sexta-feira, 22 de novembro de 2013

ME BATE QUE EU TE MOSTRO - a conversa mole, a farsa e a violência como componente das demonstrações de artes marciais. - Por SiFu Marcos Abreu




NÃO ACREDITA EM MIM? PODE BATER.

Acabo de ler num fórum de internet onde sou moderador uma declaração muito bonita de um estudante sobre as habilidades de seu Mestre. Segundo este estudante, seu mestre é capaz de proezas de que poucos na posição dele são; ele é rápido, astuto e pode derrotar um homem em segundos. Para confirmar sua tese, ele menciona um episódio em que um cético invadira a sua academia, a princípio por troça, mas acordara depois do mestre desafiá-lo:

- Bata-me do jeito que quiser!

Eu que sou macaco velho em arte marcial notei neste depoimento uma ocorrência muito comum no ritual das visitas de curiosos a academias de luta: o batidíssimo..."- Me bate que eu te mostro!"

O "Me Bate que Te Mostro" é um ato de demonstração de um mestre habilidoso na arte de conduzir pessoas, e depende necessariamente de pessoas impressionáveis, assim como o hipnotizador precisa de uma pessoa suscetível, para que suas habilidades apareçam, ou do logro sério do estelionatário, que se vale do desespero alheio para que a obviedade mentirosa de seu truque seja ofuscado pela ânsia ou ambição da vítima.

Não é preciso dizer que o mestre defendeu o golpe do ousado rapaz que veio de fora. Mas é claro que sim. A partir do momento em que dou um comando, eu tenho o "tempo certo" para agir. No Wing Chun, uma luta que já é feita para reações rápidas na curta distância e na condição da desvantagem, essa premissa é particularmente necessária.


MOSTRA DE UM LUTADOR DE RINGUE X VENDEDOR DE "DEFESA PESSOAL"

Quando um instrutor de boxe pede para que você desferir um golpe, geralmente ele mostra uma nuance técnica, algo que é facilmente verificável em combate, que já foi feito centenas de milhares de vezes diante das câmeras, por exemplo. Isso ocorre porque lutas de ringue tem um repertório mais simples, e o resultado desejado pelo público é estimulado pelas regras, movimentação, ambiente e ética do esporte, para que o combate não vire um ato de selvageria. Não há necessidade de mostrar uma habilidade pessoal, pois isso será feito de qualquer jeito, pois as pessoas lutam de fato. A pessoa que está lá viu o que é a luta, e tem uma ideia ao menos do que seja, e a demonstração geralmente vem como parte objetiva na busca por um gesto técnico (reparem bem) real, dinâmico e de resultados verificáveis.

Já o vendedor profissional de defesa pessoal (tirando as exceções necessárias, uma vez que cada arte marcial ou tem um repertório de defesa pessoal ou a própria arte funciona como) tem a necessidade de provar que a fantasia que ele vende pode funcionar na prática, ainda que o fato de você ter sque usar o que sabe para salvar a vida por si só já demonstre o quanto a sua estratégia de prevenção foi fracassada. Por isso o "me bate que eu te mostro" é tão imprescindível; a habilidade do mestre em usar uma técnica "mortal" (obviamente o cara não vai te matar para mostrar, e muitas vezes nem mesmo seria capaz disso) de forma mais branda, derrubando, imobilizando, batendo num voluntário cria a ilusão que o mestre é o detentor de todas as respostas: mas e se o cara faz isso? "Zum!" E isso? Pá!!! A sonoplastia é também parte do show do mestre na maior parte das vezes. Não há qualquer garantia que a movimentação vá funcionar, ou que alguém da academia ou mesmo o professor tenha realizado o movimento numa luta de rua uma vez sequer na maior parte dos casos, ou mesmo seja capaz de reproduzir a técnica num combate amistoso com os alunos. Ou seja, você confia a sua vida a um tiro no escuro. Um tiro que, pelo menos na demonstração, tem hora, local e forma definida, justamente o oposto do ambiente chave para a validação da técnica/arte.

PORRA, BICHO, QUE PANCADA!!! VOCÊ VIU??!!!

Um grande amigo meu do passado havia ido a uma academia de Kung Fu, e logo vem a inelutável demonstração:
 - Mestre?
- Sim, filho.
- Mostre-me a pata do Dragão
- Pá!!!
- Mestre?!!!! Por que me bateu?
- Dragões nunca dormem, garfanhoto.

O soco de uma polegada, a pueril demonstração que Bruce Lee executava nos anos sessenta, uma mistura de biomecânica corporal e truque circense, valia-se do soco do Wing Chun para demonstrar que mesmo sem um grande espaço, uma pessoa pode gerar grande poder. A pessoa tomava um grande susto, na maior parte das vezes, recebendo um forte tranco para trás, ao receber o soco sobre um protetor e caia sobre uma cadeira colocada atrás dela , para dramatizar mais o truque. Outros tempos. No "me bate que eu mostro", a coisa pode ficar perigosa para o iniciante quando, sob pretexto de mostrar poder de punch, o mestre ou instrutor te desfere um golpe diretamente, e você gemendo , sentindo forte dor local torna-se a atração principal. "Eu (bato) te mostro". E tome torção. E tome chute na coxa. Soco na barriga, Pá!!! Nossa, quanto poder! Afinal, é toma lá, dá cá, você já teve a sua chance de bater antes.

Se alguém precisa te golpear sem te dar a chance de defesa para mostrar habilidade, com energia desproporcional ao objetivo da demonstração, você provavelmente está diante de um profissional inseguro, incompetente e, principalmente, que não se preocupa com sua segurança ou bem estar.

Obviamente há casos e casos, mas lembre-se quanto mais controlada (me bate!), difícil, cheia de malabarismos e com atos de violência é composta a demonstração das habilidades de um mestre de artes marciais, maior a probabilidade de ela não funcionar para você se realmente precisar, especialmente se você for uma pessoa comum, sem grandes habilidades ou força física. E que quanto mais um mestre está ávido para mostrar o que sabe, é bem provável que menos ele consiga colocar em prática o que demonstra. Um mestre realmente seguro não sente necessidade de se exibir.
















sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A NOVA REVOLUÇÃO QUE SE APROXIMA NO KUNG FU - por SiFu Marcos

Sifu Marcos em seminário com alunos de SiFu França

Nos últimos dias tem me chegado comentários de diferentes fontes e estilos de Wing Chun e Kung Fu de pessoas não satisfeitas com o trabalho de seus Sifu. Um recente texto na comunidade Wing Chun - Brasil do face, em que um praticante escreve um texto muito chocante no qual explica os motivos de seu desligamento de uma organização deste estilo é quase um resumo do que acontece em praticamente todas as escolas. 



Dia-a-dia de um SiFu que treina com os alunos de igual para igual


Não, não é nada que diga respeito nem à capacidade técnica, nem de ligação genuína com a fonte do conhecimento, num ambiente eivado de charlatões muito sofisticados e importados do exterior, mas da incapacidade destes mestres em relacionar o compromisso financeiro que estabelecem com seus seguidores e todas as qualidades intangíveis que são tão importantes para uma relação de aprendizado quanto qualquer fator econômico, como o respeito, a valorização do esforço, a ética, o sistema de premiação e graduação pelo mérito.



SiFu Marcos em sessão de fotos com sua filha primogênita


Kung Fu significa "Trabalho árduo". Quer dizer que neste processo, que não é fácil,devemos nos tornar indivíduos melhores. E que a figura do Sifu, o traduzido "Mestre-Pai" desta relação, não é apenas aquele que cobra, mas aquele que guia. Mas, pelo que sabemos, a figura do Sifu tem sido na prática a do sujeito que detêm um conhecimento altamente especializado que a todo custo tenta manter a sua reserva de mercado, ameaçando a todos que tentem pensar "fora caixa". E que ameaçam constantemente seus membros de desligamento, o que, no mundo do kung fu é considerado uma heresia: um praticante de kung fu sem um mestre seria um homem sem valor. E os indivíduos que estão nestes ambientes se embrenham numa busca pelo conhecimento do "completo sistema" a todo custo, empenham seu dinheiro, sua saúde, sua alma nisto, e se esquecem do sentido original das artes marciais, tornam-se escravos de uma busca que não tem honra, nem mesmo dignidade.




Treino diário = Dor


Há muito pouco tempo eu disse num fórum que a próxima revolução no kung fu no Brasil seria ética e moral, uma vez que já passamos pela revolução da informação a partir dos anos 90. O Sifu do futuro que já bate à porta deverá não apenas ter conhecimento, conexão genealógica, experiência e habilidade em luta, mas deverá ser ele mesmo um exemplo. Essa será a grande revolução em busca das origens do verdadeiro kung fu; não será o uniforme, a fantasia, a alienação com aspectos históricos duvidosos, mas a inteligência emocional, o fator psicológico, ético, a conexão profícua com a sociedade, o respeito às necessidades individuais dos alunos é que serão a tônica daqui para a frente.




Momento de descontração de SiFu, alunos e irmãos no kung fu de diferentes escolas


No mais, a quem tem conhecimento e está pensando em tornar-se um tutor, e um dia ser merecidamente reconhecido como um SiFu, um Mestre, eu diria para ao invés de fechar - como fez e faz a geração anterior e a nova desantenada com a nova realidade - abrir o conhecimento, para que o mercado se torne amplo e que as pessoas deixem de ser escravas de seus objetivos. Como profissional, como homem de família e guia de pessoas, eu digo que só tem medo de concorrência indivíduos inseguros, imaturos e incapazes. E ao praticante insatisfeito eu diria que a ousadia de mudar pode ser assustadora no começo, mas que não é de nada honroso seguir alguém que não te respeita, o teu esforço, o teu tempo, o teu dinheiro, a tua trajetória. Relações baseadas meramente em dinheiro são relações vazias e sem sentido. Se a sua relação com seu Sifu é assim, dê o fora. Ouse, não tenha medo de errar. Em algum lugar haverá alguém com tudo aquilo que imaginou. Passamos mais tempo tentando mudar gente que não vale a pena, do que realmente perder um tempo tentando achar alguém que a valha.




Certas imagens não precisam de enunciados

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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A FARSA DO HEK KI BOEN WING CHUN NO BRASIL



Ontem tive uma ótima conversa com o introdutor do HFY Wing Chun no Brasil - antes um adversário nos fóruns de internet - e hoje um amigo virtual que vejo com muito carinho, especialmente depois daquele susto de anos atrás em que ele e sua família foram fuzilados pela polícia do Rio de Janeiro, mas sobreviveram para contar a história. Pois bem. Agora Marcelo Alexandrino, juiz de direito, pai e cidadão dedicado é um praticante de Choy Li Fut muito satisfeito pois encontrou um mestre que domina todo o aspecto técnico, moral e filosófico daquilo que ensina. Contudo, mesmo distante de nossa arte, Alexandrino ainda se preocupa com os caminhos do Wing Chun.

Dispus-me, de alguns anos para cá,  em tudo ajudá-lo para desmascarar essa praga que cresce no Brasil a partir do nordeste que é a escola de

Hek Ki Boen Eng Chun ou Black Flag Wing Chun

Wing Chun de Benny Meng, que curiosamente parte de um conhecimento legítimo para enganar brasileiros com suas saladas marciais, que vende como o Wing Chun "original", além de vender diplomas dos estilos em que se formou (vide depoimento de ex-praticante na comunidade Wing Chun - Brasil no facebook), com a chancela de uma entidade fundada por ele mesmo, o Ving Tsun Museum, sediado em Ohio, US. Mestre de segunda geração algumas linhagens de Wing Chun originais vindas de Yip Kai Man (1893-1972), Meng encontrou um nicho de mercado ao explorar os anseios de praticantes insatisfeitos em suas escolas por todo o mundo e que gostariam de explorar novos horizontes e quebrar a forte reservada de mercado que é feita em cima dos estilos mais populares, derrubando preços e oferendo status que estas pessoas jamais teriam em suas escolas de origem. Ao procurar as origens históricas do Wing Chun Kuen, Meng conheceu e propagou versões históricas de outros estilos da arte e bateu duramente nas tradições do estilo de Yip Man, dividindo fortemente a opinião da comunidade Wing Chun internacional, não tanto por seu conteúdo, mas por seus métodos. Depois de romper com os líderes de dois destes estilos, acabou criando um estilo de Wing Chun misturado com Vikoga e Dezoito Mãos de Lo Han, este último um estilo Hakka provavelmente adaptado do Bak Hok Kuen (Garça Branca) e disseminado na indonésia. Até aí, tudo bem. Mas novamente Benny Meng passou a contar uma lorota que envolveria sociedades secretas chinesas e locais, ao invés de admitir que estava criando algo novo.

Marcelo, ao ver repetir-se a farsa novamente (ele foi aluno de Meng no Brasil no HFY antes de treinar com o grão-mestre deste estilo, Garret Gee), conheceu o professor do mestre (Lin Xiang Fuk) que hoje Meng promove, e com ele fez amizade. Ontem pude assistir a uma forma do estilo Dezoito Mãos de Lohan (filmada recentemente por Marcelo em NY e executada pela filha do mestre Tio Tek Kwie com habilidade, calma e precisão impressionantes) e pude ver mais uma vez o quanto nós brasileiros estamos sendo enganados. Posso afirmar categoricamente, como conhecedor de conteúdos avançados do sistema como Luk Dim Boon Kwan e Baat Jaam Dao, e estudioso da história e métodos de outros estilos de Wing Chun, que não há qualquer semelhança que sequer vagamente lembre uma defesa, uma postura, um gesto e sequer um soco de Wing Chun Kuen Phai, seja da linha de Yip Man, seja dos estilos de Foshan mais assemelhados ao Kung Fu de Siu Lam (Shaolin) na forma mais básica a que pude assistir.

Evidentemente não é um texto de internet que vai mudar este panorama. Gente dessa laia se vale da boa fé das pessoas, e, com seu discurso de seita e ancorado em valores caros às pessoas de bem, continuará crescendo. Mas é nossa obrigação social dar ferramentas para que as pessoas façam escolhas mais conscientes. Eu espero que Marcelo consiga no futuro a divulgação deste e de outros vídeos, uma vez que ele foi iniciado em Dezoito Mãos de Lohan, para fique ainda mais claro para o público que ama Wing Chun que nós não somos trouxas, que nós brasileiros sabemos distinguir dois estilos completamente diferentes entre si, se pudermos olhá-los com a devida honestidade. Segue abaixo um vídeo com legendas em inglês da entrevista em que Grão-Mestre Tio Tek Kwie expõe a farsa, admite que ajudou seu estudante no começo para ajudá-lo financeiramente, mas que ao reconhecer a gravidade de seus atos se arrependeu e pede desculpas a toda a comunidade Wing Chun internacional. Expor-se dessa forma humilde e reconhecer a gravidade de suas ações foi um grande ato de coragem e redenção da vida real que só reforça nosso amor pelo verdadeiro Kung Fu.




Eu pessoalmente não tenho qualquer vantagem com isto que não tenha a ver com mero dever cívico, como brasileiro, patriota, e praticante pobre que ralou e muito já foi enganado e enrolado, como muitos o estão sendo agora. Há muitos estrangeiros aplicando golpes de milhares de reais neste exato momento, com Wing Chun e muitos outros estilos. Muitos garotos estão neste momento trabalhando para pagar por este conhecimento fajuto. O Wing Chun, já tão pouco respeitado no mundo das artes marciais por sua ineficácia em 90% das escolas, não merece isso aqui no Brasil. Ademais, por mais que me preocupe com as pessoas que são enganadas por este lixo, este perfil de praticante não é do tipo que aceito em minha escola, uma vez que não recebo estudantes para se deslumbrarem com histórias inventadas e fantasiosas de sociedades secretas e outras baboseiras que nada tem a ver com treinar muito duro e fazer uma escola de fato. É por respeito a estas pessoas e minha arte que posto, mas elas teriam de amadurecer demais para treinar comigo ou qualquer outro que faz arte marcial com seriedade. Que elas se reconheçam como lesadas e tenham coragem de encarar um novo começo. A farsa montada por Lin, Meng e seus asseclas (vítimas? Nem todos, mas quem somos nós para saber) brasileiros é elaborada para seduzir e enganar pessoas de boa fé que acham que fazer parte de uma suposta tradição é que é o legal, quando na verdade a única atitude que efetivamente honra o passado é o nosso comportamento no presente. E como estão sendo o Wing Chun e o Dezoito Mão de Lohan desonrados!







sexta-feira, 19 de julho de 2013

DEFESA PESSOAL, A FALÁCIA DA PILANTRAGEM MARCIAL - Terceira Parte - I.

"Estou encrencado", penso depois de tomar mais um soco cabeça, naquela confusão de seguranças a me empurrar, socos e chutes vem chegando já meio que sem intervalo entre eles, de todos os lados, tudo começa a girar, mas estes golpes ainda são relativamente fáceis de defender com pequenas esquivas, que faço quase que automaticamente. Meu orgulho está bem ferido, mas eu não tenho um ponto de fuga, de forma que brigar contra um mar de gente está  fora de cogitação neste momento. O problema são as porradas que vem por trás, na covardia, chutes e golpes de bastão retrátil. De fato, eu tenho de decidir rápido se vou brigar ou continuar a me fingir de imbecil até chegar a um lugar em que haja um ponto de fuga. Brigar talvez não ajude, afinal eu estou meio bêbado e, agora, meio grogue com as porradas. O pior de tudo é não ter um ponto de fuga, pois até para brigar contra esse monte de gente e ser surrado com algum resto de brio, é preciso triangular entre os adversários e, depois de um segundos e bater o quanto puder, terei de correr e fugir, e se der sorte isolar alguns deles e bater à vontade de forma a descontar as porradas sofridas. Seja como for, sinto que isso não vai rolar, e sair dessa sem ir direto para o hospital - ou para o cemitério, já seria de bom tamanho.

SiFu Marcos executa Jong Sao a guarda simbólica para conflitos irrestritos (de rua) do Wing Chun Kuen: ações coordenadas por uma sistemática que foca a estratégia na prevenção e considera até mesmo a fuga e o logro como táticas importantes.

O cara baixinho que está comandando o show está bem confiante. A princípio, quanto ele se colocou, ainda dentro do galpão, em minha frente, com um sorriso arrogante no rosto, a única coisa que o salvou de um golpe imediato foi eu não ter divisado bem se o objeto que ele colocou apontando para meu queixo era ou não pontiagudo, o que, ao contrário do que dizem os "especialistas em defesa pessoal" realmente impede o sucesso de um contra-ataque na esmagadora maioria das vezes. Não existe defesa contra objeto perfuro-cortante que garanta eficácia, portanto é melhor não dar chance ao azar. O fato de ele ser aparentemente o chefe da segurança em nada me intimidou, mas fato dele estar confiante demais fez com que eu o superestimasse um pouco talvez. Sei bem que se você bate forte no alfa, todo o resto do grupo enfraquece. Mas agora ele grita para eu abaixar o rosto e não olhar para ele, ameaçando golpear, uma tática militar que funciona bem com armas de fogo. Fico imaginando se ele era policial. À medida que chegamos perto da porta, eu ganho o espaço que eu não tinha, e um provável ponto de fuga. Quando olho para o fundo da turba, mais um grupo de seguranças chega, e penso "putz, tá ficando pior"...

... Foi aí de repente senti os caras recuarem. Eu tinha de sair, e a porta foi aberta. Ganhei espaço para brigar. Comecei a ganhar um pouco mais de confiança ao perceber, tardiamente, que os caras estavam com medo. É, medo. "Vocês realmente precisam de mais de quinze pessoas para botarem um só homem para fora do show, vocês são realmente corajosos!", comecei a dizer olhando direto para o cara. Foi aí que, sem qualquer interferência da consciência, fiz o único movimento de arte marcial até então; levantei meu braço esquerdo por cima de minha cabeça, enquanto girei minha base toda a 45 graus em Chor Mah (para a direção de um brilho súbito vindo da minha lateral esquerda. Um objeto duríssimo explodiu contra o meu antebraço armado em Jam Sao (沉手) tão rápido quanto violentamente, provavelmente uma barra de ferro, e caso eu não fizesse a defesa teria sido atingido no rosto, caído no chão e aí sim teria sido almoçado pelos caras, pois para caras frouxos chutar um adversário rendido é muito mais seguro.

Lucas Forrest aplica Chai Gerk. Lucas é um dos muitos alunos de SiFu Marcos que aplicou a técnica do sistema Wing Chun tradicional para defesa pessoal, nocauteando seus inimigos: técnica tem seus limites na rua, mas está longe de ser ineficaz.


"Não vou sair", eu disse, enquanto muitos deles já retornavam, orientando-me com ameaças não olhar para eles, que fizeram um gesto para voltar meio a contra gosto, uma vez que não compensava nem para eles nem para mim, arriscar. Mas, sentindo o medo deles, havia ganhado confiança, e estava a fim de descontar. Foi então que um cara que mais parecia o vocalista do Judas Priest disse: "Ah, não vai sair não, é? 'Pera' aí..." Ele pegou um objeto envolto num saco de pano vermelho, enfiou a mão por dentro e segurou como se empunhasse um revólver, colocando-o bem defronte meu nariz.

***

Ninguém entendeu depois o orgulho que tive dos meus machucados, patética que tenha sido a situação, mas o fato é que as coisas estão diferentes agora. Tenho duas filhas pequenas precisam de mim, uma delas era recém-nascida na época, e eu nem mesmo entendi o porquê de ter sido alvo daquela violência, ao menos daquela vez, de forma que não posso mais arriscar sequer estar envolvido neste tipo de situação. Passei dois meses sem conseguir defender chutes com o braço esquerdo com suspeita de fissura na região, mas confirmei que tanto a técnica que usei - repetida à exaustão na semana anterior com meu aluno Orlando que treinou boxe e tem braços muito rápidos - quanto outras podem funcionar se treinadas do modo correto.

Pelo menos cinco alunos e alguns SiDai* haviam tido sucesso em brigas de rua simples - Se é que se pode dizer que brigas podem ser simples apenas - com o treino que eu lhes havia ministrado, baseado na repetição contínua de técnicas, dezenas, centenas de vezes, tentando conecta-las numa evolução de conceitos parecidos; Por exemplo, se eu fizesse algum Chi Sao (黐手)** (exercício de reflexo com os braços colados) que estimulasse a cobertura instintiva com um tipo de defesa, essa mesma defesa seria a defesa repetida na técnica de luta. Entretanto combates irrestritos ou de rua são tão sujeitos a variantes diversas - e adversas - que tudo o que pode fazer é estar antenado com o que pode acontecer de ordinário num evento destes, e torcer para que aquele aspecto do treinamento cole com a situação ou, melhor ainda, possa ser adaptado a ela. De fato, todas as cartas deveriam jogadas mais na antecipação, interceptação e frustração do conflito do que no enfrentamento puro e simples. Nenhuma pessoa de bem será atacada em igualdade de condições, de forma que estar no meio de um conflito, ainda que se lhe vença, já denota um erro tático por parte do defensor, que se colocou na situação de desvantagem.


***

Estou na Academia Aliança, num breve intervalo do treino, tentando mostrar ao Hugo "Wolverine" Viana, atleta do UFC o nosso golpe "de encontro" - no jargão boxe, na versão que usamos no Applied Wing Chun. Essa técnica fora usada numa briga por meu aluno Lucas Forest contra um agressor mais alto e descrita pelo porteiro do condomínio dele, um ex "67" promissor da academia do Luiz Dórea, hoje treinador principal do Hugo e treinador de lendas como Acelino Popó Freitas, Minotauro Nogueira, Anderson Silva, Júnior Cigano e outros tantos campeões com o boxe . A diferença do golpe do Wing Chun para o do boxe é rápida troca de pernas que potencializa o golpe, uma que por questões estilísticas ruins de expressar agora, muitos de nós lutamos com uma guarda que deixa braços e pernas mais fortes à frente. Às vezes a necessidade do ringue coincide com a da "rua" e isso me faz pensar nas diferenças e similaridades entre os dois ambientes de combate, mas um evento recente, que ocorreu durante as semanas da feitura deste artigo me deu ferramentas mais ilustrativas para expor meu pensamento.

Hugo "Wolverine" Viana, treinado por Sifu Marcos em Wing Chun aplica cotovelada Pie Jian em combate no UFC: conexões da arte marcial com o ringue seus tem limites. E vice-versa.

Como havia dito na primeira desse ensaio, a falta de um sistema que padronize um conjunto de ações e táticas para combater em um ambiente aberto dificulta mais as coisas. Houve recentemente uma grande repercussão na mídia de um vídeo filmado por câmeras de segurança (vide link abaixo) onde dois rapazes, lutadores profissionais de MMA, são arrasados como simples leigos numa briga de rua por um grupo de rapazes. Muitos profissionais de ensino de lutas discutiram o evento sob o ponto de vista moral; a postura inadmissível dos rapazes etc. Como profissional cujo foco inclui também a "defesa pessoal", este termo canhestro, deixei o julgamento pessoal para o segundo plano e, depois de analisar o conflito do ponto de vista tático e técnico, fiquei imaginando que os vendedores de cursos de defesa pessoal completamente ineficazes estão com um prato cheio nas mãos; se um lutador de MMA se dá mal numa briga de rua, não sabe lutar a luta "mortal" das ruas, tenho eu - o leigo impressionável - de procurar algo mais perigoso, uma arte marcial ou método de defesa e não um esporte de combate que não funciona numa luta sem regras.

Este, entretanto, é um pensamento perigoso se aceito sem ressalvas. Se pessoas que tem um físico preparado e estão frequentemente expostos ao combate profissional falharam, porque um praticante de defesa pessoal com um físico mediano e outras limitações que provavelmente nunca lutará pra valer no ambiente a que se propõe seu curso (e muitas vezes sequer na academia) faria melhor? Muito se falou do ocorrido, mas nada com objetividade que a situação merece. O vídeo também tem servido àqueles que dizem que arte marcial alguma serve para a defesa pessoal, e que a prática serviria apenas à manutenção da saúde e fortalecimento do espírito, valendo mais rezar para um dia não se vir em uma situação para a qual não há solução aparente.


Lutadores profissionais de MMA apanham de grupo: praticantes de cursos de defesa pessoal teriam tido melhor sorte? 

O vídeo todavia nos dá algumas lições. A primeira é que quando se luta no ringue você tem um alvo, e a sua postura, sua distância e seu ritmo são dados por este adversário à frente. Se a sua postura de combate, movimentação e ritmo continuam as mesmas no combate irrestrito, o potencial que os agressores derredor tem para te acertar aumenta vertiginosamente. O mais perigoso dos agressores do vídeo não está entre os rapazes que estão brigando diretamente, mas o rapaz do "deixa disso", um malandro que fica circulando e procurando uma oportunidade de agir. Se, no começo do vídeo, este agressor, de jaqueta vermelha, tivesse uma faca, o rapaz que provocou toda a confusão estaria morto. Por isso, num conflito inevitável, qualquer um que invada seu espaço pessoal deve ser visto como agressor, direto ou indireto, e é alguém igualmente perigoso como os demais. Isso é só um exemplo óbvio da "cancha" que não se ensina nos tatames. Os rapazes do MMA são ironicamente colocados fora de combate com golpes de barrote de madeira simples, lentos e de teoricamente mais fácil defesa que os chutes e socos desferidos de todos os lados.

Brigar com base estável e com domínio de "ringue", algo imperativo no esporte de competição "mano a mano", perde totalmente a eficácia quando é considerado um número elevado de agressores cujos ataques vem de diferentes ângulos e muitas vezes ao mesmo tempo. Nestas situações, qualquer ação ofensiva deve ter a fuga como princípio, meio e fim. A falta de uma discussão técnica em torno do conflito, somada a uma profusão de frases feitas jogadas ao vento para tirar proveito do momento, seja contra ou a favor apenas confirmam o amadorismo dos profissionais que assim procederam. Pelo menos se considerarmos a preocupação com a eficácia dos sistemas de combate, já tão limitados nos dias de hoje devido às armas de fogo e outras variáveis, porque a pilantragem do discurso, do marketing e da proliferação de falsos mestres e métodos de eficácia comprovavelmente duvidosa, mas que prometem justamente o contrário e o viés novo, embora menos perigoso de que a arte marcial não poderia nada fazer para proteger alguém numa situação de perigo, mas que seria uma simples patuscada filosófico-calistênica, estão aí arrebanhando incautos aos milhares.

Continua com a última parte.

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Nota: *Si Dai (mestre-irmão-mais-novo): diz-se do condiscípulo mais jovem do praticante.
**Chi Sao (Braços Grudados): Exercício de pressão mútua e circular dos braços de um par de praticantes num jogo combativo que visa treinar a mente para conduzir a ações simples e automáticas de defesa e ataque de acordo com os princípios técnicos de Wing Chun, sem entretanto que se pense conscientemente nos mesmos.


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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Golpes de Wing Chun: GAHN





Depois de algumas semanas sem internet e após um treino em meu Mo Gwoon extremamente proveitoso com meus alunos, e ainda sob o efeito geral de felicidade que decorre nestas ocasiões, estávamos pensando em tirar algumas fotos, mas eu queria algo que não fosse tão óbvio nestes tempos de vídeos e mais vídeos que pretendem mostrar e explicar tudo, de forma que muita gente hoje consegue construir escolas de luta simplesmente copiando movimentações fartas de estilos na internet. Ironicamente um vídeo da equipe de demonstração da Applied Wing Chun Internacional, com alguns de meu SiBaak (Tio-mais-velho na fam[ilia kung fu)
disseminado está semana pelo facebook mostrava uma combinação muito boa com uma técnica que pouca gente consegue fazer bem, ou pelo menos entender-lhe o conceito. Sendo assim, pensando em muitos de meus alunos que estão na fase intermediária de Sil Lin Tao para Chum Kiu, resolvi escrever sobre o conceito de Gahn, que é expresso em todas as fases do sistema.





Sifu Marcos demonstra Seung Gahn Sao no Sil Lin Tao (foto 1) como foco de energia para baixo. Na sequencia acima, no final da forma trabalhando a "raspagem" com objetivo de cobrir a área baixa. Abaixo, Gahn Da, uma das formas mais simples dos iniciantes associarem ideias de como "montar" técnicas com os elementos soltos nas formas de Wing Chun, sempre um convite ao insight intuitivo.




"Gahn" ( 耕 ) pode ser traduzido como "Arar", pois quando o movimento é completo (quando utiliza as duas mãos) mimetiza o gesto do verbo, e é um dos principais conceitos defensivos do Wing Chun. Porém, curiosamente esta defesa muitas vezes se utiliza de um recurso que nós praticantes devemos evitar sempre que pudermos: usar força contra força. Essa defesa é o primeiro gesto técnico defensivo conceitual apresentado na forma Sil Lin Tao, e, neste primeiro momento, cobre a região que vai do esterno até a cintura pélvica. No primeiro nível, a defesa, complexa, é montada de seu modo mais simples, defesa baixa com soco, e a defesa superior é treinada separadamente em outra sequência (vide blog do Dido "três ataques) e eu acredito particularmente que foi o gesto simples de cobrir a parte baixa e bater ao mesmo tempo que tenha gerado a defesa sofisticada que fazemos hoje, influenciada também pelo gesto natural de defesa que nós fazemos quando atacados  na parte superior do corpo sem, entretanto, estar num ângulo favorável para direcionar a defesa para o ataque em curso. Isso força que se cubra toda a área, especialmente quando se enfrenta um agressor armado. Esta ideia é particularmente útil quando utilizamos as Baat Jaam Dao (Faca de Oito Cortes), que sempre trabalham em conjunto, como veremos adiante. 







Nas fotos acima podemos ver a forma completa do conceito defensivo "Gahn Sao" (vista frontal e lateral) e, em seguida, "Siu Gahn Sao", esta ultima uma variação de emergência que segue o mesmo conceito da defesa original. 








Acima, SiFu Marcos demonstra com detalhes sua execucao pessoal de uma combinação técnica: Gahn Sao cobrindo a parte baixa, seguido de defesa Jip Sao, soco Din Choi e chute Dang Gerk

A forma completa da defesa Gahn Sao ( 耕手 ) é apresentada formalmente ao praticante a partir da terceira forma, Biu Je, forma na qual o lutador de Wing Chun foca no treinamento para situações de emergência, tendo de cobrir a sua "linha" de diferentes ângulos e posições. Nesta forma, muitos conceitos cristalizados durante a primeira e segunda forma devem ser adaptados para ajustarem-se a realidade, por isto Gahn Sao quando mostrado na sua forma mais defensiva supõe que o executante nao teve outra opção senão cobrir toda a área passível de dano. Uma variação sutil desta defesa, Sil Gahn Sao ( 小耕手 ), que é feita naturalmente quando algo dá "errado" é treinada a partir daí, sendo uma das defesas mais repetidas na forma Muk Yam Jong (Boneco de Madeira).

Tentar fechar toda uma área do corpo ao ataque traz consequências, especialmente se voltamos todo o nosso corpo para realizar a defesa; por isso a melhor forma de voltar ao equilíbrio defensivo com as mãos é mudar a postura do corpo para que o agressor, que teve a vantagem do ataque surpresa, não encontre brechas para o ataque (vide combinação dois a dois acima, e mais vídeo com a técnica).






Nas fotos acima, SiFu Marcos demonstra respectivamente Gahn Sao e Siu Gahn Sao em Muk Yam Jong. 





Uma bonita sequencia em que SiFu Marcos demonstra uma possivel interpretacao do conceito em Luk Dim Boon Kwan (1 e 2), arrematando de forma mortal com Biu Kwan. Para quem chegou aos niveis superiores dos sistema e estranhou SiFu Marcos com o cotovelo levantado em Biu Kwan, vide matéria sobre esta arma neste Blog.



Abaixo, SiFu Marcos defende um ataque pra la de amador de um aluno iniciante com sua velhas e enferrujadas facas de treino (sem fio), para ilustrar o conceito de Gahn Dao em Baat Jaam Dao (Facas de Oito Cortes). Repare que a defesa e forte para suportar um ataque pesado, por isso a arma tem uma guarda extra na empunhadura caso o ataque passe pelo meio da defesa.



Por fim, SiFu Marcos agradece a seus queridos alunos Ilo e Telmo que ajudaram a fazer esta matéria depois da aula, madrugada a dentro, sem internet, sem editor de fotos. Cansados e felizes. Dedico esta matéria a meus alunos pelo Brasil, em especial a Dido, Fernando e Kalil.










segunda-feira, 29 de abril de 2013

COMO ME TORNEI UM PRATICANTE DE WING CHUN - por Kallil Rabelo Moraes.

Kallil com seus SiFu Marcos e SiBaak Cleber Domingues após treino matinal



Esse é um depoimento que diz a respeito de como tomei conhecimento sobre o Kung Fu-Wing Chun e sobre minha viagem a Salvador para o treinamento com o Mestre Marcos Abreu.
Há alguns anos atrás eu pesquisei na internet sobre vários estilos de Kung Fu; dentre eles, um me chamou atenção mais do que os outros, o estilo wing chun. Dentre outras informações dizia que Bruce Lee já foi praticante deste estilo e que o próprio o tomou como base para criar o Jeet  Kune Do, sua própria arte marcial.
Dentre as características que me identifiquei com o Wing chun uma foi, por exemplo , a inexistência de movimentos acrobáticos e que podia ser praticado  por qualquer pessoa, não importando seu porte físico. Interessei-me por Wing Chun sem saber da existência de filmes sobre Yip Man*
Na minha cidade atual, no interior do maranhão, só existia como arte a capoeira da qual nunca me interessei em praticar. Certa vez até apareceu na cidade por um curto período de tempo, um professor de Karatê, entrei pra esta escola, mas também não me satisfazia como arte marcial, porém continuei frequentando as aulas. O Sensei era muito Legal; contudo, teve que ir embora pra sua cidade natal Brasília.

De vez em quando vou à cidade de Teresina-PI. Ainda na minha cidade pesquisei novamente sobre Wing Chun e se havia alguma escola ou praticante nesta cidade. Fiquei sabendo de dois grupos, entrei em contato por e-mail com o primeiro e ele me explicou: Olha nós treinamos Wing Chun , mas somos um grupo fechado e não estamos aceitando iniciantes, mas conheço outra turma que treina. Então ele me deu o telefone do responsável pelas aulas na outra escola, ele foi simpático comigo e disse que eu poderia assistir a uma aula quando eu fosse à cidade. Passou-se alguns dias e quando deu certo pra eu conhecer a escola não era o mesmo instrutor que dava aulas era outro, me apresentei e disse que tinha conversado com o instrutor anterior, ele meio que desconfiado, deu pra perceber, mas deixou eu assistir a aula,  do mesmo jeito que era os alunos que treinavam com ele, no final da aula perguntei a um dos alunos se eles treinavam só naquele local e ele me disse todo orgulhoso que não era bom treinar em qualquer local para evitar que outros copiem suas técnicas. Nunca mais voltei lá.




No meu retorno à minha cidade ainda na rodoviária de Teresina, olhei na vitrine de uma banca de revista e vi um livro de cor vermelha com o nome KUNG FU-WING CHUN, não deu tempo de comprá-lo porque o ônibus já estava de saída, fiquei pensando se quando eu retornasse aquela banca se ainda encontraria o livro. Passaram-se alguns meses e quando voltei eu fui direto pra banca mas não encontrei o livro. Fui para casa de parentes e no outro dia quando ia ao centro que eu peguei o ônibus coletivo pra ir ao centro passando algumas quadras depois lá está o livro em outra banca de revista, parei na parada seguinte e o comprei.
O livro se chamava KUNG FU-WING CHUN A ARTE MARCIAL TREINADA POR BRUCE LEE de autoria de Marcos Abreu. Achei o livro interessante, fala da história do Wing Chun, seus grandes Mestres, contem fotos de algumas formas e técnicas.

Até hoje o livro é referência para leigos de todo o Brasil


Fui obter mais informações sobre o Mestre Marcos e achei uma entrevista sua num site chamado BLOG DO DIDO, nela o mestre falava sobre sua visão desta arte marcial no Brasil, sobre sua viagem à China para treinar com a Sétima Geração do Wing Chun , entre outros assuntos interessantes. Depois de ler esta entrevista pensei em achar um meio de conversar com ele para ver a possibilidade de eu aprender esta arte marcial.Consegui achá-lo através de uma rede social e falei que tinha muita vontade de aprender a arte marcial Wing chun, então ele me deu seu numero de telefone e disse: “Vamos conversando sobre a possibilidade de você vir a Salvador para, um dia, treinar”. Passam-se alguns meses, e eis que chega a data do meu treinamento, na segunda semana do mês de abril de 2013, viajei de Teresina a Salvador, foram mais de 20 horas de viagem.

O blog do Dido é um dos mais importantes blogs do Wing Chun brasileiro



Fiquei hospedado no Mo Gwun** , um local modesto mas com os equipamentos necessários para um bom treino. Confesso que foi uma semana difícil, não estava na minha melhor forma, apesar dos avisos do SiHing Dido, mas mesmo assim me esforcei bastante.O Mestre tratou de me ensinar as teorias, bases e técnicas do 1º Nível e também me falou sobre os valores e costumes do Wing Chun. Sifu Marcos Abreu é um Mestre de treino, ele treina com a mesma dedicação que ensina seus alunos, e não esconde técnica, o que ele sabe ele ensina e quer que o aluno aprenda de verdade. Com freqüência me dizia: “Eu estou lhe ensinando a técnica, porém, cabe a você treinar exaustivamente pra ter o domínio  até que se transforme num movimento natural  na hora de sua aplicação”.

Fernando Lempê veio antes de Kallil. Ele veio da distante Manaus atrás do sonho de aprender um wing chun que  realmente funciona. Este vídeo mostra parte do que aprendeu em uma semana apenas de treino.

Outro fator marcante foi a forma como fui tratado pelos alunos do Sifu em Salvador, os caras foram super legais comigo, bem diferente de como fui tratado quando fui ver o treino da outra escola onde o pessoal era puro orgulho e arrogância. Aprendi também que na Applied Wing Chun Salvador de Mestre Marcos que Kung Fu não é só luta, Kung Fu é amizade e companheirismo, é a forma como você deve tratar bem as pessoas.

Quero agradecer aos pais do Mestre que me acolheram em sua casa e me trataram super bem, aos amigos que fiz durante minha permanência em salvador. Conheci também um grande Mestre de Kung Fu Hung Gar, o Mestre Cléber Domingues. Estou muito satisfeito por ter treinado com um autentico Mestre de Wing Chun Kuen, tenho muito que aprender pela frente, mas o que eu aprendi pretendo praticar bastante, ficarei aguardando a próxima oportunidade de ir a Salvador dar continuidade ao meu treinamento.
     
*Yip Man foi o mestre (SiFu) de Bruce Lee. Recentemente muitos filmes tem retratado sua vida
**Mo Gwun ou Ginásio Marcial é nome de um local tradicional de treino. Notas de SiFu Marcos.







sexta-feira, 22 de março de 2013

Campeão do K1 treina com SiFu Marcos

Começou ontem na Academia Aliança, no bairro da Pituba em Salvador o trabalho de Wing Chun voltado para o MMA com o três vezes campeão de Luta de Contato Kyokushin Oyama e do K1 World GP Ewerton Teixeira, de 31 anos. Em parceria com o preparador físico Leonardo Chamusca, o trabalho visa a preparação do atleta para uma melhor adaptação ao ambiente de lutas mistas. Esta parceria mostra o respeito que SiFu Marcos vem tendo no mundo da luta, fruto de um trabalho que visa a recuperação da imagem do Wing Chun entre os artistas marciais sérios. "É um trabalho muito sério o do Marcos, importante para todo o Wing Chun" observa Mestre Li Hon Ki, que trouxe a luta para o Brasil 34 anos atrás e que treinou Marcos privativamente por 8 anos, tornando-o a Nona geração deste sistema de combate que está mais voltado para a luta irrestrita, ou seja, aquela que ocorre fora do ambiente de competição, não tem regras e é potencialmente letal. "Quando vi na China alguns dos mais técnicos lutadores de Wing Chun do mundo atuar contra campeões mundiais de Muay Thai, logo notei que o melhor ambiente em que podemos atuar em combates esportivos é o MMA, ao invés das competições mais boxeadas, pela maior proximidade técnica com a luta de contato total. "Quando menos regras e mais intenso o combate, melhor tecnicamente para o Wing Chun", Assevera SiFu Marcos, que no entanto vem tendo dificuldades de adaptar o Wing Chun por conta das regras do UFC, competição em que atua com o lutador Hugo "Wolverine" Viana, que está indo para sua terceira luta na competição. O Wing Chun foi decisivo na primeira luta do atleta no TUF Brasil. 

segunda-feira, 18 de março de 2013

POR QUE O WING CHUN NÃO TEM RESULTADOS EXPRESSIVOS NO RINGUE?

PRÓLOGO

Durante estes últimos anos como escritor, o ponto central da minha carreira tem sido explicar ao público brasileiro qual a proposta real do Wing Chun dentro do mundo das artes marciais, em particular do ponto de vista técnico. No Brasil e no resto do mundo, tendo como  ponto de partida a carreira meteórica de Bruce Lee no cinema, há mais ou menos quarenta anos que o Wing Chun vem sendo vendido por seus mestres e professores como o "melhor estilo" de arte marcial. Entretanto, no começo dos anos 90, a ascensão da família Gracie em escala mundial com os torneios de MMA, e as derrotas humilhantes que alguns lutadores de Wing Chun sofreram nestas competições fizeram rapidamente com que os poucos profissionais que realmente ganham dinheiro empresarialmente com a arte tivessem de encontrar outros caminhos para divulgar seu produto. Assim sendo, o Wing Chun passou a ser vendido com a alcunha de arte marcial "realista", que apesar de não ter grandes resultados expressados no ringue, seja de MMA ou torneios de contato total, teria totais condições de defender seu praticante numa briga de rua, onde não há regras ou limites de tempo, modo de lutar etc.



   



   

Colocado de outra forma, podemos dizer que ficou cômodo demais para nós. Superestimamos nossas habilidades, falamos bobagens, e para ficarmos bem bastou mudarmos o discurso para que os problemas relacionados à nossa prática fossem varridos para baixo do tapete. De fato, o Wing Chun ficou conhecido na China por seu sucesso nas brigas de rua, em especial na Hong Kong dos anos sessenta quando alguns alunos de Yip Man conseguiram fazer frente a praticantes do estilo Choy Li Fut, que dominavam com folga estes embates. Mas foram outros tempos e o modo de lutar mudou no mundo inteiro. De lá pra cá o Choy Lee Fut cresceu tanto nas competições quando como sistema de defesa pessoal, enquanto o Wing Chun hoje é visto como uma piada no mundo das artes marciais de competição. Diante disso, o cara que realmente ama Wing Chun se pergunta: Por que nossa arte não vai bem nas competições? E uma vez que não, será que ela realmente teria utilidade num conflito que, embora provavelmente menos especializado, é potencialmente mortal como uma luta sem regras? Há alguma validade real na prática? Posso confiar no que faço? Por incrível que pareça a resposta é mais óbvia do que se imagina, e se o praticante de wing chun ou leigo lerem com atenção este artigo, não terão mais dúvidas sobre este assunto.

Vejamos a sequência de fotos acima. Nela, escolhi um tipo de movimento natural de defesa comum tanto ao Wing Chun quanto ao Boxe ocidental, mas vamos analisar como a coisa seria feita primeiro numa luta especializada em ringue como boxe que também já pratiquei de forma amadora (cheguei a ser cogitado para um futuro hipotético na seleção brasileira, mas parei pelo caminho e hoje me arrependo) , mas cujos movimentos também servem para a situação de "rua".  Na foto 1, o atacante esboça um gesto de ataque em que o defensor, de branco, também boxeur, faz um pequeno movimento com o tronco para trás (foto 2) apenas o suficiente para deixar morrer o golpe do atacante, para que volte com uma sequência de 1, 2 (Jab de esquerda e direto de direta). Mais ou menos como um "joão bobo". Como as fotos foram feitas de movimentos naturais de combate sombra, a sequência fica bem espontânea, natural (o modelo não aceitou ser atingido, repare na esquiva e no olhar dele, olho de tigre, o Sifu imaginando se deveria voltar com cruzado, rs). Nesta primeira sequência, a única preocupação do boxeador é estar  longe apenas o suficiente para colocar sua sequência, a defesa é a mais natural possível, e só um elemento de variação que tem a ver com os seis golpes (Jab, direto, ganho, uppercut e dois cruzados) já conhecidos de braços que possam ocorrer entre os dois competidores. Agora, vamos ver abaixo a  resposta do Wing Chun a um ataque parecido, usando a mesma inclinação para trás como defesa principal:













Na primeira foto, o defensor, lutador de Wing Chun, que numa situação rea.. ops, irrestrita (porque uma luta do UFC não seria "real"?) supondo que não quisesse ou esperasse o conflito seria atacado provavelmente de surpresa, e sem dados para saber exatamente o que fazer, inclina seu tronco para trás, numa defesa muito semelhante à da primeira sequência. A defesa Gip Sao significa "receber", mas não tem a função específica de defender o golpe, mas cobrir a área onde provavelmente o golpe poderá passar. Agora note, ainda na primeira foto, que a mão direita do defensor faz um movimento descendente passando por toda a região abdominal. Ou seja, a mão esquerda cobre a área alta enquanto a direita, a baixa. Assim, naquela área escolhida para ser coberta, a defesa principal, assim como no caso do Boxe, foi a esquiva, mas no caso do Wing Chun um movimento a mais foi feito, pois numa situação real,  você tem muito mais fatores para observar. Supondo, por exemplo, que o primeiro golpe tivesse sido, ao invés de um jab de esquerda, uma estocada de objeto perfurante na barriga, como uma faca ou uma chave de fenda, o praticante de Wing Chun poderia até ter a sua mão cortada, mas certamente teria mais chance de evitar um golpe potencialmente letal. Da mesma forma, uma paulada na cabeça teria seu afeito atenuado com defesa esquivante de cima. Para o lutador de wing chun, não importa onde será o golpe, ele deve cobrir toda a área. O maior erro dos praticantes de Wing Chun é querer "ver" os golpes e isso definitivamente não funciona. 

Na segunda foto, o contra-ataque é um soco típico do Wing Chun com o corpo de lado, pouco conhecido na maior parte das escolas chamado Din Choi (Soco de Batalha) e cuja estrutura e origem provável no templo Shaolin foi discutida neste blog no ano de 2011 no texto sobre  Luk Dim Boon Kwan. Durante e execução deste soco o braço esquerdo do defensor é violentamente puxado para trás com o objetivo de potencializar o giro e fazer com que o braço da frente o alvo com um efeito de chicote. Há um modo um pouco mais defensivo, fechado, de mostrar essa mesma técnica, a mão esquerda ficaria na guarda mas fiz questão de mostrar como isso seria feito pelo iniciante, ou seja, com o golpe no seu máximo de potência explosiva.  Na última foto, um exemplo ainda mais contundente do que poderia ter sido o primeiro movimento do lutador de Wing Chun que procura defender e atacar ao mesmo tempo sempre que possível. Ele executa Tiu Gerk "Perna que se levanta" pegando a mesma energia que o levará para trás para fazer um forte pisão no chão que servirá de pivô para transferir a força de todo o corpo para o peito de seu pé direito mandado às partes baixas do adversário. Muitos profissionais de Wing Chun gostam de falar de golpes baixos no wing chun, mas não sabem como a própria estrutura de funcionamento do sistema contribui tecnicamente para isso. Afinal, qualquer idiota sabe dar um chute baixo e, do mesmo modo, qualquer um que tenha dedos pode tentar levá-los aos olhos de alguém na hora do desespero. Não se trata do que se pode fazer, mas como o ritmo e a estrutura para a qual a arte foi criada/adaptada guia o processo. Quanto mais o agressor entra com toda a sua força, de um modo forte e pouco pensado, melhor ficará para o lutador de Wing Chun. 


EPÍLOGO

Em qual das duas situações o praticante de Wing Chun que leu este artigo acha que há uma melhor eficácia do ponto de vista energético? E técnico? Quantos golpes sequenciais podem ser melhor colocados nas duas situações? Não há um resposta pronta, há que se refletir um pouco para fixar, mas aposto que este artigo lhe dá uma luz nova sobre um assunto velho, lhe deixou mais tranquilo. Como um sujeito que praticou das duas lutas e treinou diariamente as duas situações e muitas outras semelhantes, posso dizer que o jeito do boxe tem uma defesa mais simples e prática e a possibilidade de ter o corpo mais livre para golpear em sequência, pois os golpes - seis somente-  e os limites técnicos estão definidos . A reação do lutador de Wing Chun exposto ao conflito irrestrito exige que ele tenha uma solução geral para problemas potencialmente  mortais (embora você na maioria das vezes irá sair apenas com um olho roxo, um combate de ringue com alguém preparado para você, na sua idade, no seu peso e preparo físico pode ser muito pior) e inesperados na ação, mas que tem um custo funcional adicional. O lutador de boxe sem noção de cobertura com os membros terá dificuldades amplas caso ele seja exigido fora de sua área, enquanto o de Wing Chun terá uma limitação mediana em todos os aspectos, mas será como um carro que anda bem em qualquer terreno. Em nenhum dos dois casos se ganha algo sem se perder outra coisa em troca. A ação do lutador de Wing Chun deve ser mais ampla e sofisticada na defesa e o ataque, uma vez que devemos supor que nosso adversário tem algum tipo de vantagem sobre nós, deve ser simples porém decisivo. Analisando deste modo, não do há que se envergonhar de sua arte. Ela é o que é, não precisa ser o que não é, a menos que, ironicamente, uma necessidade REAL se configure. O Wing Chun nunca vai ser boxe, nem precisa ser. Entretanto, a linguagem da luta irrestrita de "rua" está mudando com as competições, e a internet democratizou o acesso ao conhecimento. Se ficarmos apenas nos escondendo em nossa zona de conforto porque alguém no passado criou algo que foi útil há trezentos anos, ficaremos para trás.

Principais técnicas mostradas no artigo: 

Jip Sao 接手 , Ding Choi    , Tiu Gerk 挑腳
   









Destrinchando o Muk Yam Jong, o boneco de madeira do Wing Chun, em uma análise de caso. Parte II

Pois é, assim como o personagem do game Tekken, Mukujin ( 木人) lit. Pessoa de Madeira, Uma corruptela de seu alter ego, Muk Yan Jong ( 木人...