sexta-feira, 22 de março de 2013

Campeão do K1 treina com SiFu Marcos

Começou ontem na Academia Aliança, no bairro da Pituba em Salvador o trabalho de Wing Chun voltado para o MMA com o três vezes campeão de Luta de Contato Kyokushin Oyama e do K1 World GP Ewerton Teixeira, de 31 anos. Em parceria com o preparador físico Leonardo Chamusca, o trabalho visa a preparação do atleta para uma melhor adaptação ao ambiente de lutas mistas. Esta parceria mostra o respeito que SiFu Marcos vem tendo no mundo da luta, fruto de um trabalho que visa a recuperação da imagem do Wing Chun entre os artistas marciais sérios. "É um trabalho muito sério o do Marcos, importante para todo o Wing Chun" observa Mestre Li Hon Ki, que trouxe a luta para o Brasil 34 anos atrás e que treinou Marcos privativamente por 8 anos, tornando-o a Nona geração deste sistema de combate que está mais voltado para a luta irrestrita, ou seja, aquela que ocorre fora do ambiente de competição, não tem regras e é potencialmente letal. "Quando vi na China alguns dos mais técnicos lutadores de Wing Chun do mundo atuar contra campeões mundiais de Muay Thai, logo notei que o melhor ambiente em que podemos atuar em combates esportivos é o MMA, ao invés das competições mais boxeadas, pela maior proximidade técnica com a luta de contato total. "Quando menos regras e mais intenso o combate, melhor tecnicamente para o Wing Chun", Assevera SiFu Marcos, que no entanto vem tendo dificuldades de adaptar o Wing Chun por conta das regras do UFC, competição em que atua com o lutador Hugo "Wolverine" Viana, que está indo para sua terceira luta na competição. O Wing Chun foi decisivo na primeira luta do atleta no TUF Brasil. 

segunda-feira, 18 de março de 2013

POR QUE O WING CHUN NÃO TEM RESULTADOS EXPRESSIVOS NO RINGUE?

PRÓLOGO

Durante estes últimos anos como escritor, o ponto central da minha carreira tem sido explicar ao público brasileiro qual a proposta real do Wing Chun dentro do mundo das artes marciais, em particular do ponto de vista técnico. No Brasil e no resto do mundo, tendo como  ponto de partida a carreira meteórica de Bruce Lee no cinema, há mais ou menos quarenta anos que o Wing Chun vem sendo vendido por seus mestres e professores como o "melhor estilo" de arte marcial. Entretanto, no começo dos anos 90, a ascensão da família Gracie em escala mundial com os torneios de MMA, e as derrotas humilhantes que alguns lutadores de Wing Chun sofreram nestas competições fizeram rapidamente com que os poucos profissionais que realmente ganham dinheiro empresarialmente com a arte tivessem de encontrar outros caminhos para divulgar seu produto. Assim sendo, o Wing Chun passou a ser vendido com a alcunha de arte marcial "realista", que apesar de não ter grandes resultados expressados no ringue, seja de MMA ou torneios de contato total, teria totais condições de defender seu praticante numa briga de rua, onde não há regras ou limites de tempo, modo de lutar etc.



   



   

Colocado de outra forma, podemos dizer que ficou cômodo demais para nós. Superestimamos nossas habilidades, falamos bobagens, e para ficarmos bem bastou mudarmos o discurso para que os problemas relacionados à nossa prática fossem varridos para baixo do tapete. De fato, o Wing Chun ficou conhecido na China por seu sucesso nas brigas de rua, em especial na Hong Kong dos anos sessenta quando alguns alunos de Yip Man conseguiram fazer frente a praticantes do estilo Choy Li Fut, que dominavam com folga estes embates. Mas foram outros tempos e o modo de lutar mudou no mundo inteiro. De lá pra cá o Choy Lee Fut cresceu tanto nas competições quando como sistema de defesa pessoal, enquanto o Wing Chun hoje é visto como uma piada no mundo das artes marciais de competição. Diante disso, o cara que realmente ama Wing Chun se pergunta: Por que nossa arte não vai bem nas competições? E uma vez que não, será que ela realmente teria utilidade num conflito que, embora provavelmente menos especializado, é potencialmente mortal como uma luta sem regras? Há alguma validade real na prática? Posso confiar no que faço? Por incrível que pareça a resposta é mais óbvia do que se imagina, e se o praticante de wing chun ou leigo lerem com atenção este artigo, não terão mais dúvidas sobre este assunto.

Vejamos a sequência de fotos acima. Nela, escolhi um tipo de movimento natural de defesa comum tanto ao Wing Chun quanto ao Boxe ocidental, mas vamos analisar como a coisa seria feita primeiro numa luta especializada em ringue como boxe que também já pratiquei de forma amadora (cheguei a ser cogitado para um futuro hipotético na seleção brasileira, mas parei pelo caminho e hoje me arrependo) , mas cujos movimentos também servem para a situação de "rua".  Na foto 1, o atacante esboça um gesto de ataque em que o defensor, de branco, também boxeur, faz um pequeno movimento com o tronco para trás (foto 2) apenas o suficiente para deixar morrer o golpe do atacante, para que volte com uma sequência de 1, 2 (Jab de esquerda e direto de direta). Mais ou menos como um "joão bobo". Como as fotos foram feitas de movimentos naturais de combate sombra, a sequência fica bem espontânea, natural (o modelo não aceitou ser atingido, repare na esquiva e no olhar dele, olho de tigre, o Sifu imaginando se deveria voltar com cruzado, rs). Nesta primeira sequência, a única preocupação do boxeador é estar  longe apenas o suficiente para colocar sua sequência, a defesa é a mais natural possível, e só um elemento de variação que tem a ver com os seis golpes (Jab, direto, ganho, uppercut e dois cruzados) já conhecidos de braços que possam ocorrer entre os dois competidores. Agora, vamos ver abaixo a  resposta do Wing Chun a um ataque parecido, usando a mesma inclinação para trás como defesa principal:













Na primeira foto, o defensor, lutador de Wing Chun, que numa situação rea.. ops, irrestrita (porque uma luta do UFC não seria "real"?) supondo que não quisesse ou esperasse o conflito seria atacado provavelmente de surpresa, e sem dados para saber exatamente o que fazer, inclina seu tronco para trás, numa defesa muito semelhante à da primeira sequência. A defesa Gip Sao significa "receber", mas não tem a função específica de defender o golpe, mas cobrir a área onde provavelmente o golpe poderá passar. Agora note, ainda na primeira foto, que a mão direita do defensor faz um movimento descendente passando por toda a região abdominal. Ou seja, a mão esquerda cobre a área alta enquanto a direita, a baixa. Assim, naquela área escolhida para ser coberta, a defesa principal, assim como no caso do Boxe, foi a esquiva, mas no caso do Wing Chun um movimento a mais foi feito, pois numa situação real,  você tem muito mais fatores para observar. Supondo, por exemplo, que o primeiro golpe tivesse sido, ao invés de um jab de esquerda, uma estocada de objeto perfurante na barriga, como uma faca ou uma chave de fenda, o praticante de Wing Chun poderia até ter a sua mão cortada, mas certamente teria mais chance de evitar um golpe potencialmente letal. Da mesma forma, uma paulada na cabeça teria seu afeito atenuado com defesa esquivante de cima. Para o lutador de wing chun, não importa onde será o golpe, ele deve cobrir toda a área. O maior erro dos praticantes de Wing Chun é querer "ver" os golpes e isso definitivamente não funciona. 

Na segunda foto, o contra-ataque é um soco típico do Wing Chun com o corpo de lado, pouco conhecido na maior parte das escolas chamado Din Choi (Soco de Batalha) e cuja estrutura e origem provável no templo Shaolin foi discutida neste blog no ano de 2011 no texto sobre  Luk Dim Boon Kwan. Durante e execução deste soco o braço esquerdo do defensor é violentamente puxado para trás com o objetivo de potencializar o giro e fazer com que o braço da frente o alvo com um efeito de chicote. Há um modo um pouco mais defensivo, fechado, de mostrar essa mesma técnica, a mão esquerda ficaria na guarda mas fiz questão de mostrar como isso seria feito pelo iniciante, ou seja, com o golpe no seu máximo de potência explosiva.  Na última foto, um exemplo ainda mais contundente do que poderia ter sido o primeiro movimento do lutador de Wing Chun que procura defender e atacar ao mesmo tempo sempre que possível. Ele executa Tiu Gerk "Perna que se levanta" pegando a mesma energia que o levará para trás para fazer um forte pisão no chão que servirá de pivô para transferir a força de todo o corpo para o peito de seu pé direito mandado às partes baixas do adversário. Muitos profissionais de Wing Chun gostam de falar de golpes baixos no wing chun, mas não sabem como a própria estrutura de funcionamento do sistema contribui tecnicamente para isso. Afinal, qualquer idiota sabe dar um chute baixo e, do mesmo modo, qualquer um que tenha dedos pode tentar levá-los aos olhos de alguém na hora do desespero. Não se trata do que se pode fazer, mas como o ritmo e a estrutura para a qual a arte foi criada/adaptada guia o processo. Quanto mais o agressor entra com toda a sua força, de um modo forte e pouco pensado, melhor ficará para o lutador de Wing Chun. 


EPÍLOGO

Em qual das duas situações o praticante de Wing Chun que leu este artigo acha que há uma melhor eficácia do ponto de vista energético? E técnico? Quantos golpes sequenciais podem ser melhor colocados nas duas situações? Não há um resposta pronta, há que se refletir um pouco para fixar, mas aposto que este artigo lhe dá uma luz nova sobre um assunto velho, lhe deixou mais tranquilo. Como um sujeito que praticou das duas lutas e treinou diariamente as duas situações e muitas outras semelhantes, posso dizer que o jeito do boxe tem uma defesa mais simples e prática e a possibilidade de ter o corpo mais livre para golpear em sequência, pois os golpes - seis somente-  e os limites técnicos estão definidos . A reação do lutador de Wing Chun exposto ao conflito irrestrito exige que ele tenha uma solução geral para problemas potencialmente  mortais (embora você na maioria das vezes irá sair apenas com um olho roxo, um combate de ringue com alguém preparado para você, na sua idade, no seu peso e preparo físico pode ser muito pior) e inesperados na ação, mas que tem um custo funcional adicional. O lutador de boxe sem noção de cobertura com os membros terá dificuldades amplas caso ele seja exigido fora de sua área, enquanto o de Wing Chun terá uma limitação mediana em todos os aspectos, mas será como um carro que anda bem em qualquer terreno. Em nenhum dos dois casos se ganha algo sem se perder outra coisa em troca. A ação do lutador de Wing Chun deve ser mais ampla e sofisticada na defesa e o ataque, uma vez que devemos supor que nosso adversário tem algum tipo de vantagem sobre nós, deve ser simples porém decisivo. Analisando deste modo, não do há que se envergonhar de sua arte. Ela é o que é, não precisa ser o que não é, a menos que, ironicamente, uma necessidade REAL se configure. O Wing Chun nunca vai ser boxe, nem precisa ser. Entretanto, a linguagem da luta irrestrita de "rua" está mudando com as competições, e a internet democratizou o acesso ao conhecimento. Se ficarmos apenas nos escondendo em nossa zona de conforto porque alguém no passado criou algo que foi útil há trezentos anos, ficaremos para trás.

Principais técnicas mostradas no artigo: 

Jip Sao 接手 , Ding Choi    , Tiu Gerk 挑腳
   









quarta-feira, 6 de março de 2013

Para aqueles que pensam em estudar Wing Chun com SiFu Marcos em Salvador

Foi publicada ontem uma matéria no blog do dido http://www.blogdodido-dido.blogspot.com.br/2013/03/depoimento-de-fernando-lempe-sobre-seu.html em que o mais novo estudante privativo de SiFu Marcos, Fernando Lempê, conta sua experiência de sair de Manaus para treinar em Salvador e entrar em conexão real com a arte do Wing Chun numa família tradicional. As expectativas, as frustrações e as conquistas no processo da Vida-Kung Fu. Se você é daqueles que veem numa arte marcial mais que um método de luta, você deve ler este artigo. Por Fernando Lempê e Dido, estudantes privativos de SiFu Marcos no Amazonas e Pernambuco, respectivamente.

domingo, 3 de março de 2013

SITE DO SIFU MARCOS



Olá, Pessoal,

Incrivelmente neste tempo todo escrevendo neste blog eu não associei este espaço a nosso website KUNG FU WING CHUN. Temos um link fácil e textos simples que possibilitam aos leigos entenderem rapidamente o que é Wing Chun, sua especificidade em luta e contexto entre as demais artes marciais, além de textos curtos de minha autoria e depoimentos de amigos sobre meu trabalho e visão de arte. Temos lá ainda link para meu perfil no Facebook e canal de vídeos no Youtube. Agora o endereço também figura no perfil á direita. Leiam, divulguem, critiquem. Posso ser contactado pelo e-mail do próprio site sifu@kungfuwingchun.com.br

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O Robô Wing Chun e a Cabeça Pensante





Antes de terminar a última parte de meu artigo sobre a falácia da "Defesa Pessoal" e a propósito de uma recente postagem na comunidade Wing Chun - Brasil do Facebook que mostra o curioso e muito bem-feito vídeo exibido no link acima, pensei em fazer uma crítica por lá, mas como de forma geral as pessoas criticam meus textos imaginando que tudo que escrevo é uma ofensa a determinada pessoa ou escola, resolvi fazê-lo por aqui. Embora eu não saiba - ainda bem - a qual escola pertence o autor do vídeo, pude ler a descrição de como a idéia original foi concebida no link original no YouTube, e pude perceber o quanto esse cara ama Wing Chun. Mas destarte o vídeo em si ser muito bacana e motivador, quando o vi, alguns anos atrás, tive a mesma impressão que tenho ao vê-lo hoje - e ainda mais depois ter estudado a teoria de aplicação da arte com o meu SiGung (Avô-KungFu) Duncan Leung no ano seguinte à sua publicação - que este vídeo é representativo de um emblema de uma visão da arte limitada, utópica e pouco-funcional. Evidentemente, essa é a minha opinião, mas convido você a racionar comigo e ver se a critica é ou não pertinente.Eu que já havia feito uma critica sobre este mesmo vídeo na página social Orkut, e indeciso sobre opinar ou não no Facebook ouvia ontem de um aluno elogios rasgados ao vídeo, empolgado como geralmente ficam as pessoas ao vê-lo (vide comentários no link original do YouTube), sendo que isso me motivou a escrever.

Treinar com robôs ou máquinas, ou fazê-las mimetizar os movimentos humanos é uma idéia muito antiga. Referências a uma suposta câmara cheia de bonecos de madeira pelos quais o monge teria passar para sair do templo Shaolin são comuns a livros e filmes antigos de artes marciais e mesmo os bonecos reais de treinamento, dentre os quais o do boneco de madeira do Wing Chun é aquele mais se pareceria com um ser humano, e por isso mesmo muito conhecido do público. Nos anos sessenta chegou a ser desenvolvido um robô para treinar boxeadores, mas a idéia parece não ter ido muito adiante, e embora ainda possam ser vistos projetos semelhantes, não creio que substituam ainda um bom sparring com alguém se mexendo de verdade. No caso deste vídeo, é o robô que faz as vezes do praticante, e o que seria o boneco de madeira fixo (no chão e/ou parede) do Wing Chun, Muk Yan Jong, é que tem a chance do revide depois séculos apanhando de 108 maneiras diferentes. 

A primeira e mais marcante observação que fiz quando vi o vídeo pela primeira vez é que o robô não tem pernas. Uma arte oriunda do templo Shaolin, o Kung Fu de Wing Chun tem bases que pela força da especialização ficaram mais curtas que a fórmula que consagrou a maior parte das lutas alegadamente vindas deste templo e que deram origem ao Hung Gar (China), Karatê (Japão) e Hapkidô (Coréia), só para citar três entre centenas delas, e que mantem mais ou menos o mesmo sistema de base, com pequenas diferenças estilísticas. No Wing Chun, para horror dos mestres de estilos mais tradiconais, a base tornou-se algo neglicenciado, tanto quanto instrumento para geração de força, quanto como suporte para manutenção do equilíbrio, mobilidade e por que não dizer, absorção de golpes. Porque lutadores de Wing Chun supõem nunca serem atingidos, e talvez por isso mesmo o protótipo do vídeo também incrivelmente não tenha uma cabeça para ser golpeada (!!!), embora o Wing Chun, talvez pelo estilo de socar, precise se uma para servir-lhe de alvo obrigatório.

Mas o fator principal que faz com que o vídeo se torne um retrato simbólico de como vemos a nossa arte nessa época é que, à exceção de alguns giros, tudo o que o robô faz é defender com perfeição todos os golpes que lhe chegam. Exatamente como em 98% dos vídeos de demonstração onde os professores tem uma resposta lógica e pronta para cada golpe: se você me golpeia aqui eu defendo e já bato do outro lado, e você tenta algo eu respondo, nenhum golpe me escapa, mas à exceção de nossos braços, nada mais se mexe, ficamos com o corpo ereto, cabeça irremediavelmente parada, queixo pra cima, sou o grande sábio que tudo vê, que tudo defende. Não há andar para frente ou para trás, apenas troca de golpes na curta distância, ao modo como fazemos no Chi Sao (exercício de reflexo Braços Grudados) e sempre nos impressionamos com a genuína habilidade da maior parte dos mestres, mas no fundo ficamos na dúvida de como seria isto se nada fosse combinado, e as pessoas se mexessem à vera. Ou não. No wing chun, somos educados para aplaudir, não para pensar, e neste ponto a falta da tal cabeça lá talvez também tenha mesmo um sentido mais amplo...








sábado, 12 de janeiro de 2013

Defesa Pessoal, a falácia da pilantragem marcial - Segunda Parte.

(...) A luta que se seguiu entre Eduardo e o bandido mais imediatamente próximo (teriam sido quatro assaltantes ao todo) foi dramática. Mesmo tendo tomado a arma do bandido e atirado nele, ele foi alvejado quatro vezes no processo, seu carro, armas e pertences roubados, enquanto ele ainda teve forças para gritar por socorro antes de ser amparado por populares. Muitos detalhes são obscuros, versões testemunhais e técnicas divergem e seria leviano congelar alguma versão e lançar alguma análise pormenorizada. Seja como for, a forma como um policial extremamente bem preparado, que passou por cursos com os maiores especialistas brasileiros de praticamente todos os ambientes de combate - armado e desarmado - tombou numa situação de estresse extremo mostra o quão limitado e impreciso pode ser este termo "Defesa Pessoal" e os mundos e fundos técnicos vendidos por profissionais de artes marciais que a imprevisível e inesperada realidade trata de colocar à prova da pior forma possível.

***

"SiFu Marcos, quero aprender Wing Chun. Vi todos os vídeos de Mestre Fulano de Tal e fiquei muito impressionado. O senhor ensina em média em quanto tempo para o cara ficar bom?"

"Olha, meu trabalho não segue muito essa linha. Para ficar bom é preciso de um trabalho muito duro que vai depender muito mais de você do que algo que eu possa te oferecer. Posso te fazer uma pergunta? Por que quer aprender a lutar Wing Chun?"

"Eu quero uma defesa pessoal simples e eficiente. O que o senhor acha dos vídeos de Mestre Fulano de Tal?" 

"Para te falar a verdade, acho que ele mesmo é muito bom, tem muita habilidade, mas duvido muito que alguém se mova daquela forma numa luta real. Então, se o vídeo fosse um pouco menos combinado, talvez eu pudesse julgar melhor. É muito pouco provável dominar quatro ou cinco sujeitos de uma só vez, pelo menos com toda aquela facilidade. As coisas são um pouco mais complicadas quando saímos da frente da tela. Talvez eu esteja errado, espero que esteja. Sei lá."

O sujeito insiste em correr conosco, afobadíssimo. Na época treinávamos em um quente porão sem janelas de um prédio que dava na avenida Contorno, praticamente embaixo de um viaduto. Tenho orgulho de meus garotos. É a segunda vez que montávamos nossa academia no espaço de um ano. Enquanto corremos tento aplacar o entusiasmo excessivo, quase pueril do sujeito, com doses de comedimento e bom senso. Ele me parece um daqueles teóricos impressionáveis. "Qual as vantagens em se praticar a sua linha?" "De fato, nenhuma", respondo. "Quero que as pessoas se divirtam no final das contas. Por que não assiste a aula e vê por si?" 

Quando os garotos colocam as luvas de boxe e começam a trocar golpes, vejo a cara de decepção do rapaz. Ele alega sentir-se mal e pede para sair praticamente correndo, como se estivesse livrando de algo ruim, externando sem um pingo de vergonha seu total asco pelo que fazíamos, dizendo sem qualquer convicção que voltaria em outra oportunidade. Estou um pouco triste, mas logo me viro para os meninos, rio e digo "Alguém aqui acha que ele vai voltar?" O pessoal cai na gargalhada. 

Continua...










sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Defesa Pessoal, a falácia da pilantragem marcial - Primeira Parte.

A moça tenta me explicar a questão dos cheques pré-datados, preços, vantagens, condições de pagamento, mas, afora a surpresa com os valores, estou desatento. Tento desvencilhar-me dela para enxergar o que está acontecendo. No centro do tatame, o professor, de pé, cintura para frente e mãos à faixa, vaticina: 

"Não podemos perder viagem, senhores. Este chute irá quebrar o joelho do inimigo, colocando-o fora de combate."...

Lembro-me do meu aluno e amigo Eduardo Rafael imediatamente. Ele foi morto há dois meses durante um assalto em frente ao prédio em que morava em Salvador. Identificado como policial, não teve outra alternativa senão reagir. A aula prossegue:

"...porque nós temos de matar. O inimigo nos quer matar e não podemos perder tempo, devemos fazer o mesmo."

Eu gosto das técnicas que vejo, elas são muito boas, tomadas isoladamente. Mas me preocupo com duas coisas; a primeira delas é  o discurso excessivamente positivista do professor. À medida em que ele avança na aula, dá a impressão que ele realmente acredita que reagir é uma boa opção a ser tomada. A segunda é uma dúvida que não me sai da cabeça, qual a conexão, qual o elo que uniria as técnicas de forma a criar um padrão existente, pois são muitas técnicas e sei, por experiência própria, que na hora do estresse elas devem surgir com a espontaneidade que a repetição exaustiva - somada a um controle emocional diferenciado - proporcionam, o que confirma o conhecido jargão marcial "mais vale uma técnica bem dominada que mil delas pela metade", e quando as técnicas são montadas com um mesmo padrão motor as coisas ficam mais fáceis, pois elas organizam o caos que geralmente nos atropela nestas situações, fazendo que dependamos um pouco menos do fator emocional. Assim sendo, artes marciais consagradas tem o seu padrão. O BJJ usa o contato agarrado no solo e alavancas, o Aikido o padrão circular da movimentação somado às torções e assim por diante. Ainda assim, artes marciais surgem para a soluções de determinados problemas em luta, não compreendem tudo o que pode acontecer numa luta irrestrita. Se não fosse assim, não existiriam tantas artes marciais.

Mas este ainda não é o ponto.

***

A morte de Eduardo foi particularmente dolorosa para mim. Ele não apenas havia entendido a proposta interpessoal na prática do Wing Chun, fazendo boas amizades e ajudando a escola e a mim diretamente, mas vinha se tornando um amigo muito querido. Colega de classe de meu irmão e de meu amigo, compadre e aluno Gustavo Gomèz durante o Liceu, ele era um homem atencioso, chegava aos lugares com um olhar que num primeiro momento pareceria talvez um pouco ingênuo pela curiosidade, mas logo abria um grande sorriso que era a sua marca registrada e agradava em cheio com suas piadas curtas e sempre oportunas. Ele sempre estava disposto a ajudar e não raro chegava à escola com algum equipamento para fazer alguma melhoria no nosso espaço físico, que é ainda muito humilde.

"Sair de um mata-leão é fácil", diz o professor, e neste ponto eu quase me ofereço para testar aquela afirmação pouco provável uma vez que a técnica esteja realmente encaixada. Eu me canso e vou para casa. No caminho, fotos do grão-mestre, um homem franzino, usando uma técnica praticamente igual ao nosso Tan Da (eu digo nosso porque nós fomos a primeira escola de Wing Chun a executar o Tan um pouco mais alto, no que fomos exaustivamente copiados depois) para desarmar um homem com um  bastão. Uma aspecto algo militarista meio que dá a atmosfera da escola. 

Na noite que Eduardo morreu, uma espécie de ensaio macabro se configurou. Um de meus alunos contou uma história hilária em que um seu amigo, policial federal, reagiu a um assalto e o bandido, desarmado, malandro, saíra correndo e pedindo desculpas ante a visão da arma, e isso deu ensejo a uma discussão sobre prós e contras no que diz respeito a reação em caso de assaltos armados que durou todo o nosso aquecimento durante a aula. Depois da aula, meio que sob este clima, guardamos a saída uns dos outros. Eu gritara o Wesley (vide matéria sobre o "kickboxe" do applied wing chun) dizendo que o carro dele ficara muito distante da academia, enquanto Eduardo tirava o seu próprio veículo, tendo esperado até que Wesley fosse embora para seguir seu caminho.

***

"Marcos, Tenho uma notícia não muito legal para te dar". Era meu advogado. Logo pensei que era a família de minha filha mais velha tentando levar-me ao cárcere novamente. Por mais que diabos ligaria tão cedo?

"Marcão, Eduardo foi assaltado e baleado ontem à noite, levou quatro tiros e está no Hospital Geral". Estou aqui, doando sangue." "Merda, merda! Você está variando, homem? Eduardo estava treinando aqui ontem à noite, falamos disso a noite toda!". "Então você foi a última pessoa a falar com ele antes do ocorrido. Disseram-nos que ele está estável. Venha para cá". Eu fui. E, no caminho, mil pensamentos assomavam, eu sentia uma culpa tremenda, foi algo surpreendente, e eu era seu guia nas artes marciais, eu era o culpado por isso ter ocorrido. A escola estava em maus lençóis, e Eduardo era um dos que estavam ajudando a segurar a onda, pagando as mensalidades mesmo sem frequentar o Mo Gwun. No meu aniversário, dias atrás, dera-me por presente a trilogia de Matrix, que soube que eu adorava. Eu tinha consciência plena do grande ser humano que tínhamos ali mesmo antes disso acontecer, E quando me vi, lá estava eu deitado na maca, doando sangue com um outro colega de classe  de meu irmão no colégio, Breno, doando sangue. Conversamos rapidamente. "E aí, Marcão, você continua 'Shaolin', como na época da escola, ou desistiu?"  "Não desisti, e essa é precisamente a fonte de todos os meus problemas", limitei-me a dizer. Logo após isso, ele atendeu um telefonema. Seu rosto repentinamente empalideceu, mudou e murchou e ele começou a chorar em pequenas convulsões de desespero. "Ele morreu", disse. Saímos ao hospital, e quando percebi que nunca mais veria meu amigo, chorei, e chorei como não chorei quando perdi, um a um, os meus avós.

Aos poucos fui sabendo dos detalhes, embora talvez nunca iremos saber o que fato ocorreu naquela noite. Eduardo fora rendido ao descer do carro para abrir a garagem de casa. Ato reflexo, ao levantar os braços  teria aparecido a arma na subida da blusa, e ele teria sido identificado como policial. Outra versão defende que um dos bandidos teria visto uma das armas dentro carro. Como me disse Gustavo durante o enterro, este tipo de situação é particularmente dramática, pois o ladrão pensa "Tenho de matá-lo, pois caso contrário serei perseguido e morto". Por seu turno, o policial pensa: "Ele vai me matar pois sou policial, talvez se eu tentar algo eu tenha uma chance". 

Continua...







domingo, 30 de dezembro de 2012

Presente de Natal.

Numa manhã ensolarada de um começo de verão escaldante, vou ao encontro de minha filha primogênita, Nathália. Cheio de expectativas, com o coração apertado, como sempre nestas ocasiões. Ela está prestes a fazer seis anos. Se tem uma coisa que aprendi na vida por intermédio da dor é que ninguém se acostuma com a falta de um filho. Ando ansioso e aperto o passo, mais duas quadras que não acabam nunca. Ela deve estar tão ou mais ansiosa do que eu. É a quinta vez que a vejo no espaço de dois anos. Uma longa rotina de dor que incluiu centenas de telefonemas sem retorno, promessas de encontros que nunca aconteceram, aniversários e natais perdidos para sempre. Muitas vezes, ao exigir uma explicação para o cancelamento de mais um encontro, a menina, ansiosa e não raro pronta para sair, era colocada ao fone, e cabia a mim explicar-lhe o porquê de não nos vermos...Os últimos encontros foram mais recentes, as coisas parecem ter melhorado, mas eu não estou satisfeito, por saber que toda essa recente reaproximação pode ser violentada novamente e a qualquer momento, o que me destruiria completamente, e sabe Deus quais as consequências para minha menina. Por isso, nunca me permito relaxar, e me dar toda a certeza de vou de fato vê-la, sempre espero pelo pior, uma supressão, um hiato em meu desejo, e guardo a saudade como única certeza. Ademais, visitas supervisionadas e condicionadas são para pais criminosos que maltratam os filhos, não para mim. Sua irmã Luiza, fruto de meu relacionamento atual, ela sequer conhece, nunca houve qualquer interesse de quem quer que seja que as duas se conheçam, o que me angustia mais ainda. Como farei que as duas irmãs exerçam o direito natural de se relacionarem? Não há receita para isto. Mas eu vou, cheio de esperança, pois me garantiram que não haveria problemas desta vez. Finalmente um pouco de bom senso.

Revejo o um dos porteiros do prédio em que ela mora, antigo companheiro de conversas distraídas, um homem grande de rosto enorme e gentil, mas com olhar agudo e com sotaque interiorano, depois de quase três longos anos. Pergunto a ele se resolvera seu problema com a mulher, adquirido na mesma época que eu. Sem muito ânimo e ele diz que sim, ele está de volta ao lar, e com filhos, fico feliz por ele, por causa dos filhos, seja como for, e é quando giro nos calcanhares me volto para minha filha, os olhos parecendo de uma chinesinha que sempre se apertam ao sorrir. "Papai!", ela diz, e meu coração dispara numa completa confusão de sentimentos, que devo comedir imediatamente para que as coisas não fujam ao controle.

Nathália não apenas tem meus traços, felizmente suavizados em seu rosto de menina, mas algumas características minhas que eu preferiria que não tivesse. Ela é tímida e tem mesmo hábito que eu de não olhar diretamente para as pessoas quando fala. Ela corre a meu encontro e quando chega à minha frente, para, abre os braços lentamente, e espera. Eu a abraço, e então ela me aperta num daqueles silêncios tão doloridos, mas que eu desejo que nunca se acabe. Eu a tomo nos braços num gesto brusco onde busco me exibir como um pai "grandão e fortão", ela ri do alto dos meus ombros, mas sinto que está chegando o dia em que colocá-la no colo será um problema para mim. Seja como for, serei forte o bastante para fazer este gesto sempre que ela quiser e o destino permitir. Ganhamos a rua.

Uma pessoa bem conhecida segue-me em meu caminho com a menina, a princípio apenas afetando coincidência. Não é a primeira vez que isto acontece, e quando acontece é só porque  tenho a criança comigo, e isto tem um óbvio motivo nefasto sabido por mim. Ela, esta pessoa, que posso dizer ter um dia amado, faz gestos nervosos enquanto anda e começa a me dizer coisas de que não sei, juntando suposições daqui e dali, sem muitas conexões razoáveis, enquanto me olha de soslaio apertando o passo, os olhos muito injetados e nervosos. Ela então finalmente se interpõe bloqueando meu caminho e eu, ainda com a criança no colo, tento, pela enésima vez, tratá-la com o mínimo de educação que a situação exige, para que as coisas se mantenham no controle. Temo somente por minha filha, que agora esconde seu rosto entre a minha clávicula e pescoço, apertando-me mais com as perninhas me enlaçando a cintura. Jurei para mim mesmo que isto nunca mais aconteceria. Como fui tolo.

Caí novamente numa armadilha que, ingênuo, achei que o bom senso com o tempo resolveria. Ledo engano, tarde demais para arrependimentos. Agora essa pessoa invade meu espaço pessoal, aquela distância mínima crítica entre duas pessoas que tanto incomoda ao ser desrespeitada, e começa a pressionar o dedo indicador contra meu braço em quanto fala, queixo para cima, dentes arreganhados, como que para frisar o que diz. Tratar-se-ia de um gesto de intimidade ao leigo, mas vai ficando pior. "Por favor", digo eu contendo a indignação, "será que você pode falar sem me tocar?" Esquecera eu de carregar comigo a droga do celular com câmera, minha única defesa nestas ocasiões, pois basta o simples gesto de levantá-lo à minha frente para surtir o efeito equivalente a visão de um crucifixo por parte de um vampiro nesta pessoa.

Então o que eu mais temia acontece. A criatura, opressa, começa com as imprecações, epítetos e afins até descambar para a agressão verbal franca e sem reservas de censura, bom senso, tom ou volume. Eu me exaspero, tento manter o controle e matar, dentro de mim, o desejo de retrucar, de manter o orgulho e a dignidade, minha honra de homem, e me concentro em passar segurança para a criança. Começo a suar e sentir minhas pernas tremerem. Minha filha me aperta cada vez mais. "Será que não vê que, por mais que ache que tenha razão, que não goste de mim, vá lá, que eu seja tudo isso que diz, xingar-me na frente da criança não é razoável, que temos de preservar nossas imagens, pelo menos na frente dela?". "Ela é boba, não entende o que falo", ouço em resposta. Tomo este subestimar ultrajante da inteligência de minha filha como um outro gesto de violência, e sinto neste momento um grande asco, uma vontade de cuspir no chão.

"O que você perdeu com sua filha nos últimos dois anos não terá volta", ela me assevera. "Não haverá flashback, nem vídeo, nem reprise, você perdeu, perdeu, e perderá muito mais", diz com um sorriso odioso e louco no rosto. Concordo com ela. Mas eu sou adulto e estou preparado para lidar com isso. A insônia, e pelo lado oposto os pesadelos em bases diárias, são todos meus. O que perdi de Nathália dos quatro aos seis anos é algo com que terei de lidar pelo resto da vida. Mas como minha filha lida e lidará com isso? Como está a cabecinha dela? Será que um dia ela irá esquecer? Ficarão marcas deste dia? Oh, Deus, espero que não! O que ela pensa de mim, neste momento? Será que ela está me achando um homem fraco por não reagir? Como gostaria de reagir!!! Peço perdão repetidamente a minha filha em meu íntimo, por fazê-la passar por isso de novo, por minha ingenuidade, como uma pequena oração, enquanto busco uma saída para aquela armadilha tão óbvia que se amiudava.

Aguento firme mais alguns infinitos segundos, depois de ouvir ameaças e promessas de agressões futuras. "Você sabe quem eu sou. Do que eu sou capaz, que eu vou e faço mesmo!" vociferou espumando. Sim eu sei, como bem sei que, se isto acontecer novamente, ocorrerá única e obrigatoriamente se minha filha estiver presente. Vi uma vaidade tão insidiosa naquela autoafirmação covarde, toda apoiada em cima de uma pessoinha jovem demais para suportar uma carga dessas, que fiquei com bastante vergonha por ela, por mim mesmo, por todos nós, por esse teatro de ridículos.

Acabou. A agressora, não minha, mas de minha filha, foi-se embora murmurando algo para si entre esgares e muxoxos. Eu estou acabado e trêmulo, como se uma grande quantidade de energia me houvesse sido tirada. Coloco minha filha no chão e, num ato tão necessário quanto insuportável, ajoelho-me parcialmente perto dela, a fim de que fiquemos na mesma linha de olhar e, alisando-lhe os longos cabelos lisos, ponho-me a fazer uma calma porém imediata defesa de sua agressora, tentando amenizar o ocorrido. Por dentro, sinto-me vilipendiado, injustiçado. Sinto vontade de contar-lhe a minha versão da história, mas logo consigo afastar essa imbecilidade infantil, egoísta e mesquinha do pensamento, pedindo a Deus, ao diabo, ao destino, o que for, que um dia me faça alguma justiça, não para ferir ninguém - pois também aprendi no processo que o ódio só nos devora a nós mesmos, de forma que tento me livrar dele - mas tão somente para que minha filha não fizesse de mim pior juízo do que eu, de fato, mereço. Não sou nenhum santo, dono da razão nem quero que tenham pena de mim, pois cada um sabe de suas próprias dores, mas até mesmo numa guerra devem existir certas regras a serem seguidas.

Mas, sabe, é então que a própria Nathália, esse criança que não mais usa fraldas, mas que patina e pinta quadros e que tenho urgência em conhecer de novo, revela-se. Sem levantar os olhos a princípio, ela mexe nos seus próprios dedinhos, meditando, então levanta subitamente um olhar grande e surpreso para mim e diz, preocupada, daquela pessoa: "Papai, acho que Papai Noel não lhe dará presentes este ano!"... É, pode até ser, mas eu desconfio que acabo de ganhar o meu. Entendi que eu não tinha de estar preocupado com o que minha filha pensa de mim, mas tão somente em lutar para que essa violência contra ela não apenas não fique impune, mas não se repita mais. Tudo o que eu devo fazer, não importa quão raros, difíceis e dolorosos sejam meus momentos com ela, é ser e fazer o meu melhor, em cada segundo que passamos juntos, e confiar em sua inteligência, em seu discernimento, em seu coração. O meu presente neste dia foi , de certa forma, ganhar a minha filha para sempre. XX

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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

HUGO "WOLVERINE" VIANA, TREINADO POR MESTRE MARCOS NO WING CHUN, LUTA EM LAS VEGAS DIA 15 DE DEZEMBRO DE 2012 PELO UFC.

 
 
Olá, amigos,

Depois de amanhã, dia 15 de dezembro de 2012, teremos o atleta Hugo "Wolverine" Viana lutando em Las Vegas em sua segunda luta pelo UFC. O atleta do Team Nogueira, que é treinado por SiFu Marcos e pelo preparador físico Leonardo Chamusca na arte do Wing Chun, lutará contra Reuben Duran no peso galo na luta final do card preliminar da final da nova temporada do TUF americano que tem como técnicos os lutadores Roy Nelson e Shane Carwin. Vamos torcer pelo atleta que está usando a nossa técnica de Wing Chun no evento de luta esportiva mais visto em todo o mundo!
Link para anúncio da luta de Wolverine em Las Vegas pelo UFC. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Golpes de Wing Chun: Lan

Um dos principais atributos alegados do Wing Chun enquanto arte marcial de vanguarda foi a ideia de que você pode defender e atacar em um só movimento. Surpreender o adversário quebrando o tempo dele, entretanto, não é algo muito fácil de se fazer na prática. Muitas vezes, no meio do caminho, deparamos com a necessidade de nos protegermos de golpes inesperados ou refazermos uma estratégia no calor do momento até que possamos ter uma oportunidade de impormos o nosso jogo. Porque também somos passíveis de sermos surpreendidos.
Se você consegue fazer LAN  , (barrar, impedir ou ainda obstruir em português) um dos conceitos defensivos mais importantes dentro do sistema, significa que está preparado para imprevistos, e, às vezes, se defende deles sem necessariamente ter de esperar pelo perigo e se moldar a ele, mas antecipá-lo assim que a tendência do "perigo" o levar para lá, o que é considerado o máximo da estratégia de combate de nossa arte, a arte de se cobrir. Quem se cobre faz a defesa antes mesmo do ataque chegar, pois do contrário você faz um bloqueio e bloquear quase nunca dá certo em Wing Chun.

Na foto abaixo temos uma foto minha na base conceitual do Wing Chun Yee Je Kim Yeng Mah executando Lan Da (barrar com batida) tal como é conceitualmente concebido não apenas no Wing Chun de muitos estilos mas em outras lutas chinesas também.


Agora gostaria que os praticantes de Wing Chun observassem bem o que digo, ainda que alguns torçam o nariz para isso: a tendência do Wing Chun de lançar contra-golpes de baixo para cima cria uma janela de ataque para o adversário a partir da linha dos ombros que traz a necessidade de complementar o repertório defensivo na parte alta para ser executado inclusive durante a troca de golpes, uma vez que esta janela seria, em outro estilos, ocupada pelo posicionamento natural dos socos horizontais e posicionamento de perna dos golpes circulares em geral. Por isso defesas como Bong Sao e Lan Sao cumprem praticamente o mesmo papel, embora em contextos simbólicos e práticos diferentes. Para o iniciante, o Lan Sao (Braços que barram, ou atravancam ou obstruem) é visto pela primeira vez logo na primeira na forma, Sil Lin Tao (Pequena Ideia Inicial), como faz meu estudante privativo pernambucano Dido na foto abaixo:



O golpe é executado na prática com o defensor literalmente escorando violentamente seu antebraço de encontro ao agressor com o apoio do ombro e do movimento para frente do corpo, seja contra seu corpo, a fim de pará-lo, atingindo-o para isso tronco ou pescoço, seja a seus braços, como forma de antecipar a saída de um ou os dois braços do adversário em forma de socos, ou ainda usando a posição defensiva apenas ocupando a posição horizontal para cobrir a área, fazendo que se choque com o ataque em curso. 




Acima eu demonstro a posição do corpo para a aplicação prática da técnica original. Repare que como o braço na horizontal em si ainda deixa muito espaço exposto, de forma que eu busco colocar o queixo, uma região frágil, apoiado no espaço anatômico natural entre o ombro e o peitoral, deixando exposta apenas a parte mais forte da cabeça, enquanto faço um ataque que pode ser tanto com o soco tradicional do Wing Chun quanto com um soco gancho (Pin Choi). A idéia é que se, por exemplo, eu defender com um Pak Sao (tapa) um soco e a outra área ficar exposta, eu deva correr e me fechar antes mesmo que aconteça a sequência de ataque do adversário. 

Logo abaixo meu aluno João Gilberto consegue a façanha rara de captar meu uso de Lan Sao como simples cobertura de espaço enquanto foco mais no ataque. Ao executar Soh Gerk (Chute de Varredura) protejo meu abdome do que poderia ser um uppercut (muito usado pelos tailandeses quando lutam conosco na china contra esse golpe) num evento esportivo, ou uma paulada ou facada, com Gun Sao (vide primeira forma) enquanto exploro todo o poder que um chute deste, calçado, pode acarretar no tornozelo de um desavisado na luta irrestrita. O lutador deve projetar o quadril para a frente, e fazer um movimento parecido com o jogador de futebol que chuta rasteiro e trazer as pernas em direções opostas, como um alicate, abaixando subitamente no final. No momento do impacto todo meu corpo está envolvido na ação, repare como o pneu se deforma, tendo o executante de mediar a força para não chocar-se demasiado contra a parede.




Contudo o conceito de Lan não aborda apenas sua expressão com os braços, mas é também usado de outras formas no sistema. Por exemplo, existe uma pratica muito perigosa e inocente dos praticantes de Wing Chun quererem pisar todos os chutes que partem do adversário. Quem luta de verdade sabe que, embora a técnica possa ser aplicada, e aplicada com mais facilidade quanto mais leigo é seu opositor, você deve proteger o restante do corpo enquanto faz isso, pois se perder o "timming" do golpe, poderá ser atingido em outra região do corpo, de forma que em nossa escola Applied Wing Chun quando nos cobrimos contra chutes, quer tenhamos ou não a intenção de pisar nos colocamos primeiro em condições de "barrar" o oponente. Vide foto abaixo:



A foto acima demonstra uma postura que também pode ser chamada de Lan Gerk (Pernas que obstruem). Infelizmente como a foto não foi tirada de um movimento natural o corpo não está totalmente bem posicionado, mas pelo menos o suficiente para demonstrar o poder defensivo de um verdadeiro Wing Chun para combate, que não subestima o poder de fogo de outras artes nem faz do praticante um advinho ou medium, pois uma vez que erre a pisada o praticante está relativamente protegido. Repare que desde o joelho até a cabeça todo um lado está "fechado". Caso chute nas costelas, o adversário enfrentará o encontro do joelho com o cotovelo, algo que gera uma tremenda dor. A mão esquerda que ajuda a direita a fazer uma escora na defesa Tan Sao, mais frágil, também pode ficar com o cotovelo mais alto em Lan e cobrir a cabeça.


Por fim, apenas para mostrar que os conceitos do sistema fluem também das armas para as mãos livres e vice-versa, executo com o bastão longo do Wing Chun, Luk Dim Boon Kwan (Bastão de Seis Pontos e Meio) o movimento Lan Kwan (Barrar com Bastão), que uma vez bem executado conduzirá o praticante, em qualquer situação, a um cruel e não raro mortal contra ataque (não, se você usar com as mãos livres não vai matar o cidadão, antes que alguém comece falar que armas deixam as mãos "afiadas" e todo aquele besteirol de alguns alienados do wing chun de sempre).

Peço desculpas por ter ficado tanto tempo sem escrever por aqui. Ainda vou escrever um texto só para ele, mas fica aqui a expressão da nossa dor, minha e de todos os meus alunos, da nossa saudade do meu aluno, amigo e policial incansável Eduardo Rafael. Este artigo é dedicado à sua memória.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Destrinchando o Muk Yam Jong, o boneco de madeira do Wing Chun, em uma análise de caso. Parte II

Pois é, assim como o personagem do game Tekken, Mukujin ( 木人) lit. Pessoa de Madeira, Uma corruptela de seu alter ego, Muk Yan Jong ( 木人...