que pode acontecer de ordinário num evento destes, e torcer para que aquele aspecto do treinamento cole com a situação ou, melhor ainda, possa ser adaptado a ela. De fato, todas as cartas deveriam jogadas mais na antecipação, interceptação e frustração do conflito do que no enfrentamento puro e simples. Nenhuma pessoa de bem será atacada em igualdade de condições, de forma que estar no meio de um conflito, ainda que se lhe vença, já denota um erro tático por parte do defensor, que se colocou na situação de desvantagem.


***

Estou na Academia Aliança, num breve intervalo do treino, tentando mostrar ao Hugo "Wolverine" Viana, atleta do UFC o nosso golpe "de encontro" - no jargão boxe, na versão que usamos no Applied Wing Chun. Essa técnica fora usada numa briga por meu aluno Lucas Forest contra um agressor mais alto e descrita pelo porteiro do condomínio dele, um ex "67" promissor da academia do Luiz Dórea, hoje treinador principal do Hugo e treinador de lendas como Acelino Popó Freitas, Minotauro Nogueira, Anderson Silva, Júnior Cigano e outros tantos campeões com o boxe . A diferença do golpe do Wing Chun para o do boxe é rápida troca de pernas que potencializa o golpe, uma que por questões estilísticas ruins de expressar agora, muitos de nós lutamos com uma guarda que deixa braços e pernas mais fortes à frente. Às vezes a necessidade do ringue coincide com a da "rua" e isso me faz pensar nas diferenças e similaridades entre os dois ambientes de combate, mas um evento recente, que ocorreu durante as semanas da feitura deste artigo me deu ferramentas mais ilustrativas para expor meu pensamento.

Hugo "Wolverine" Viana, treinado por Sifu Marcos em Wing Chun aplica cotovelada Pie Jian em combate no UFC: conexões da arte marcial com o ringue seus tem limites. E vice-versa.

Como havia dito na primeira desse ensaio, a falta de um sistema que padronize um conjunto de ações e táticas para combater em um ambiente aberto dificulta mais as coisas. Houve recentemente uma grande repercussão na mídia de um vídeo filmado por câmeras de segurança (vide link abaixo) onde dois rapazes, lutadores profissionais de MMA, são arrasados como simples leigos numa briga de rua por um grupo de rapazes. Muitos profissionais de ensino de lutas discutiram o evento sob o ponto de vista moral; a postura inadmissível dos rapazes etc. Como profissional cujo foco inclui também a "defesa pessoal", este termo canhestro, deixei o julgamento pessoal para o segundo plano e, depois de analisar o conflito do ponto de vista tático e técnico, fiquei imaginando que os vendedores de cursos de defesa pessoal completamente ineficazes estão com um prato cheio nas mãos; se um lutador de MMA se dá mal numa briga de rua, não sabe lutar a luta "mortal" das ruas, tenho eu - o leigo impressionável - de procurar algo mais perigoso, uma arte marcial ou método de defesa e não um esporte de combate que não funciona numa luta sem regras.

Este, entretanto, é um pensamento perigoso se aceito sem ressalvas. Se pessoas que tem um físico preparado e estão frequentemente expostos ao combate profissional falharam, porque um praticante de defesa pessoal com um físico mediano e outras limitações que provavelmente nunca lutará pra valer no ambiente a que se propõe seu curso (e muitas vezes sequer na academia) faria melhor? Muito se falou do ocorrido, mas nada com objetividade que a situação merece. O vídeo também tem servido àqueles que dizem que arte marcial alguma serve para a defesa pessoal, e que a prática serviria apenas à manutenção da saúde e fortalecimento do espírito, valendo mais rezar para um dia não se vir em uma situação para a qual não há solução aparente.


Lutadores profissionais de MMA apanham de grupo: praticantes de cursos de defesa pessoal teriam tido melhor sorte? 

O vídeo todavia nos dá algumas lições. A primeira é que quando se luta no ringue você tem um alvo, e a sua postura, sua distância e seu ritmo são dados por este adversário à frente. Se a sua postura de combate, movimentação e ritmo continuam as mesmas no combate irrestrito, o potencial que os agressores derredor tem para te acertar aumenta vertiginosamente. O mais perigoso dos agressores do vídeo não está entre os rapazes que estão brigando diretamente, mas o rapaz do "deixa disso", um malandro que fica circulando e procurando uma oportunidade de agir. Se, no começo do vídeo, este agressor, de jaqueta vermelha, tivesse uma faca, o rapaz que provocou toda a confusão estaria morto. Por isso, num conflito inevitável, qualquer um que invada seu espaço pessoal deve ser visto como agressor, direto ou indireto, e é alguém igualmente perigoso como os demais. Isso é só um exemplo óbvio da "cancha" que não se ensina nos tatames. Os rapazes do MMA são ironicamente colocados fora de combate com golpes de barrote de madeira simples, lentos e de teoricamente mais fácil defesa que os chutes e socos desferidos de todos os lados.

Brigar com base estável e com domínio de "ringue", algo imperativo no esporte de competição "mano a mano", perde totalmente a eficácia quando é considerado um número elevado de agressores cujos ataques vem de diferentes ângulos e muitas vezes ao mesmo tempo. Nestas situações, qualquer ação ofensiva deve ter a fuga como princípio, meio e fim. A falta de uma discussão técnica em torno do conflito, somada a uma profusão de frases feitas jogadas ao vento para tirar proveito do momento, seja contra ou a favor apenas confirmam o amadorismo dos profissionais que assim procederam. Pelo menos se considerarmos a preocupação com a eficácia dos sistemas de combate, já tão limitados nos dias de hoje devido às armas de fogo e outras variáveis, porque a pilantragem do discurso, do marketing e da proliferação de falsos mestres e métodos de eficácia comprovavelmente duvidosa, mas que prometem justamente o contrário e o viés novo, embora menos perigoso de que a arte marcial não poderia nada fazer para proteger alguém numa situação de perigo, mas que seria uma simples patuscada filosófico-calistênica, estão aí arrebanhando incautos aos milhares.

Continua com a última parte.

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Nota: *Si Dai (mestre-irmão-mais-novo): diz-se do condiscípulo mais jovem do praticante.
**Chi Sao (Braços Grudados): Exercício de pressão mútua e circular dos braços de um par de praticantes num jogo combativo que visa treinar a mente para conduzir a ações simples e automáticas de defesa e ataque de acordo com os princípios técnicos de Wing Chun, sem entretanto que se pense conscientemente nos mesmos.


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Destrinchando o Muk Yam Jong, o boneco de madeira do Wing Chun, em uma análise de caso. Parte II

Pois é, assim como o personagem do game Tekken, Mukujin ( 木人) lit. Pessoa de Madeira, Uma corruptela de seu alter ego, Muk Yan Jong ( 木人...