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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O QUE YIP MAN ME ENSINOU SOBRE A VELOCIDADE

Depois de traduzir metade deste texto novamente, vi que o mesmo arquivo que tinha aqui esta muito mais bem traduzido pelo meu Sidai, Mestre Marcio Silva, de forma que acho que não faria muito melhor que ele, sendo que peço desculpas pela preguiça apenas fazendo a obrigação de creditar o tradutor, já que, como diria Millôr, todo trabalho de tradução é uma coisa autoral.

Próximas postagens colocarei respostas de perguntas que fiz diretamente a Sigung Duncan alguns anos atrás. Há muitas versões deste texto, e se pararmos para analisá-lo friamente, fala-se mesmo sobre geração de energia, tempo e orientação espacial, tendo a velocidade apenas como referência. Institivamente Sigung faz uma análise muito tradicional e taoísta do sistema, que é realmente o cerne estratégico do Wing Chun. Enjoy.



O QUE YIP MAN ME ENSINOU SOBRE A VELOCIDADE
Sifu Duncan Leung


Recentemente um amigo me deu uma cópia da Revista QiGong Kung Fu, edição de março de 1999 que apresentava um artigo escrito pelo Mestre Ron Heimberger. Meu amigo não entendia exatamente os princípios que o Mestre Heinberger estava tentando elucidar. Devido ao meu passado como um aluno particular de Yip Man, e meu subseqüente envolvimento em Kung Fu Wing Chun, ele pensou que eu pudesse lançar alguma luz sobre o assunto. Peço a indulgência do leitor por tentar explicar o que Yip Man me ensinou.

Como meu inglês não é muito bom, li o artigo várias vezes. Estou contente que o Mestre Heinberger dispôs de seu tempo para instruir o público. Se todos os instrutores de Wing Chun possuíssem uma mente aberta como ele, dispostos a raciocinar, e tivessem vontade de se dar ao trabalho de explicar suas idéias e experiências a outros, tenho certeza que isso beneficiaria a todos os interessados na arte. Contudo, há algumas partes no artigo do Mestre Heinberger com as quais eu não concordo. Alguns pontos que o autor expõe que são um tanto obscuros para mim, especialmente suas referências a Jacob Bronowski e Albert Einstein. Por exemplo, o Mestre Heinberger menciona que Bronowski – comentando sobre a segunda Lei de Movimento de Newton - disse que força é igual a massa vezes a aceleração ao quadrado. Isso me confunde porque eu entendo que a segunda lei de Newton não menciona o quadrado da aceleração.

Como o Sr. Heidenberger discute a velocidade em Wing Chun, eu gostaria de tomar a liberdade de compartilhar minha interpretação dos princípios e teorias a respeito da velocidade, baseadas no que Sifu Yip Man me ensinou e em minha experiência própria. Naturalmente o que eu escrevo aqui foi filtrado em minhas percepções e preconceitos; certamente eu não proclamo falar pela família Wing Chun, e apreciaria receber qualquer correção. Isso me ajudaria a melhorar. É minha esperança que muitos membros Wing Chun compartilharão suas idéias com nós todos, independentemente de com quem eles aprenderam. A experiência de usar as técnicas de Wing Chun na luta, é o que importa. Afinal de contas, nenhuma luta é igual a outra. Nós podemos aprender alguma coisa nova – ganhando ou perdendo – descobrir alguma coisa em cada embate.
O que faz o estilo Wing Chun tão interessante é que a gente não precisa recorrer da compleição física, mas numa seqüência lógica de movimentos econômicos. Certamente a velocidade é extremamente importante na luta. Contudo, não importa quão duramente a gente treina, e durante quanto tempo a gente trabalha para melhorar, sempre há limitações. Você sempre vai encontrar alguém mais rápido que você. Algumas pessoas nascem com mais talento. Wing Chun permite à pessoa a possibilidade de superar a inerente superioridade de velocidade do oponente pela aplicação dos princípios da arte. Yip Man ensinou que no Wing Chun há vários tipos de velocidade. Se você não puder superar seu oponente com um tipo de velocidade, você poderá batê-lo com outro. Em outras palavras, se você puder aplicar a teoria da velocidade de Wing Chun você pode realmente se tornar mais rápido. Nesse sentido, há 4 áreas de relação:

1 – VELOCIDADE DE PERCURSO - Este é o tipo de velocidade a que nos referimos como a velocidade de um soco ou um pontapé, velocidade esta que pode ser calculada em pés por segundo. Com prática constante, podemos melhorar a velocidade do movimento.

2 – VELOCIDADE DA DISTÂNCIA – A teoria de linha reta de Wing Chun estabelece que uma linha reta entre dois pontos é a menor distância. Portanto, dando um soco reto é mais curto e mais rápido do que um gancho ou um swing. Para levar seu pé com um chute na cabeça cobre um a distância maior do que um soco mais curto e mais rápido na cabeça. É o mesmo que tentar socar a canela, isto é, é mais curto e mais rápido chutar a canela. Para usar uma analogia: se nós dois ficarmos na frente de um edifício e disputássemos uma corrida até a porta dos fundos do edifício e você correr por fora enquanto eu corro por dentro, da porta de entrada reto para a porta dos fundos, você pode ser melhor corredor que eu, mas eu posso chegar primeiro porque percorri uma distância menor.

3 – VELOCIDADE DE PRONTIDÃO – Partindo de uma posição de repouso em pé, quando nós tentamos dar um soco pesado ou tentamos chutar com força, é típico afastar a perna ou braço antes de executar o movimento. Isto não apenas telegrafa o movimento, mas também desperdiça tempo valioso no movimento extra. Em Wing Chun, a potência não é gerada apenas pelo movimento da mão ou perna, por isso não há necessidade de recuar. Nós usamos o outro lado do corpo para recuar enquanto ele ou ela gira rapidamente para socar ou chutar simultaneamente. Por exemplo, se você vai dar um soco com o punho esquerdo, você deve iniciar a potência jogando o ombro e o cotovelo direitos para trás tão rápido quanto você possa, enquanto soca com a mão esquerda, concomitantemente.

4 – VELOCIDADE DE REAÇÃO - Em geral, as pessoas gastam a maior parte do tempo treinando suas técnicas sozinhos, até que estejam em boa forma em todas as suas técnicas, mas em combate real, a aplicação é ineficaz. Isso é como aprender a andar de bicicleta sentando numa cadeira e movendo as pernas e braços simulando a experiência da bicicleta. Quando essa pessoa realmente tenta andar de bicicleta, certamente vai cair. Isso é porque os adequados reflexos e sentimento de equilíbrio não foram desenvolvidos. Yip Man costumava dizer que se você quer aprender a nadar, entre na água; não apenas movimente seus braços e pernas e pense que você é um nadador. Uma luta requer pelo menos 2 pessoas. Você pode treinar e lutar com você mesmo o dia todo, mas a menos que você aplique as técnicas com outra pessoa, você não irá muito longe.

Wing Chun tem apenas três formas. Depois de aprender e entender a primeira forma, a gente treina com Chi Sau, que precisa de duas pessoas, e da qual a gente desenvolve o sentimento de contato e reflexo. Então há os exercícios de técnicas, que também precisa de duas pessoas. Quanto você trabalha com os exercícios repetidas vezes, meses a fio , eles se tornam um hábito, segunda natureza. Quando acontecer um ataque você reagirá a ele sem pensar. O ataque acontece tão rápido que você pode ficar transtornado, com raiva, despreparado ou até aterrorizado. Não há tempo para pensar.
Essas são as teorias de velocidade de Wing Chun que aprendi com Yip Man.

SiFu Duncan Leung

terça-feira, 2 de novembro de 2010

"Applied" Wing chun - texto de Sibak Josh Shaw

Estou traduzindo um ótimo texto publicado por meu Sibak Josh Shaw em seu blog ainda em construção. Embora seja de uma simplicidade muito óbvia, este texto explica e reflete claramente o que é o "Applied" Wing Chun. Junto a meus irmãos Wing Chun Marcelo Florentino e Claudio Rangel moramos com Josh na China durante nosso treinamento e vimos o quanto Josh é bom em luta, pois consegue aplicar tudo o que treina em combate. Suas técnicas com o cotovelo são desvastadoras, e ele as aplica em luta com uma calma e facilidade incríveis. Como tudo que eu quero publicar aqui seja de gente que vive o mundo real do Wing Chun, espero que os amigos leiam e gostem. Segue abaixo o texto traduzido:

Este site é simplesmente para deixar as pessoas saberem que estou aqui. Meu nome é Josh Shaw eu venho tomando lições de Wing Chun desde Janeiro de 1992 com Sifu Duncan Leung. Eu pedi a sua permissão para iniciar uma escola e continuar a ensinar o nosso estilo de Wing Chun. Sifu Duncan tem me ensinado e a muitos outros do modo que ele aprendeu de Sigung Yip Man e eu estou ensinando do modo que Sifu Duncan tem me ensinado.

Eu não vejo razão para reinventar a roda então a classe está basicamente correndo como sempre esteve quando ele tinha sua escola e eu estou confiante que qualquer um interessado e dedicado pode aprender e ser um lutador eficaz através do entendimento dos princípios e do treinamento dos seus reflexos com outras pessoas.

A razão pela qual Sifu Duncan cunhou a frase Wing Chun “Aplicado” (Applied no texto original) é porque cada técnica que ele ensina foi testada e aplicada por ele. Muitas pessoas praticam artes marciais por diferentes razões. Algumas o fazem por exercícios, algumas o fazem pela arte, algumas ainda o fazem para dizer que praticam uma arte marcial. Muitos dos outros praticantes de Wing Chun ao redor do mundo pode falar sobre teoria o dia inteiro e eu muitas vezes concordo com o que elas estão dizendo. O problema é que muitas destas pessoas não podem traduzir esta teoria em aplicação prática. O caminho do nosso treinamento é aprender como lutar. A maior parte do que fazemos é treinado com duas ou mais pessoas juntas e nós interagimos uns com os outros. Isto cria um senso de timing, reação e pressão quase que desde o começo. Numa luta real não há tempo para considerar que técnica você quer fazer então treinamos de novo e de novo até que o movimento entre em seu sistema nervoso e se torne a sua reação natural. A partir do momento que aplicamos estas técnicas nós somos Wing Chun Aplicado.

Qualquer técnica que eu tenha feito na luta sempre tem funcionado tanto quanto eu a fiz como me fora ensinado. Meu professor é o melhor que eu já vi e eu estou confiante em todas as técnicas que eu ensino como eu posso explicar o que você está tentando realizar e por quê. Comigo, você é o que você pode pegar. Eu não vou recuar ou te dar alguma m... sobre algo que eu não sei. Até agora eu não tive uma questão que eu não pudesse responder a mim mesmo mas quando isso acontecer eu serei honesto sobre isso e é claro que eu sei onde conseguir a resposta quando for a hora.

Venha ser uma parte de algo e experimente a fraternidade em que você ingressa quando se envolve com algo assim. Nós somos uma família Wing Chun e eu encorajo uma família orientada mentalmente na classe e para além do ginásio (incluindo os boxers lá*) Sem drama e sem sentimentos pesados. Você aprenderá o quão rápido puder pegar baseado na sua dedicação e habilidade. Ou você pode assistir de graça uma aula e ver se isso é ou não para você. Eu estou feliz em responder qualquer questão que um observador pode ter, então sinta-se à vontade para vir e observar calmamente ou perguntar alguma coisa se você tiver alguma.

*Sibak Josh ensina Wing Chun em uma academia de Boxe em Norfolk, USA.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

UM MÊS COM O GÊNIO NEGRO DO WING CHUN

Sifu Marcos Abreu conta em entrevista sobre seu treinamento na China em companhia dos Sifu Marcelo Florentino e Cláudio Rangel, sob a orientação do mais testado e menos divulgado dos discípulos de Yip man, Duncan Leung. Lá o parceiro de lutas de Bruce Lee falou do filme sobre seu mestre, e surpreendeu com declarações polêmicas, publicadas com exclusividade pela Fighter Magazine*.

FM: Qual o objetivo da viagem de vocês à China?

SM: Estivemos por mais de um mês em Foshan (a cidade onde o Wing Chun se desenvolveu na segunda metade do séc. XIX), para treinar especificamente a aplicação da luta em combate mano a mano, orientados por Sigung Duncan Leung, Mestre de nosso Sifu Li Hon Ki. Nós contávamos com a ajuda de quatro lutadores profissionais de Muay Thai, um deles sendo o atual campeão mundial em sua categoria de peso, e um três vezes campeão. Era uma dura rotina de seis horas por dia, tivemos muitas dificuldades, mas foi gratificante. Sigung Duncan disse que sairíamos de lá pessoas melhores, mas só no final do período pudemos entender o significado daquilo que nos disse.

FM: Foi uma mistura de Wing Chun com Thai boxe?

SM: Não, definitivamente. Os lutadores de Thai tinham a função de nos ajudar atacando de forma realista, durante o treinamento com equipamento, e fazendo sparring livre. O objetivo era justamente aplicar o Wing Chun tal como ele é contra os ataques mais comuns de uma luta especializada em ringue. Muitas escolas de kung fu estão virando variação de kickbox com quedas, pelo fracasso do jeito tradicional de lutar, e no caso do Wing Chun, a sua característica conceitual leva as pessoas a fundi-lo com tudo, mas isso no geral também é usado como desculpa e esconde os defeitos das escolas. Na nossa escola, o objetivo é mais modesto, e ao mesmo tempo mais nobre, Duncan Leung não quer que sua arte morra com ele, por isso treina os professores não só para combater simplesmente, mas combater aplicando e entendendo como funciona a técnica original do Wing Chun, sem sincretismos.

FM: Qual o resultado dos combates?

SM: Se você entender que os combates não visavam uma comparação entre o estilos em termos de finalidades, posso dizer que foi bem proveitoso. Não podemos nos comparar a lutadores profissionais, inda mais quando se tratam de lutadores top. Era fácil ver a diferença entre os estilos e os pontos fortes de cada um. Continuo com a minha visão que o Wing Chun é para situações mais amplas que envolvem o conceito defesa pessoal, embora estivéssemos lutando como strikers, com luvas de boxe, e o treinamento tivesse uma clara orientação para ringue, e nós mesmos gostemos de ir ás competições. Mas como estávamos lutando contra lutadores realmente diferenciados, apanhamos um bocado, porque tínhamos de tentar de todas as formas aplicar a técnica, estávamos arriscando coisas novas, mas tivemos também nossos momentos, e os mais experientes tinham uma grande facilidade para usar, por exemplo, o cotovelo à curta distância e toda espécie de golpes nas articulações, a própria mecânica da luta favorece isso, mas era preciso cautela, porque não há como treinar isso plenamente, os thai boxers eram nossos parceiros, não inimigos.

FM: Duncan orientava vocês durante os sparring?

SM: Sim, ele é um motivador nato, acredita muito no treinamento e na insistência. Quando íamos mal, Duncan nos dizia: “Tiveram um dia ruim? Hora, relaxem, vocês estão tentando isso contra profissionais. Lutar é um jogo. Na juventude, eu tentava os chain punches e voltava para casa com o nariz sangrando, mas duas semanas depois, era eu quem fazia o outro cara sangrar. Se você não o pega amanhã, pega depois, senão amanhã daqui a mês, senão daqui há um ano. Isso era luta para mim, quando era garoto. Quando conseguirem controlar o medo, saberão que não há limites para vocês. Vão para casa e pensem nisto esta noite.”

FM: Parece um bocado diferente do discurso filosófico e ordeiro do Wing Chun atual.

SM: Para Duncan, só existe dois tipos de Wing Chun; o que funciona, e o que não funciona, ele não liga para origens, discursos, porque ele não vive de arte marcial, ao contrário de auto-intitulados “grão-mestres”, título que o próprio Yip Man nunca usou. Duncan é um empresário de sucesso, e a filosofia do Wing Chun para ele se resume a uma questão: “Você consegue aplicar numa luta de verdade aquilo que treinou na academia?” Esta foi a preocupação chave dele desde que começou com Yip Man, ainda criança. Ele lutou centenas de vezes, não apenas em torneios, mas naquelas lutas de vida ou morte, em diferentes situações de combate armado ou com mais de um oponente, por duas décadas, parando por volta dos trinta anos, como uma espécie de Musashi moderno, e ouvimos muitas histórias de seus alunos sobre suas lutas. Ele é um sobrevivente, sua importância no Wing Chun é definitiva, Yip Man já dizia isso pouco antes de morrer, e ainda assim ele acessível e humilde, apesar da personalidade forte. Na hora do almoço, por exemplo, todos vinham esgotados do treinamento e enchiam seus pratos, e sobrava pouca coisa na mesa, claro. Então Duncan se levantava calmamente, depois de todos terem comido e estarem satisfeitos, e ia lá e fazia seu prato. Aquilo me marcou muito. Filosofia não é conversa sobre yin, yang ou monges de duzentos anos atrás, é atitude, postura. A filosofia do wing chun é eminentemente prática.

FM: Mas existem diferenças técnicas visíveis entre todas as escolas que vieram de Yip Man, e todos dizem que funciona, e que seu jeito é o correto. Qual a razão disto ocorrer?

SM: Nós perguntamos a mesma coisa a ele, essa é uma pergunta muito recorrente no wing chun, todos tem sua teoria, mas a resposta dele foi muito simples, muito categórica, e falou com aquele vozeirão que ele tem, entre baforadas de cigarro: “Vocês querem saber a verdade? A verdade é que Yip Man não se importava”. Muita gente fala muita coisa, que Yip Man teria guardado o segredo somente para alguns, ou que a luta varia de acordo com a interpretação, mas a realidade é que ele não estava nem aí, e isso é tudo. “Se alguém tinha uma dúvida, Yip Man dizia: vá para casa, pense, e amanhã me traga a resposta. No dia seguinte, o cara vinha, mostrava o movimento e ele dizia: - Ora, você é um gênio, é o melhor!” Mas na verdade, estava pouco se lixando, então cada um faz do jeito que acha que é certo, mas Yip Man não ensinou sua arte em profundidade a essas pessoas e são justamente essas mesmas pessoas que difundem o estilo pelo mundo afora. Se alguém vinha e dizia que queria lutar, ele dizia: “Ok. Faça Chi Sao, faça forma...” mas Duncan explicou-nos que essas coisas sozinhas não ensinam ninguém a lutar. Yip Man via muitos de seus alunos com poucos meses de treino abrindo escolas muito perto da dele, e isso o deixava muito triste. Quando chegou a Hong Kong fugido da China comunista, dormia na frente de um templo, na sarjeta...Ele tinha sido um aristocrata, não sabia fazer nada além de arte marcial. Até que Leung Sheung, que seria seu primeiro aluno em Hong Kong, ajudou levando-o ao sindicato dos restaurantes, onde passou a dar aulas, por 8 ou 12 Hk dólares...por mês!

“Yip Man era um junkee, viciado em ópio”, ele continuou. Era algo comum naqueles tempos, um costume ligado a uma época que estava morrendo na China. Ele não tinha condições de manter esse vício, porque era muito caro. E ele sofria mais ainda com sua mulher, que tinha o vício em total descontrole. “Quem podia suportar isso?”

FM: Então a história não é tão bonita quanto se conta...

SM:Não. Duncan demonstrou uma maturidade incomum para a sua idade quando foi até Yip Man pedir para abandonar o treinamento, pois achava que o Wing Chun não prestava para combate, já que nas lutas contra outros estilos, nunca via ninguém ganhar de forma realmente convincente. “Ora, tenha paciência, em poucos anos ficará bom, porque tem talento”. Então Duncan disse: “Muitos dos meus irmãos mais velhos já estão aqui há alguns anos e não são bons”. Yip estava muito surpreso. Ele perguntou então ao garoto de treze anos.“Você tem 300 dolares aí?” Duncan não pestanejou e disse que sim, e o velho mestre passou a pacientemente lhe ensinar, Duncan por sua vez ia testando seus novos conhecimentos nas ruas, e eles se tornaram grandes amigos, Duncan o tratava como um pai, e ele tornou-se seu primeiro discípulo de “portas fechadas”, após passar por todas as fases rituais do Bai Si, a cerimônia tradicional de discipulado. Muita gente passa a imagem de que Yip Man era um velhinho sábio, infalível e sem problemas, e fazem isso porque querem manter as aparências, mas Duncan não precisa disso, ele não tem papas na língua. Ele nos passou a imagem de alguém mais humano. Yip Man jamais ensinaria como aplicar a arte plenamente em combate se não fosse pago suficientemente, e se a pessoa sobretudo não valorizasse demais aquilo que aprendia. Mas quero ressaltar que não era uma questão apenas de dinheiro, tanto é que ele escolheu pelo menos um discípulo a quem ensinou todo o “applied” wing chun de graça.

FM:Quem?

SM:Seu nome é Alan Lee. Yip Man sempre o via varrendo o chão da academia de um de seus alunos (Lok Yiu, morto em 2006), e aquilo o impressionou. Entretanto, como Yip Man àquela altura já estava muito velho, ele não tinha força física para mostrar como aplicar as técnicas para combate, então ele fez uma lista com cinco de seus principais discípulos que eram jovens o suficiente para ensinar. Duncan estava no topo da lista. Ele então foi procura-lo, e o resto é história. Ele estava lá e nos treinou também.

FM:Então esta história que a idade não faz diferença no wing chun...

SM:A força faz diferença. “Vocês já ouviram que Yip Man dizia que não era preciso força para lutar Wing Chun? Essa idéia é estranha para vocês?” Não, nós respondemos, muita gente fala isso. “Mas Yip Man não disse isso, o que ele disse é que você não tem de se opor à força, o que é muito diferente” Força é algo fundamental no Wing Chun. E então Duncan nos explicou de modo muito simples toda a teoria de combate do sistema. Isso nos deixou a todos muito honrados, e ficou muito evidente o prestígio que nosso Sifu Li Hon Ki tem com Duncan.

FM: E o filme sobre a vida de Yip Man, lançado com Donnie Yen no papel principal, o que Duncan achou dele?

SM: Já saiu o segundo mas do primeiro ele disse, “Bullshit” (risos). E quando insistimos, ele repetiu, muito calmo, enquanto nos interrompia: Bullshit. Curiosamente, dias depois, durante o nosso treinamento, vimos um homem com um jeito meio Bruce Lee e mostrava ao Alan Lee seus movimentos de Wing Chun. Alan apenas mandava que ele tentasse aplicar aquilo, para logo depois rir bastante, porque obviamente não funcionava, e ensinava o mesmíssimo movimento, só que feito do jeito correto. Depois soubemos que o sujeito era coreógrafo da continuação do filme de Yip Man, que estava lá a convite do Darren Leung, filho de Duncan e que na época trabalhava na continuação do filme. Filmes servem para divulgar e como um saudável entretenimento, mas aquilo que se vê nos filmes não serve para a luta de verdade. Eu particularmente acho ridícula uma cena em que Donnie fica fazendo um milhão de socos num carateca já caído no chão. Para que socar daquele jeito se o cara está no chão? Isso expõe o grau de alienação técnica que há no público regular de wing chun. Mas como entretenimento é bacana...

FM: E daqui para frente, quais os planos de vocês?

SM: Continuar melhorando o nível técnico do Wing Chun no Brasil. É o nosso desejo, e foi nisso que estava pensando quando aceitei o convite de meus irmãos mais velhos no kung fu para ajudar a fundar, com autorização do nosso mestre, a Applied Wing Chun Brazil, que foi idealizada com um estatuto moderno pelo Marcelo Florentino, um dos primeiros praticantes de brasileiros, um cara muito experiente, muito técnico e que tem uma grande escola em São Paulo. Este estatuto tem uma preocupação com a ética que é inédita. O Cláudio Rangel, atual presidente da nossa associação, coordena nossas ações e é um estrategista, além de ensinar privativamente também. Adorei conhece-los pessoalmente na China, e eles me ajudaram muito em tudo, tanto com o idioma inglês que ainda não domino plenamente, com os problemas de viver num país estranho, aprendi com eles, eles compreendem muito o mundo do Wing Chun e têm de mim todo o respeito e admiração. Há também o Alberto França, que foi meu primeiro professor, me apresentou Li Hon Ki e o convenceu a me ensinar, doze anos atrás. França desbravou o Wing Chun no nordeste literalmente na pancada. Eles são humildes, respeitam verdadeiramente Sifu Li Hon Ki. Eu procuro ajudar no que posso, porque meu foco ainda é treinar e melhorar meu jogo, mas você não treina em alto nível no Brasil se não cria condições para isso. Acho que Sifu Li Hon Ki está feliz conosco, de termos nos unido, porque ele nunca gostou de divisão dentro da família. Ainda assim, eu tenho uma boa relação de amizade e respeito com a maioria dos meus outros irmãos que preferem não trabalhar conosco.

^FM:O Wing Chun que Li Hon Ki ensina é voltado para competição?

SM:Isto é um ponto importante. Li Hon Ki nos ensinou da maneira tradicional. Vamos para a competição porque o perfil do nosso wing chun provoca isso, porque as pessoas querem lutar para se testar, mesmo sabendo que a competição não é o ambiente ideal para o Wing Chun, como não é para lutas de perfil e objetivos parecidos, como o Krav Maga, por exemplo. Há anos os principais alunos de Li Hon Ki no Brasil foram ás competições de kung fu, e mesmo nosso mestre não tendo tempo para nos ajudar mais diretamente, pois ele não trabalha diretamente com o Wing Chun, ganhamos muitos títulos contra nossos irmãos de outros estilos de kung fu. Perdemos também, mas todos os que lutaram têm pelo menos um título. Mas hoje está mais difícil, porque as escolas evoluíram e fazem luta de competição de alto nível, abandonando o jeito tradicional de lutar e adotando técnica de ringue de lutas consagradas como boxe e thai. No Wing Chun isso não é possível, pois os objetivos da arte exigem estruturalmente um repertório técnico/biomecânico muito peculiar.

FM:Pode explicar melhor?

SM:O soco é diferente, o padrão defensivo também, porque tem grande influência da luta de facas duplas. O ambiente de luta do Wing Chun pressupõe uma desvantagem do praticante, seja de força, seja de número ou de meios, ele é funcional porque segue um método que pode fazer você recombinar padrões defensivos complexos com facilidade, que servem tanto para socos e chutes quanto para armas, e no contraponto os contra ataques são muito simples e fáceis de executar. Amplitude de possibilidade de ação é o ponto forte da luta, mas também é a sua maior limitação para o aspecto de competição com lutas mais especializadas. Como manter nossa arte viva e em sincronia com a evolução no jeito de ver as artes marciais com a popularização do MMA, por exemplo? As pessoas têm respondido essa pergunta abandonando a aplicação da técnica tradicional, mas para nós essa não é resposta.

FM: O que você acha da atual situação do Wing Chun no Brasil?

SM: A realidade do Wing Chun hoje em dia é a venda de certificados ou adoção de franquias internacionais por professores antes charlatões, que batem foto com mestre famoso que vem ao Brasil ganhar 20 mil reais num final de semana, para depois sairem abrindo escolas por todo o país, mas não tem experiência com Wing Chun de verdade ou qualquer experiência de luta, seja na rua, seja no ringue. Como você vai ensinar alguém a luta se você mesmo não sabe? Como vai ensinar a defender se nunca teve de se defender? Isso vai acabar criando outra geração de alienados marciais, “esquizotéricos”, para usar uma expressão do meu amigo José Augusto Maciel Torres. Sou totalmente contra essa idéia de filme que o cara entra em contato com um mestre e de uma hora para outra se torna indestrutível. Isso é ilusão! O que existe é um trabalho duro, de anos, para você transportar o âmago de uma arte marcial para um outro país, uma outra cultura. No meu caso e de meus irmãos wing chun, somos os primeiros ocidentais na linha de sucessão. Quem não admite que há um choque cultural estará mentindo. Muita gente também procura nosso Sifu para treinar e não acha importante trocar idéias e experiências conosco, que somos mais velhos já passamos por todo este processo antes. Eles não têm idéia do quanto uma atitude destas custa em termos de tempo para compreender a arte, o quanto elas atrasam a vida de seus próprios alunos apenas para supor uma exclusividade, um nome ou uma marca. As pessoas querem fazer oba-oba em torno do nome do mestre e ganhar dinheiro, não querem aprender seriamente. Esta é a realidade do Wing Chun, todo mundo sabe disto, mas ninguém fala. Pergunte a noventa e nove por cento do mestre como foi sua formação e ouvirá uma história mal contada. Mas todos eles tem um diploma comprado no exterior.

FM: É essa a visão que você passa no livro Kung Fu Wing Chun?

SM: Uma visão mais realista? Sim, é isso. É preciso frisar que essa é uma obra que está sendo vendida nas bancas, especialmente para o público leigo, e tem uma linguagem mais acessível, simples, do que teria uma obra mais densa, mas eu particularmente queria romper com a visão de estilo da porrada maluca, que acaba com tudo e com todos em segundos, porque além de não ter nada a ver com a luta em si, é uma propaganda muito canalha, desonesta, mesmo, não condiz com a real técnica, mas ainda é vigente no mundo inteiro, e nos fez de piada no mundo das artes marciais, a realidade é essa.

FG: Dizem que o wing chun é para a luta real, onde não haveria regras etc.

SM:Este raciocínio não é de todo incorreto, mas o que é luta real pra você, uma luta sem regras? Você acha que um lutador profissional não saberia jogar sujo se quisesse? Apesar de potencialmente mais perigosa, este tipo de luta em geral te dá no máximo um olho roxo. Uma luta de vale tudo não parece real para quem está lutando? Eu prefiro usar a expressão combate em ambiente “não-controlado” ou “irrestrito” porque envolve todo tipo de situação de combate.

As pessoas falam: “O Wing Chun é pra rua”, em geral para justificar o fato de não ser muito adaptável para lutas profissionais. Mas eles não sabem o PORQUÊ do wing chun ser mais voltado para este tipo de confronto, não sabem explicar isso analisando os golpes, a estratégia. Foi isso que tentei fazer, relacionando teoria e prática. Toda arte marcial traz uma resposta pronta para determinado problema na luta, não é tudo o que se pode fazer numa luta. Este é o ponto chave, que os alienados do Wing Chun não entendem. Você não vê as pessoas criticarem o Aikido, por exemplo, por não estar no MMA, e isso acontece porque eles não tentam ser aquilo que não são, ao contrário dos mestres de Wing Chun que dizem que matam qualquer um em três segundos, mas é só papo furado.

Todo bom policial que conheci gostaria de conhecer o Aikidô para poder fazer seu trabalho melhor e dominando fisicamente sem machucar os suspeitos e sofrer punições por isso. Continuando o mesmo raciocínio, você não vê lutadores de se boxe se embolando no chão num ginásio. Mas ninguém pensa em entrar numa competição de MMA sem saber boxear, entende o que eu digo?. Eles tentam ser fortes naquilo que são bons, porque tem técnica para isso. No Wing Chun, os caras sequer fazem luta dentro da academia, e querem dizer que vão matar um profissional de luta chutando seu saco, enfiando o dedo no olho??!! É ridículo, óbvio! Infelizmente o Wing Chun ainda é a arte que atrai a maior quantidade de malucos por metro quadrado. Mas podemos mudar isso.

FM: O livro alcançou seus objetivos?

SM:Queria que os leigos sentissem que esta arte pode servir para quem não tem grande dotes físicos, pessoas comuns, esta é a idéia da luta, que não é preciso ser muito talentoso para ter sucesso na arte marcial, e tentei dizer isso com menos discurso e mais técnica, mostrando como funciona. O livro é um sucesso nos países onde foi lançado, mas é o wing chun que está de parabéns, porque é uma obra muito honesta, e é o que mais está faltando no wing chun hoje, honestidade na proposta, e no modo de divulga-la, e isso acaba beneficiando a todas as pessoas sérias que trabalham por nossa arte.

*a matéria estava no prelo antes da extinção do título veiculado nas bancas.

Entrevista Duncan Leung

DESARQUIVANDO DUNCAN LEUNG

O CONTRADITÓRIO “GÊNIO NEGRO” DO WING CHUM FALA SOBRE YIP MAN, BRUCE LEE E O QUE HÁ DE ERRADO COM SUA ARTE.

“Eu me lembro muito bem das duas primeiras vezes que briguei com alguém armado de faca. Ao invés de fugir como antes, eu lhe mostrei uma faca”.

“Eu pude sentir meu corpo inteiro congelar. Meus braços e pernas de repente se sentiram tão fracos que se meu oponente se contraísse, meu coração tentaria pular fora do peito”.

“Eu fico pensando: ‘Será que a lâmina é muito amolada?’... ‘Como seria se eu me cortasse? Minha boca estava bem seca. Eu pude ver que os olhos dele também estavam cheios de medo...’”.

Tirado da introdução do Manual de Luta com Faca de Duncan Leung de acesso apenas a soldados e policiais.

Duncan está sério. Ele não sorri, ele não está brincando.

Hoje em dia ele é um esbelto fumante de 52 anos, de pouco cabelo e bigodes grisalhos. Não é velho, não é novo, mesmo assim ainda está comandando.

Parte disso deve-se a sua voz profunda – parece a de Yul Brynner – e outra parte do seu olhar.

Quando ele te olha, você sente que Sifu Leung está tomando suas medidas... Contra gigantes.

FLASHBACK – Hong Kong, 1956, Duncan Sil Hung Leung, aos 15 anos, está lá fora correndo na sacada.

Bruce Lee aparece e grita: “Tenho algo novo para te mostrar”.

Duncan gosta de Bruce. Sua prima, que é atriz de filmes, os apresentou. Esses dois caras têm um interesse em comum: vencer brigas de rua.

Então os dois se juntam na sacada para testar a novidade. Duncan não está muito preocupado; está acostumado com as coisas de Bruce. Eles começam a fazer sparring.

Quarto de respiração

Duncan Leung conta a história com seu vozeirão, 40 anos mais tarde.

“Depois de um tempo eu disse, ‘Ainda não tem espaço suficiente’.

Aí fomos para a colina. Espaço não faltava lá, mas...

‘Onde você aprendeu isso?’ Perguntei pra ele – a técnica era “caça punhos”. Ele me disse que tinha um professor novo e que ele gostaria que eu conhecesse.

O nome do Sifu era Yip Man”.

Uma pausa cheia de respeito e curiosidade interrompe a conversa.

Que privilégio ter sido ensinado pelo pai do Wing Chun moderno! Lembra como Sifu Man foi retratado em Dragon? Como um velho Santo de olhos brilhantes, como Ghandi no corpo de George Burns interpretando Deus.

Hoje Duncan é diretor de administração de uma companhia de importação – exportação com escritórios em Virgínia Beach e Hong Kong. Previamente ele desfrutou de sucesso em caças diversas como a filmes de Hong Kong (onde ele produziu 24 longas-metragens) a armas de fogo (de uma só vez ele foi o décimo quinto maior importador dos EUA). E quando ele viajava internacionalmente para ensinar Wing Chun era o mais bem pago do circuito.

O amigo de Bruce Lee ainda é o mais intensamente provado e menos publicado de outros grandes no renascimento de meio século das artes marciais de Hong Kong. Lidar com ele talvez leve a vê-lo como um anti – Bruce: ‘gênio negro’ do renascimento dourado do Wing Chum.

REVOLUCIONÁRIO

Duncan Leung não é um gênio somente por ter trocado golpes com lendas. Ou porque desde a sua adolescência ele nunca perdeu uma briga (e briga de rua é sua maior paixão – “diariamente. Durante anos. É divertido”). No entanto, Duncan fez o que os gênios fazem – revolucionou.

Duncan Leung alterou radicalmente a natureza da defesa pessoal por toda uma geração de praticantes, nos bastidores, como Bruce Lee fez publicamente. Como? Durante vinte anos ele ajudou a redefinir combates para mulheres e homens americanos de uniforme, aqueles parecidíssimos com a luta mortal: nossas forças armadas e autoridades legais.

Mais do que apenas um artista marcial profissional, Leung é um profissional de profissionais. Ele não treina alunos, mas os instrutores, que são mais difíceis de impressionar.

Duncan já foi tutor das tropas de choque mais fortes do planeta, Navy SEALS. Atrás de sua carteira tem placas do Team Two e do Team Four: “Pelas lições bem ensinadas”. Ter treinado SEALS é um certificado de conhecimento avançado – já que pode impressionar SEALS...

Vamos ouvir David K. Paaina, instrutor chefe Hand to Hand do SEAL Team Two:

“Suas maneiras afáveis, a intensidade com a qual ele ensina e a maneira com a qual ele conduz os negócios me levam apenas a concluir uma coisa; que ele é o melhor profissional que eu já vi.

Qualquer que sejam seus esforços, eu apoio Duncan de todo.

De mim e de meus colegas de time partem agradecimentos e gratidão de coração”.

Da Marinha, do Exército, do FBI, da Polícia da Virgínia, Duncan Leung tem mais cartas de tributo do que ele pode emoldurar, tem mais placas do que paredes para colocá-las. Só tem um pequeno espaço para o Colt 45, gravado, presenteado pelo FBI.

VINDO DAS SOMBRAS

Aqui está um homem extraordinário, aparentemente no auge dos seus poderes. Ainda que recentemente isso tenha ido adiante, fora das suas da sacola preta de operações e informações classificadas para dar consultoria, Duncan Leung diz que sua missão está cumprida: “estou cansado e de saco cheio de qualquer arte marcial”.

Duncan olha para baixo para jogar o cigarro fora. É difícil não dar uma olhada na sua cicatriz de novo. Parte de sua ‘geniosidade negra’ deve-se às suas cicatrizes.

FLASHBACK – Cantão, China, 1942. Duncan nasceu numa família de boas condições. Seu pai era dono de jornais. Vários anos mais tarde eles se mudaram para Macao, quando aconteceu uma tragédia: Duncan testemunhou o assassinato do próprio pai. Está é a cicatriz interna.

Aos sete anos, um trabalho dentário fica infeccionado e leva à cirurgia que, infelizmente, também é mal feita. Resultado: sua mandíbula carrega uma cicatriz profunda, na frente de sua orelha direita. Está é a cicatriz externa.

Então o destino entra em cena, como não poderia deixar de ser: os médicos sugerem artes marciais como terapia pós-operatória. Foi assim, portanto, que tudo começou, para trazer sua cura.

“No começo eu não queria aprender a lutar. Mas depois que eu aprendi artes marciais, fiquei interessado em - eu era um menino mau, de qualquer forma – em machucar pessoas. Eu pensei: ‘É um jogo, é bom, é divertido.’. E comecei a gostar da idéia”.

“Aí você iria lutar com Bruce”.

“Não tanto quanto os jornais dizem... Bruce Lee era bom. Ele era bom quando treinávamos junto com Old Man, e mais tarde (quando voltou de Hong Kong) era melhor ainda. Significava muito para mim o fato do Bruce Lee ter mantido contato comigo”.

ANOS DE EXPERIÊNCIA

A entrevista de Duncan se passou no espaço da escola de Wing Chun, que ele divide em noites alternadas com seu amigo Sifu Hoy Lee, o sênior americano de Jow Ga.

“Por que você está concedendo uma entrevista de artes marciais depois de tantos anos?”.

“Não é para me promover” Não estou mais ensinando. Mas... Eu me sinto na posição de contar minha experiência para as pessoas pelo inferno que passei adquirindo-a.

Sim, eu quero que as pessoas entendam – O que é arte marcial? A arte é – Eu posso te bater, mas você não me bate. E eu quero que saibam – qual a melhor arte marcial? É aquela que te traz confiança, que te convence e que combina com você. Quem é melhor professor? Não é o quanto o professor é bom, mas sim o quanto ele te faz bom.

Por último, o que é Wing Chun? Você domina o seu oponente não pela força ou pela velocidade, mas encurtando sua distância, quebrando seu ritmo – e avançando. Porque eu quero fazer com que você venha a mim.

E só há uma maneira de descobrir o que é útil ou não, se você aprendeu alguma coisa ou não. Tente. Justamente como Old Man nos ensinou: ‘ Quer saber o quanto você é bom? Arrisque, procure briga’. E se você foi bem treinado você não vê, você não enxerga. Apenas reage.”

E quanto mais ele fala de Yip Man, mais óbvio fica que Duncan o venera. Old Man odiava estrangeiros. “Ele cobrou $8, 00. Comecei a treinar com Bruce. Mas continuei observando o que os alunos mais velhos estavam fazendo. Depois fui até Old Man e disse: ‘Isso é tudo?’ É que eu não estava muito impressionado. ‘O que você espera por $8,00?’, ele me perguntou: tem $300 aí?”.

“DEFENDENDO A TIGELA DE ARROZ”

Duncan explica que se Sifu Man tivesse que expor os principais ensinamentos do Wing Chun para os alunos menos informais, em breve ele os veria abrindo escolas concorrentes na mesma rua. Old Man estava apenas “defendendo sua tigela de arroz”.

Então Duncan fez que sua mãe pagasse, durante anos, por aulas particulares. O resto é história. Ele seguiu adiante para se tornar um dos dois ou três melhores lutadores de Wing Chun de sua geração, nivelando-se a Willian Cheung, quem ele conhece e admira.

“E quanto à herança de Yip Man?”.

“O Old Man criou dois problemas... Hoje em dia você vê o Wing Chun, todos pensam que estão fazendo a coisa certa, no entanto 99% das escolas que você for, ensinam de jeitos diferentes. Por quê? Todas vêm de Old Man”.

“Bem, dizem que ele modificaria os ensinamentos de acordo com...”.

“Não. Wing Chun é muito abstrato. Ou você entende ou você não entende. Se não entender, pergunte assim, ‘Sifu, está certo assim, não é?’

Ele sempre disse; ‘sim, você é um gênio, você é o melhor’. Então, o que você pode pensar? ‘Ora, estou fazendo direito, ele (seu colega) está fazendo errado’. E é por isso que – mesmo estilo, ensinando do mesmo jeito – todos fazem diferente.

O segundo problema, ele não te ensinaria nada se não fosse pago suficientemente”.

“Qual foi a lição mais importante que ele te ensinou?”.

“Old Man disse: ‘não acredite em mim. Descubra por você mesmo se funciona ou não. Daí você sabe se fez certo ou errado; daí você tira se o que eu te ensinei é bom ou ruim’”.

“Ele te ensinou a procurar briga?”.

“Nos levou a elas, para falar a verdade”.

“Você não pode fazer isso com os alunos hoje em dia, ou pode?”.

“Não. Old Man disse também: ‘Quer fazer o melhor nas artes marciais? Você tem que: ser jovem quando quiser aprender. E tem que ser impulsivo. Jovem e impulsivo. E tem que ter tripas, ser capaz de suportar alguma dor. Tem que ser rico, para poder me pagar. E acima de tudo, não ter hábitos’”.

“Não ter maus hábitos”.

“Não, nada a ver com fumo ou bebida. Não ter hábitos – problemas familiares, garotas, seus problemas de infância, os problemas de seus pais”.

No mesmo ano em que Bruce Lee deixou Hong Kong, para ir para os EUA, Duncan se mudou para a Austrália. Eventualmente, ele se viu muito envolvido com importação-exportação DOW UNDER, o que significou bastantes viagens.

CONCLUINDO

Em 1970, durante uma viagem de negócios a Nova Iorque, Duncan recebeu uma oferta de trabalho que consistia em dar aulas particulares. Como houve divulgação boca a boca, e com isso Duncan se encheu de clientes, ele abriu sua primeira escola americana na 2 Greet Jones Street Chinatown, Nova Iorque. A América descobriu Duncan Leung.

Houve várias jogadas rancorosas associadas com seu pioneirismo em ensinar em escolas de livre acesso, nesses dias sempre houve sifus que se sentiriam chamados pela honra para desafiá-lo por ensinar “segredos” chineses a “estrangeiros diabólicos”.

No Koon (academia) da rua Great Jones, uma “disputa com o portão fechado”, passou a significar que os oponentes de Duncan não conseguiam sair antes de serem jogados pra fora.

“Como você espera que eu te demonstre o Wing Chun? O único caminho é: ‘Okay,Teste-me’”.

Um dos professores que testaram Duncan foi Ron Van Clief, visto recentemente lutando contra Royce Gracie no Ultimate Fighting Championship IV. Na tradição de seus estilos, Duncan e o Dragão Negro tornaram-se amigos. Eles ainda fizeram um poucos de show business e história das artes marciais juntos através da co-produção do primeiro kung fu na Broadway, uma revisão de astros chamada “Kung Fu - Uma mística excursão no mundo da defesa pessoal oriental”

“Todos estão fazendo Chi Sao demais” ele diz sobre o Wing Chun de hoje. Por quê? “Eles não tem ensinado para você nada além de Chi Sao. Wing Chun é famoso por causa do Chi Sao. Sim, isso é coisa mais importante – para um iniciante”.

“Mas quem luta com Chi Sao? Como se não há contato? Seu oponente não tem de estar em contato para lançar um chute ou um soco em você. Chi Sao é importante para aprender sensibilidade, mas o mais importante é aprender a se cobrir”.

“Veja, nós não bloqueamos. Nós cobrimos. Bloquear nunca funciona. Bloqueando, você tem de ver o que acontece, então você se protege. Cobrir é: antes de acontecer, você se cobre. Então eu sempre estou um passo à frente de você”.

“Na maioria dos estilos, eles batem uns nos outros. No Wing Chun, eu estou cobrindo e batendo ao mesmo tempo. Nós fazemos tudo simultaneamente. Resultado: Eu sou duas vezes mais rápido, e eu não sou atingido”. Pausa.

Nós interceptamos (chutes) usando chutes baixos de parar chutes. Você não pode me alcançar, eu vou parar a sua perna primeiro Se eu estou chutando suas pernas, eu tenho melhor alcance do que você, e é mais rápido (chutando baixo, em vez de chutar acima da cintura).”

“E há prática solo (sem parceiro) demais. Wing Chun precisa ser pré-definido através de repetição, dois a dois, não sozinho. E quando eles fizerem sparring, eles não devem ficar se espancando. Isso é estúpido. Aprenda como não ser atingido.”

Já passa da meia noite quando Duncan finaliza seu interrogatório. O próprio entrevistador está preto e azul de algumas das vigorosas “explanações”. Boas-noites são ditas, ele aperta as mãos com firmeza. Ele é pequeno e blasé, e ainda depois de alguma emoção ríspida, o que Duncan Leung inspira em outro homem, além de respeito é...Lealdade.

Na manhã seguinte seu amigo Hoy Lee tenta colocar uma boa expressão na conversa sobre a aposentadoria de Duncan. “Talvez ele irá apenas dar um tempo por ora...” Ele comenta, “você conhece artes marciais. Épocas boas, algumas ruins, mas isto está sempre em seu sangue.”

Bem que Bruce poderia parar mostrar a Duncan um novo movimento, você não acha?

Por Herb Borkland, que é um freqüente colaborador da revista “Inside Kung Fu”. A última vez que escreveu foi sobre o Sifu de Maryland, Hoy Lee, na matéria de agosto de 1995

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